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Ronaldinho, o último futebolista de rua

Ronaldinho Gaúcho animou o futebol porque jogou sempre, mas sempre, com um sorriso na cara. Aos 37 anos, confirmou que não jogará mais futebol da forma como jogava, que era muito mais do que os dribles, as vírgulas, os passes sem olhar, os golos e a ginga que parecia tão natural - era a alegria, a despreocupação, o divertimento

Diogo Pombo

Luis Bagu

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Erguer a mão, esticar o polegar e o dedo mindinho, fechar os três que sobram - é o gesto shaka. Foi inventado no Havai e há teorias variadas sobre a sua origem, nenhuma possível de ter como certa, nem de deturpar o que significa o gesto: é um sinal usado para cumprimentar alguém, agradecer a uma pessoa ou mostrar ao mundo que as coisas vão bem.

É havaiano, mas espalhou-se pelo mundo, tornou-se universal. Muito apegado ao surf, que tem esse arquipélago como um dos berços e passou a ter no gesto um símbolo da sua cultura tranquila, cool, animada e despreocupada. Até que um miúdo de olhos esbugalhados como um peixe, e dentes grandes e tortos e saídos como um castor, longe do que a sociedade definiu como padrão de beleza - até que esse miúdo, diziamos nós, gostou desse gesto.

Laurence Griffiths

Agora contar-vos-ia a história de Ronaldo de Assis Moreira, o futebolista que virou Ronaldinho porque, quando chegou à seleção, já havia um Ronaldo lá antes dele, outro bom e talentoso dentudo que, sendo ainda jovem na altura, obrigou o mesmo comentador que lhe diminuía o primeiro nome a apelidar o novo talento com a região onde ele nascera. Ficou Ronaldinho e ficou Gaúcho por ser de Rio Grande do Sul, mas a história do que ele foi e por onde passou seria sempre menor do que todas as coisas que o vimos fazer.

Ele, com tudo o que cabia dentro dele - o sorriso crónico, o não saber existir de outra forma que não a rir para a vida, o não levar o jogo demasiado a sério -, foi grandioso por ser inspirador. Pela sua forma de ser futebolista que o fez ser o último melhor jogador deste planeta... antes de o futebol se transformar na luta atual, de quem acumula mais números, mais depressa e durante mais tempo.

Muitos jogadores houve a relacionarem de forma notável os pés e o corpo com uma bola, sobre a relva, em corrida e com tipos a carregarem sobre eles com pontapés, rasteiras ou pancadas. Jogadores que nos lembram de como o homem é capaz dos atos mais sobrehumanos. Mas ninguém - e reescrevo - ninguém fez tantas coisas espetaculares parecerem tão simples e fáceis de fazer, fazendo-as sem esforço aparente e sempre, sempre com um sorriso na cara.

E o gesto, o tal gesto.

As bolas que recambiava para alguém com a corcunda das costas, às vírgulas desenhadas com a bola colada ao pé direito, calçado naquelas chuteiras brancas, com o swoosh da Nike que ele sempre usava, que colavam qualquer adversário ao relvado; e os grandes passes, difíceis, que fazia enquanto olhava para o lado contrário.

Os dribles em corrida, em que parecia planar sobre a relva, deslizando com o corpo de cheio de ginga provocada pelo talento, que chegava para fazer dois ou três muito bons jogadores, mas que estava encapsulado num só corpo.

A tudo, Ronaldinho Gaúcho fazia acompanhar com esse gesto, que com o tempo passou a ser o gesto do Ronaldinho.

O mundo conheceu-o, de forma global, em 2002, quando ele ergueu o gesto nas duas mãos depois de ver David Seaman atrever-se para lá do que devia: rematou um livre que devia ser para cruzar, a mais de 30 metros. Mostrou-o, de novo, ao vencer esse Mundial pelo Brasil e fazer-nos perceber que, depois Romário, Rivaldo e Ronaldo, havia outro craque brasileiro começado pela letra “R”.

Na altura, em Paris, demasiado longe das nossas atenções.

Sortudo por ter um presidente recém-eleito com quem o brasileiro simpatizara em eventos organizados pela Nike, o Barcelona seduziu-o. Foi jogar para na equipa, no país, na liga e em competições que magnificam tudo o que de bom lá surja. Ronaldinho venceu dois campeonatos, uma Liga dos Campeões e outras taças com as pessoas, nos estádios ou pela televisão, atentas como nunca estiveram no Grémio e PSG, antes, ou no AC Milan, Flamengo, Atlético Mineiro, Querétaro ou Fluminense, depois.

Recebeu palmas, elogios e carícias no ego, mas não pelo que ganhava.

Era pelo que jogava. Sobretudo, pela forma como jogava.

Como não sou, nem nunca serei, tão bom a escrever como o brasileiro foi a tratar uma bola de futebol, qualquer conjunto de adjetivos ou alegorias que debite serão insuficientes para o descrever.

No entanto, vou continuar a tentar.

Ele ria, mostrava os dentes, brincava e punha uma cara engraçada, quer marcasse um golaço, fizesse uma cueca, humilhasse alguém com uma finta ou fosse rasteirado, empurrado, pontapeado ou sofresse o que o futebol tem como falta e a restante humanidade vê como ofensa punível com prisão.

LLUIS GENE

Riu quando, no Santiago Bernabéu, pareceu viver a uma velocidade e ritmo distintos de toda a gente, encolheu Sergio Ramos na sua incapacidade e marcou dois golos, sozinho, para os adeptos do Real Madrid se curvarem perante ele, com aplausos (2005).

Riu ao chutar a bola com o bico da chuteira, à futsal, imóvel, diante Ricardo Carvalho e do Chelsea (2004).

Enfim, riu, e muito, quando se estreou pela seleção com um golo, aos 18 anos (1998), e riu, por fim, como sempre se ria, ao fazer o mesmo pelo Barcelona (2003), contra o Sevilla, às 1h24 da manhã.

Não vimos mais do melhor de Ronaldinho, que fazia dele o melhor de todos - porque essas horas da madrugada eram, de certa forma, as suas preferidas.

Um diferendo entre a liga espanhola e o Barcelona, devido ao agendamento dessa partida, foi a única vez em que o brasileiro jogou à hora a que, por norma, estaria a deleitar-se com prazeres diletantes. O seu génio futebolístico sempre foi guardado por um animal noturno, mesmo que fosse desmentido os rumores que o corpo, o peso e a forma, com o tempo, foram denunciando.

Os três iniciais anos dos cinco que Ronaldinho esteve em Barcelona elevaram-no ao ponto de conquistar duas Bolas de Ouro, em 2004 e 2005. No topo do mundo, com tudo o que de maior prestígio coletivo e individual havia por ganhar, deixou de nos mostrar o talento à velocidade de Ronaldinho e abrandou até ao ritmo decadente, itinerante, lento e conformado que o ócio impunha a um génio.

O rei, a certa altura, abdicou do trono.

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VALERY HACHE

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AFP / Freelancer

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Buda Mendes

É por isso que, hoje, o Google devolve “Ronaldinho Gaúcho dá uma cantada em repórter bonita” ou “Ronaldinho Gaúcho bêbado” nos resultados de pesquisa por entrevistas.

Em vez de “Ele tem uma habilidade para controlar a bola da qual tenho inveja”, como Lionel Messi, em tempos, disse sobre quem lhe deu o seu primeiro golo, ou “Wow, ele é um jogador de um planeta diferente do nosso”, como pensou Frank Lampard, após o defrontar. Ou, como raciocinou a revista Veja, e melhor alegoria é difícil: “Em vez de ser Pelé, preferiu ser Garrincha”.

Em Ronaldinho, o corpo e a mente deixaram, cedo demais, de ser um só.

Mantendo o sorriso, ele foi dispersando pitadas da espetacularidade dos melhores anos, numa câmara mais lenta, entre Milão, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Querétaro.

Escolheu viver a vida para ele não mais para nós, órfãos do seu jeito para com uma bola de futebol. Completando os últimos dois anos com jogos solidários no Brasil, partidas de exibição no Médio Oriente ou torneios de futsal na Índia, até ao irmão, que foi o pai que ele viu morrer com 7 anos, confirmar, na terça-feira, o que já todos sabíamos.

Ronaldinho, há tempos, garantiu que treinador nunca será. “Não sou capaz de ver 90 minutos de futebol, senão sofro. Gosto de ver os melhores momentos, os golos”, por ser “incapaz de ver 90 minutos de futebol sem sofrer”, garantiu, à Four Four Two, sendo inesperadamente parco ao sugerir o porquê de tantas miúdos terem gostado tanto dele - “Acho que é por parecer, também, uma criança!”.

Acho que não. Ronaldinho Gaúcho foi assim, tão genial, espetacular, empolgante, cativante e árduo de adjetivar porque, na carreira dos salários milionários, profissionalismo de ficar enclausurado em casa e mediatismo exacerbado, optou por jogar como todos nós, em crianças, tentamos jogar na rua: alegre, a arriscar, sem medo ou preocupações e a querer, simplesmente, divertir-se. Ele jogou animado e animou-nos, no processo.

E sempre, mas sempre, com um sorriso na cara.

Denis Doyle