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Se hoje conhecemos Brahimi, o mérito é de Kevin, o jogador que se fez passar por empresário para agenciar a sua própria transferência

Kevin Parienté é um francês que, um dia, estagnado em Israel, começou a adotar o nome do tio para fingir que era empresário e intermediar negócios e transferências. Ajudou Brahimi a trocar o Rennes pelo Granada e, depois, para conseguir o período à experiência no clube espanhol para ele próprio. Confuso? Pois, imagine o dirigente que o contratou

Diogo Pombo

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Já em pleno amor intenso com a bola, a alimentar a relação na única forma que sabe, um dos protagonistas desta história era a uma versão mais nova e menos barbuda do Yacine Brahimi que conhecemos hoje. Tinha 20 e poucos anos, era uma promessa que muito prometia, embora estivesse algo estagnada no Rennes. Passava um pouco ao lado de onde as atenções do futebol mais se focavam – e, ainda por cima, estava lesionado.

Até que um empresário resolveu intervir. E este é o protagonista principal.

Este agente lembrou-se de Brahimi e fê-lo chegar aos ouvidos, e ao conhecimento, do diretor desportivo do Granada através de uns telefonemas. Uns intermediários a mexerem uns cordéis pelo meio fizeram com que o argelino, fintando e ziguezagueando por Espanha, fizesse o suficiente para, mais tarde, chegar ao FC Porto e ser como hoje o conhecemos.

Um caminho que percorreu não apenas por causa do tal empresário, mas, em parte, devido a ele.

O empresário chamava-se Eddy Suissa. Só que não era, exatamente, o Eddy Suissa.

Esse homem era um jogador farto de romarias, um quanto desanimado com o estado da carreira. Em miúdo, jogara no Paris Saint-Germain, onde lhe anteviam muito e ele esperava muito dele próprio, até o futebol começar a escrever torto pelas linhas que apenas são direitas para uns quantos. Ele andou pela equipa B do Levante, voltou a França, jogou em dois clubes, experimentou a Turquia e andava por Israel, carregando um desânimo ainda maior por estar sem clube depois de uma lesão o ter deixado sem bola durante seis meses.

E esse homem, o Eddy que não é o Eddy, desgastado por empresários e pelas maroscas que muitos usam para levarem a sua avante teve uma ideia: “Estava um pouco farto de todos esses agentes desonestos que, na sua maior parte, geriram mal a minha carreira. Por isso, decidi começar a fazer as coisas sozinho”.

E o expectável seria que esse homem, querendo fazer isso, passasse a representar-se a ele próprio, falando e discutindo e negociando em nome dele próprio. Kevin Parienté, ao invés, preferiu olhar para a família e adotar o nome de um tio, por achar que “ser jogador e agente ao mesmo tempo era ilegal”. Achou melhor continuar a ser um jogador e ter uma espécie de alter ego: e assim o futebolista Kevin Parienté transformou-se no agente Eddy Suissa.

O jogador mascarado de empresário começou por colaborar com Patrick Blondeau e Frank Bichon, outros dois agentes, dos verdadeiros, para negociar a transferência de Yohan Mollo do Monaco para o Granada e, seis meses volvidos, para o Nancy. Tornaram-se amigos, a relação cimentou-se e foi aí que Eddy –ou Kevin, como queiram – entrou em contacto regular com Juan Carlos Cordero, o então diretor desportivo do Granada.

Após intermediar alguns negócios sem nunca presenciar um acordo ou assinar o que fosse – delegava sempre os dois amigos empresários para coisas burocráticas –, Kevin foi experimentando a vida de agente até se lembrar de a usar em proveito próprio. A lutar contra uma lesão mal curada em Israel e acabado de ficar sem clube, começou a treinar sozinho e a atingir uma forma física aceitável.

O plano era tentar aproveitar as boas graças em que caíra na relação com o dirigente do Granada, após o aconselhar a contratar Brahimi, e colocar o seu esquema a funcionar.

Trocando uns quantos telefonemas, falou-lhe de um francês que estava a jogar em Israel, que estava a recuperar de uma mazela e que valia a pena observar, à experiência. “Escuta, tenho um bom jogador para ti, não fez grande coisa nos últimos dois anos e está em Israel, mas é bom. Vale a pena fazer-lhe um teste”, disse-lhe, como recordou, em dezembro, no “Le Vestiaire”, programa do SRF, um canal de televisão francês onde foi contar a história.

Com William Gallas e Frank Leboeuf, dois mais do que titulados antigos jogadores, a desfazerem-se em gargalhadas à sua frente, Kevin relembrou como o diretor desportivo do Granada, espantado, o questionou sobre “como podia ser bom um jogador que jogava em Israel”, ao que Eddy, pois claro, respondia: “Se ele for um flop, devolvo-te os custos do hotel e das viagens de avião”.

Como Eddy, o francês conseguiu que Kevin Parienté fosse à experiência para o Granada e, ao fim de “dois ou três treinos bons”, o dirigente telefonasse à sua versão-empresário. “Eddy, ele é um bom jogador e tem talento, mas está cansado. Proponho seis meses de contrato e a treinar com as reservas, se provar o seu valor, assina um contrato de três anos e passa à equipa principal”, apresentou, para, do outro lado da chamada, ouvir o empresário a dizer que os termos seriam apresentados ao futebolista. Caso fossem aceites, ele regressaria de Israel ao clube – na verdade, Eddy/Kevin estava “a 200 ou 300 metros, num hotel perto do centro de treinos”.

A tramóia de Kevin Parienté resultou e, no momento em que se deslocou às instalações do clube para assinar o contrato, tentou falar o menos possível, e da forma mais estranha que conseguiu, para o diretor desportivo não lhe reconhecer a voz.

“Infelizmente, esses seis meses não foram muito bons, tive uma recaída e não voltei ao meu nível. Mas podia ter sido uma história muito bonita”, resumiu, a sorrir e a rir pela forma como forjou uma identidade para se auto-ajudar e tirar partido de uma pessoa com quem, garante, “foi e é sempre um prazer trabalhar”.

Ele assegura que são amigos, mantêm o contacto e mantiveram-no quando Parienté regressou a Israel, onde passou por vários clubes.

Em 2016, terminou a carreira de jogador para ser, de vez, um agente de futebol em nome próprio. Até trocar as voltas a tudo, mais uma vez: esta época está a jogar no Lusitanos, um clube com muitas costelas portuguesas em Andorra.