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Bakambu pagou a rescisão e disse que ia jogar para a China, mas o clube chinês não sabe de nada

Cédric Bakambu é um avançado congolês, bom jogador, mediano marcador de golos e que nunca jogou num grande clube europeu. Mas, há dias, foi noticiado que estava prestes a tornar-se no futebolista africano mais caro de sempre. Ele pagou os 40 milhões de euros da própria cláusula de rescisão, mas o Beijing Guoan diz que não sabe de nada. E então, em que ficamos?

Diogo Pombo

David Aliaga

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Se, por acaso, for apenas um razoável seguidor de futebol - e por essa razoabilidade entende-se seguir o próprio clube, o campeonato nacional e ir espreitando o que acontece com os maiores clubes, das maiores ligas -, é normal se não souber quem é Cédric Bakambu.

Trata-se de um congolês, de 26 anos, cuja posição é avançado e função é marcar golos, que executou com alguma regularidade nos últimos anos. Longe de ser notável ou formidável, Bakambu tinha 38 bolas acabadas dentro de balizas quando, há semanas, se soube que ia abandonar o Villarreal, após duas épocas e meia no atual quinto classificado da liga espanhola.

O Villarreal é um clube bom e simpático, sediado numa terra pequena e pacata, quase com tantos habitantes como lugares no estádio, que tem tradição de lutar sempre pelos lugares que dão direito a jogar futebol além-fronteiras. Como é o Bursaspor, na Turquia, ou costumava ser o Sochaux, em França, clubes que Bakambu representou antes, sem alguma vez ter marcado mais do que 22 golos numa temporada.

Foi este pecúlio, contudo, que congeminou o que se soube no início de janeiro: Cédric Bakambu estava prestes a tornar-se em mais um bom e hábil jogador de um campeonato europeu a deixar-se encantar pela China, ou pela forma como a China compensa a pobreza do seu futebol com a riqueza dos salários que pode pagar.

Foi Bakambu quem o disse - “Vou jogar em Pequim” -, a 17 de janeiro, quando o Villarreal publicou um vídeo de despedida no Twitter, referindo-se ao Beijing Guoan, que acabou a última edição da liga chinesa no 9º lugar e conta com outros populares exilados do futebol, como os brasileiros Renato Augusto e Ralf.

Na altura, noticiou-se que o congolês tinha pagado os 40 milhões de euros da própria cláusula de rescisão, para depois assinar contrato com o clube chinês. Ou seja, imaginamos que o Beijing Guoan o recompensasse no prémio de assinatura, por exemplo. O que tinha uma razão de ser.

O ano passado, a Federação Chinesa de Futebol, para estancar a afluência de jogadores estrangeiros e a falta de filtro no gasto de milhões para os seduzir, aprovou uma nova regra: os clubes passariam a pagar uma taxa de 100% sobre qualquer valor de transferência de um futebolista, valor que reverteria para um fundo destinado ao desenvolvimento de infraestruturas no país. Basicamente, os clubes teriam de pagar a dobrar.

Sabendo desta regra, a imprensa noticiou que o negócio de Cédric Bakambu poderia quebrar o recorde para a transferência mais cara da história de um jogador africano. A marca é de Naby Keita, médio da Guiné Conacry por quem o Liverpool pagou quase 55 milhões de euros, ao RB Leipzig. O negócio de Bakambu, a confirmar-se, poderia chegar aos 80 milhões.

Manuel Queimadelos Alonso

E continuou-se a esperar e a especular, enquanto o Beijing Guoan partilhava fotos do avançado congolês a treinar com a equipa em Lagos, no Algarve, onde está a realizar um estágio de pré-época, noticiou a BBC. A temporada na China apenas arranca em março.

O berbicacho no meio de tudo isto é que, entretanto, o Beijing Guoan reagiu às dúvidas que vários jornais levantaram, devido à demora em Bakambu ser, oficialmente, confirmado como jogador do clube. Reagindo desta forma: “Não estamos a par disto. Soubemos de várias fontes que o jogador rescindiu com o Villarreal por motivos pessoais”.

Os dias foram passando e a especulação aumentando, pois as fotos de Bakambu a treinar foram, mais tarde, retiradas, e suspeitou-se que o clube estaria a tentar ludibriar os regulamentos da federação chinesa, para não ter uma despesa tão avultada. Algo que Bruno Leveel, um dos empresários de Bakambu, confirmou à BBC. “O Guoan está a averiguar se o negócio fica fora da jurisdição do sistema de transferências”, disse o agente que, aparentemente, lida com os direitos de imagem do jogador.

Leveel adiantou que o clube espera poder confirmar a transferência “até ao final desta semana”, garantindo que Cédric Bakambu já assinou um contrato de cinco épocas com o Beijing Guoan. Pode ser que sim, mas, até lá, o congolês permanecerá nesta espécie de limbo que, ninguém, ao certo, parece entender.