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Como é que se diz traição em basco? Perguntem a Íñigo Martínez

Íñigo Martínez nasceu no País Basco, é defesa central, internacional espanhol, estava há quase uma década na Real Sociedad, clube em que se formou, e acabou de o trocar pelo Athletic Bilbao, eterno rival da região, por 32 milhões de euros. E, já agora, traição diz-se " traizioa", em basco

Diogo Pombo

Juan Manuel Serrano Arce

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Já sabemos que, no futebol, as emoções são quase tudo, mesmo que ser futebolista seja uma profissão como qualquer outra: o empregador firma um contrato com o empregado, pagando-lhe um salário em troca dos seus serviços e oferecendo as condições para ele executar o seu trabalho. Este jogo de haver 22 tipos a correr atrás de uma bola para a colocar dentro de uma baliza, porém, é a profissão que mais sensível é à troca de locais de trabalho.

Lá está, é a emoção. E são os adeptos, os clubismos, a adoração por uma equipa, a defesa das cores e as paixões que não se explicam, que, a par de proximidades geográficas ou confrontos repetidos na história, fazem com que certos clubes sejam rivais de outros. Por isso é que Íñigo Martínez fez o que não costuma ser feito por muitos futebolistas.

Esta terça-feira, o defesa central espanhol, que também é basco, trocou a Real Sociedad pelo Athletic Bilbao, dois clubes que são os maiores do País Basco e, portanto, rivais de longa data. Íñigo Martínez formou-se no primeiro, sediado em San Sebastián, onde jogava há oito anos na equipa principal, que lhe permitiu dar nas vistas e conquistar um Europeu sub-21 (2013) e fazer quatro jogos pela seleção espanhola.

Aos 26 anos, ele era uma das referências da Real Sociedad que, época a época, anda quase sempre ali entre os lugares que dão acesso à Liga Europa e à Liga dos Campeões. Íñigo, com os anos, foi sendo cada vez mais falado em hipotéticas transferências para clubes maiores, como o Real Madrid, o Barcelona e, recentemente, o Manchester City. E foi uma compra deste último que desencadeou os acontecimentos que causaram este texto.

A equipa de Pep Guardiola, também esta terça-feira, anunciou a contratação de Aymeric Laporte, central canhoto do Athletic Bilbao, por 65 milhões de euros. Horas depois, esse clube basco confirmava a compra de Íñigo Martínez, igualmente canhoto, por 32 milhões de euros.

Foi buscar o jogador que era quase um símbolo do rival e, há anos, até proferira o tipo de frases que sempre nos podem apanhar na curva, um dia mais tarde: “Nunca iria para o outro lado [Athletic Bilbao]. Desde pequeno que estou aqui [Real Sociedad] e são muitos sentimentos”.

Íñigo trocou um clube basco, mas que aceita estrangeiros, por um que apenas admite que jogadores nascidos no País Basco, ou com um certo grau de descendência, vistam a sua camisola. A imprensa desportiva espanhol escreve que Martínez desejava, há muito, ver o seu salário melhorado no clube, algo que teria conseguido no verão, ao renovar o vínculo com a Real - baixando a cláusula de rescisão dos 40, para os 32 milhões de euros que o Athletic acabou por desembolsar.

Íñigo Martínez, mesmo tendo dito o que disse, terá posto as tais emoções, sentimentos e paixão que o futebol tem, e encarado a sua profissão como isso mesmo, uma profissão. Trocou de empregadores para, ao que parece, aumentar os rendimentos, mesmo que tal não signifique que os resultados desportivos possam melhorar muito. O Athletic Bilbao é o atual 12º classificado da liga espanhola, a Real Sociedad está na 15ª posição.