Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

O futebol que fazia Bob Marley “correr como um possuído”

Nos seus contratos de digressão, insistia que lhe fosse garantida hospedagem perto de um parque ou jardim e que o seu quarto tivesse uma televisão: queria poder jogar e ver futebol quando quisesse. Se fosse vivo, Bob Marley cumpriria, esta terça-feira, 73 anos. E esta é a história possível de contar sobre a relação que a lenda do reggae tinha com o futebol

Diogo Pombo

Sigfrid Casals

Partilhar

Era a sua vontade, já era um hábito, e constava, obrigatoriamente, nas alíneas dos contratos que assinava com as produtoras - para qualquer concerto, fosse onde fosse, ele tinha de ficar hospedado algures onde “o acesso fácil” a um parque, a um jardim, a algo com relva, estivesse garantido. Nesse dia, a um dia do arranque de mais uma digressão, levou as rastas gordas e longas, baloiçantes ao acaso, enfeites no corpo vestido com roupas justas e coloridas, para um espaço verde em Paris, perto da Torre Eiffel.

Combinado estava um jogo de futebol. A 10 de maio de 1976, ele juntou-se com amigos a alguns jornalistas, para se entreterem contra uma equipa de homens de negócios, empresários vários, entre os quais Francis Borelli, que viria a ser presidente do Paris Saint-Germain. Durante essa recreação com uma bola, um adversário pisou-lhe, com força, o pé direito, entrada que lhe arrancou parte da unha do dedo grande.

Esse dedo, por consequência, teve de ser desinfetado e tapado, com uma ligadura, que, conta-se, o obrigou a usar chinelos, ou sandálias, durante a maioria dos concertos da digressão de “Exodus”, nome do álbum que a motivara - eleito pela “Time” como o mais influente do século XX. “Todas as canções são um clássico, desde as mensagens de amor aos hinos à revolução. Mais do que isso, o álbum tem um nexus político e cultural, inspirando-se no Terceiro Mundo e dando-lhe voz no resto do mundo”, justificou, em 1999, a revista.

Por ser esse álbum, por estar próximo do expoente da popularidade, como um alpinista que já avista o cume da montanha, e por outras razões que nunca saberemos, Bob Marley prosseguiu. Alastrou o reggae pela consciência coletiva. Foi o jamaicano conhecido pela rouquidão na voz, a paz nos seus ideais, a revolução nas suas mensagens, o Rastafarianismo na sua fé e a marijuana nas coisas que fumava.

Bob Marley foi música, mas também era futebol.

Robert Nesta Marley, o filho de mãe negra e jamaicana, de pai branco e inglês, adorava o futebol. Já o jogava em Nine Mile, aldeia pobre e isolada nas montanhas da ilha caribenha, de onde se mudou para Trenchtown, bairro em Kingston, sítio na capital do país onde os pobres se encavalitavam em casas de lata, sem saneamento e com cozinhas comuns.

Lá, em adolescente, jogava pelos três clubes do bairro e nas mesmas ruas onde conheceu Peter Tosh e Bunny Livingston, com quem fundou os The Wailing Wailers (mais tarde, mudariam o nome para The Wailers). O futebolista que havia em Bob, nos primeiros tempos, mesmo dedicando-se à bola, era algo gozado: pelo estilo calmo, sem meter o pé e suave com que jogava, chamavam-lhe Miss Marley, escreveu a 8by8, revista de futebol americana.

Desgostoso da forma como o julgavam, o ainda jovem, cujo primeiro single gravado, a solo, intitulara de “Judge Not”, endureceu o estilo de jogo até lhe corrigirem a alcunha. Passaria a Mister Marley.

Algures no final dos anos 60 - Bob Marley nasce em 1945 - conhece Allan “Skill” Cole, o melhor futebolista jamaicano da época, jogador de seleção e que chegaria a jogar nos EUA. Tão próximos se tornaram que Cole, na década seguinte, seria uma espécie de manager do músico, viajando com ele para todo o lado, finda a sua carreira no futebol, durante a qual fora representado pelo pai de John Barnes, craque do Liverpool.

Com ele e os restantes The Wailers, mais amigos, conhecidos e ocasionais visitas, Bob Marley daria muitos toques na bola e improvisaria éne pequenas partidas à porta de casa, em Hope Road. Já longe de Trenchtown e no pátio diante da moradia para onde se mudaria, com a família, na rua onde se tornou vizinho de políticos, homens de negócios e ricos jamaicanos, incluindo o primeiro-ministro. Era aí que, em parte, o futebol os reunia.

GAB Archive

Foi também aí que, numa noite, em dezembro de 1976, atentaram contra a vida de Bob Marley. Em tempos de violência, crime e protestos políticos na Jamaica, o cantor anunciara um concerto solidário, o "Smile Jamaica Concert", apolítico e apartidário, mas ao qual tanto Michael Manly, o primeiro-ministro socialista, e Edward Seaga, o trabalhista e seu principal opositor, se tentaram unir. Ele foi alvejado com uma bala, no braço, que lá ficou, por os médicos o avisarem que uma cirurgia para a remover poderia afetar a mobilidade da mão e dos dedos.

Dois dias depois, com o braço ao peito, atuou durante hora e meia num espetáculo que era suposto durar uma canção. Em 1978, perante as mesmas ameaças e perigos de voltar a ser atacado, atuou, de novo, no One Love Peace Concert, durante o qual obrigou Manly e Seaga a darem as mãos. Por essa altura, já se mudara para Londres com a família, fixando-se no bairro de Chelsea, perto de Battersea Park. Um parque, claro.

Vivendo na Europa, estava mais perto de digressões, de concertos diante de massas e do mediatismo cultural - e do futebol. Os jornalistas foram sabendo dos seus horários peculiares e adaptados a jogos. Em 1978, as suas entrevistas tinham de ser agendadas consoante os horários das partidas do Campeonato do Mundo, conquistado pela Argentina de Mario Kempes e Daniel Passarela. Bob Marley gravava quase todos os encontros, em cassete.

Muitas vezes, justificando que era uma oportunidade para o conhecerem melhor e o verem mais descontraído, convidava jornalistas para jogarem futebol com ele. Ou, pelo menos, para assistirem. Como Julián Ruíz, um espanhol que, em 1980, jogou contra Bob Marley, em Ibiza. “A maior recordação que tenho é a sua respiração atrás de mim, no meu pescoço. O que fazia melhor? Correr e correr, como um possuído. Não falava muito, tinhas que lhe arrancar palavras à força, mas, quando falava, fazia-o como um líder político”, recordou o jornalista, à revista Líbero.

Mais tarde, no Brasil, meses antes de uma nova digressão lhe marcar uma ida ao país do Santos e do Pelé, que admirava, Bob conheceu Chico Buarque. O brasileiro convidou o jamaicano para sua casa, no Rio de Janeiro, onde deram uso à paixão pelo futebol no campo privado do músico anfitrião.

Presente estava Paulo César Cajú, que fora campeão mundial pela seleção brasileira em 1970 e, diz-se, acabou o dia a dissonar das vozes que louvavam os dotes futebolísticos da lenda do reggae: “O jogo foi curto e tudo foi rápido, Graças a Deus, porque estava a ser horrível. O Bob era muito mau. Simplesmente não conseguia jogar. De 1 a 10, dava-lhe um 1,5”.

Aconteceu em 1980, portanto, a exibição de Marley foi, por certo, severamente afetada pelo que soubera três anos antes - os médicos tinham-lhe diagnosticado um melanoma maligno, após Bob desmaiar durante um corrida, em Nova Iorque, desenvolvido pela ferida que, recorrentemente, ele foi maltratando no dedo grande do pé direito, com pontapés, toques e pisadelas. Com o futebol, que insistia, muitas vezes, em jogar descalço. Tinha cancro. E esse cancro, com os anos e a recusa em amputar o dedo, espalhara-se pelo seu corpo.

Mesmo de saúde e corpo decadente, conseguiu, no mesmo ano, dar um concerto em Itália, onde foi visto pelo maior aglomerado de pessoas na sua carreira: cerca de 120 mil espetadores. O local foi o estádio de San Siro, casa do AC Milão e do Inter de Milão. Ao primeiro de 11 filhos, David Marley, deu a alcunha de Ziggy, que muitos dizem ser o significado de “drible” num dialeto jamaicano, mesmo que o próprio o tenha atribuído ao álbum de David Bowie, “Ziggy Stardust”.

Gostando quase tanto de futebol como adorava música, Bob Marley faleceu em Miami, derrotado pelo cancro, a 11 de maio de 1981, aos 36 anos. Aí se começou a erguer a lenda de um músico cujo legado se agigantou, ainda mais, com a sua morte prematura. Bob Marley foi o veículo de um estilo embrionado na pobreza do Terceiro Mundo, de guitarradas pausadas e linhas de baixo pesadas, que o popularizou dali para fora. Ele foi música, mas também foi, e houve sempre, futebol:

“O futebol tem uma aptidão própria, um mundo inteiro, um universo próprio. Adoro-o porque tens de ser habilidoso para o jogar. O futebol é liberdade. Quando o jogo, o mundo acorda à minha volta.”