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O sofrimento de um campeão do mundo, antes dos jogos: “Tenho vómitos e tenho de ir à casa de banho de manhã, depois do almoço e no estádio”

Per Mertesacker tem 33 anos, foi campeão do mundo pela Alemanha, em 2014, e é capitão do Arsenal, mas vai retirar-se no final da época e decidiu revelar, de forma brutalmente honesta, todos os problemas que teve enquanto jogador de futebol de alto nível. E, atualmente, admite que prefere ficar "no banco ou, melhor ainda, na bancada"

Mariana Cabral

Per Mertesacker é capitão do Arsenal

Boris Streubel/Getty

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The BFG. É essa a alcunha dele em Inglaterra, onde mora desde 2011. Chamam-lhe "The Big Fucking German", porque ele é, lá está, um alemão grande como o caraças: tem 1,98m, pesa 90 kg e tem aquela cara, entre o sério e o frio, que nos habituamos a associar aos alemães. Além disso, é defesa central, daqueles que cumprem à risca o essencial (defensivo) da função: impedir que os outros passem por ele e marquem golos.

Ou seja, o trintão Per Mertesacker, aparentemente, tem tudo o que é preciso ter para dizermos que este é um homem duro, forte e seguro de si.

Sim. Sim? Não.

Porque até as aparências do mais impávido dos bávaros iludem quem o vê, todos os fins-de-semana, a dar uns pontapés certeiros numa bola.

Todos os fins-de-semana, os adeptos assistem à sua imponência. Todos os fins-de-semana, ele sente-se impotente.

"O meu estômago dá voltas e voltas, tenho vómitos e depois engasgo-me de tal maneira que os meus olhos ficam cheios de lágrimas", contou Per Mertesacker, numa longa entrevista à "Der Spiegel" em que confessou todas as dificuldades, físicas e mentais, que teve durante a carreira - e que sempre tentou esconder.

"Quando acordo, nos dias de jogo, tenho de ir diretamente para a casa de banho. Depois do pequeno-almoço, vou novamente à casa de banho. Depois do almoço, casa de banho. Quando chegamos ao estádio, casa de banho outra vez. Obviamente, penso: merda, espero que ninguém repare. Mas, depois do jogo, ficava perfeitamente normal outra vez, sem problemas nenhuns", explicou o central de 33 anos, acrescentando que mesmo quando entrava no relvado colocava o braço junto à cara, para controlar os vómitos.

Mas nem sempre conseguia esconder os nervos. "Fritz dizia-me que era muito difícil adormecer quando partilhava quarto comigo. O meu pé direito tremia tanto durante a noite que o cobertor estava sempre a abanar e ele ficava maluco", contou, referindo-se a Clemens Fritz, ex-colega no Werder Bremen e na seleção alemã.

Antes de chegar ao Arsenal, onde é capitão, Mertesacker passou pelo Hannover 96 (2003-2006), pelo Werder Bremen (2006-2011) e pela seleção alemã que foi campeã mundial em 2014, na qual somou 104 internacionalizações.

Per Mertesacker foi campeão do mundo pela Alemanha em 2014

Per Mertesacker foi campeão do mundo pela Alemanha em 2014

Shaun Botterill - FIFA

Ou seja, experiência mais do que suficiente para conseguir lidar com a pressão, certo? Errado. "Em 2006, a ideia de jogar um Mundial em casa era incrível. Claro que fiquei desapontado quando perdemos com a Itália nas meias-finais, mas, acima de tudo, senti-me aliviado. Lembro-me como se tivesse sido ontem, aquele sentimento de 'finalmente isto acabou'. A pressão comia-me vivo. O medo constante de cometer um erro que acabasse num golo adversário. É claro que esse medo existe nos outros jogos, quando olhas para o marcador do resultado e o tempo está a passar, mas num Mundial essa sensação era brutal. Mas será que eu poderia dizer isso a alguém? Dizer que eu estava aliviado por termos sido eliminados?", confessou o defesa alemão.

Mesmo em 2014, quando a Alemanha foi campeã mundial, Mertesacker não aguentava a pressão. Decidiu retirar-se da seleção, já depois de ter perdido a compostura em direto na televisão, depois da vitória sobre a Argélia no prolongamento (2-1) dos oitavos-de-final: "O que interessa a exibição? O que é que as pessoas querem? Lutámos até ao final. Agora vou deitar-me numa banheira cheia de gelo durante três dias".

Ainda assim, Mertesacker fez questão de ressalvar que os nervos não tinham "consequências" no jogo propriamente dito. "Não quero parecer muito dramático, nem quero que isto pareça um choradinho, porque, obviamente, estou consciente dos privilégios que tenho na vida, enquanto jogador de futebol", assegura.

Mas o veterano sabe que havia momentos em que não conseguia aguentar tanta pressão, todas as semanas. "Quando sentia que já não conseguia mesmo continuar, lesionava-me. Penso que muitas das lesões que temos são psicológicas, mas não há alguém a falar sobre esse assunto", disse, acrescentando que, mesmo assim, não aceitava ajuda psicológica quando estava no Werder Bremen.

"Quando o psicólogo falava connosco, todos dizíamos o mesmo: 'Estamos bem, afasta-te de mim, não quero falar contigo'. Quando fazes parte de uma equipa, não queres que os outros pensem que há alguma coisa de errado contigo. Brincas no balneário, se calhar és próximo de algumas pessoas, mas é só isso. Ninguém vai baixar as calças e dizer verdadeiramente como se sentem", admitiu.

Já no Arsenal, Mertesacker conta que finalmente aceitou falar com o psicólogo do clube e que isso ajudou a controlar a sua confiança. Mas, aos 33 anos, sente que já não aguenta mais. "O meu corpo já acabou. Todos dizem que devo aproveitar o meu último ano, jogando o máximo possível, mas prefiro ficar no banco ou, melhor ainda, na bancada. E, pela primeira vez depois dos 30, sinto-me livre na minha vida", admitiu.

Esta época, Mertesacker só jogou 11 jogos e já sabe que em 2018/19 irá ser treinador da academia de formação do clube, algo que o deixa satisfeito. Mas, ainda assim, o ex-internacional alemão diz que não se arrepende da carreira que teve: "Mesmo que tivesse de vomitar antes de todos os jogos e lesionar-me e recuperar 20 vezes, faria tudo novamente. Valeu a pena, por todas as memórias."