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Já ninguém quer ser Mourinho

O treinador que inspirou uma geração de imitadores baratos, entretanto desaparecidos, deixou de ser um ícone e transformou-se num iconoclasta aborrecido e extraordinariamente calculista

Pedro Candeias

OLI SCARFF

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O mais espantoso foi o que ele disse depois daquilo:

- Já estive aqui nesta cadeira pelo FC Porto e pelo Real Madrid, quando eliminei o Manchester United.

O que Mourinho nos quer fazer acreditar é isto:

Para o Manchester United, perder em casa contra o Sevilha é normal. Para o Manchester United, ser eliminado da Liga dos Campeões pelo Sevilha, que foi campeão de Espanha uma vez, em 1946, também é normal. Para o Manchester United, marcar apenas um golo em dois jogos ao Sevilha, cujo valor de mercado é pouco mais do dobro do custo de Pogba (120 milhões), é normalíssimo. Sobretudo porque Pogba está a jogar pouco menos do que metade do que jogava na Juventus - e essa é a nova normalidade em Mourinho.

É preciso recuar muito, pensar muito mais e ser ainda muito mais generoso para com o treinador para encontrar o único futebolista que efetivamente evoluiu neste Manchester: De Gea. Só que esta evolução tem mais a ver com o período de maturação dos guarda-redes – Rui Patrício é o exemplo ideal – do que com o próprio Mourinho; cinicamente, poderia dizer que De Gea está melhor porque, enfim, tem mais trabalho para fazer.

De resto, Matíc é o que é, tal como Lukaku, Valencia, Herrera, Mata ou, agora, Alexis Sanchez são o que sempre foram; Pogba, não é. Pelos vistos, Mourinho acrescentou pouco em Old Trafford, ao contrário do que fez no FC Porto, Chelsea, Inter de Milão e, a uma escala mais reduzida, em Madrid, e em futebolistas como Nuno Valente, Maniche, Damien Duff (!), Lampard, Milito, Materazzi, Khedira, Cas… Bom, Casillas, não, mas julgo que perceberam a ideia: houve um tempo em que havia o tempo antes de Mourinho, com Mourinho e depois de Mourinho. E o pós-Mourinho era extraordinariamente doloroso de ver, com estruturas e equipas e homens que se desfaziam em elogios ao antigo chefe - e em pedaços às mãos do novo chefezinho.

E o destoque de Midas coincidiu com o início do fim da criatividade. Porque também houve uma altura em que o Mourinho foi como Guardiola, inspirando outros a copiá-lo na estratégia, nos maneirismos e nos treinos, com as devidas consequências para os imitadores baratos: desapareceram todos.

Hoje, é difícil encontrar alguém que queira ser Mourinho, patriotismos à parte, obviamente. Ouvi-lo é ao mesmo tempo deprimente e caricatural, um homem brilhante e carismático que se deixou enrolar no ego e nas mesmíssimas desculpas que deixou para trás, há 14 anos. E ver as suas equipas a jogar à bola é um exercício honesto, porque não engana ninguém.

Mourinho vai a jogo para anular o adversário e aproveitar o erro alheio, usando para efeitos de destruição massiva os seus formidáveis carros de assalto (Lukaku, Pogba, Matíc, Aléxis Sanchez), todos eles fisicamente imbatíveis na luta corpo-a-corpo e nos contra-ataques poderosíssimos. É um tal exagero de músculo e testosterona e de canelas que às tantas nos esquecemos que houve uma razão para David ter batido biblicamente Golias: foi, simplesmente, mais esperto do que o grandalhão.

“O Sevilha é uma equipa que esconde bem a bola”, disse ele.

Pois.

Ao deixar de ser um ícone, Mourinho transformou-se num aborrecido iconoclasta, e isso só é justificável perante o patrão que torra centenas de milhões em contratações na medida em que, bom, Mourinho ainda ganha coisas. Por uma razão ou por outra – desconfio que por ter sempre bons jogadores – aquele futebol enfadonho dá resultado em contextos específicos, como a Taça de Inglaterra, a Taça da Liga ou Liga Europa.

E, para o derradeiro resultadista, um troféu é um troféu, e um troféu a mais é melhor do que um troféu a menos. É o que é, mas ele já não é o que foi.