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A má vizinhança de Manchester

O City de Guardiola será campeão se vencer o United de Mourinho, este sábado (17h30, SportTV3), depois de lhe ganhar nos números e no contexto

Diogo Pombo

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Quando perguntamos, surpreendidos, como foi possível um jogador não marcar um golo perante a oportunidade que teve, é porque esperávamos que o fizesse. É quase uma redundância. Como afirmar que, a mais de um mês do fim da Premier League, é natural que ao Manchester City falte apenas uma vitória para ser campeão. Porque é a equipa em Inglaterra de quem mais se espera que marque um golo a cada remate que faz e que menos deixe a bola entrar na sua baliza por cada vez que um adversário a rematar.

Esta expectativa não tem nada a ver com o facto de a equipa de Pep Guardiola ter o melhor ataque (88 golos) e a melhor defesa (21) do campeonato inglês. Nem somos nós que o esperamos. É, sim, a estatística, apropriadamente chamada expected goals, que quantifica a qualidade de um remate à baliza e, segundo os cálculos da Understat, espera que a cada 10 remates o City marque 7 golos.

O que deve ser um berbicacho para José Mourinho, este sábado (17h30, SportTV3), quando o seu Manchester United visitar o City: caso perca, terá a ‘honra’ de ver o rival festejar o título nas suas barbas. E a culpa é do contexto, sem o qual cálculos como o dos golos esperados não têm significado.

Fora essa estatística — que atribui valores a coisas como a distância à baliza, o ângulo do remate, a parte do corpo com que se remata, o passe e a situação que origina, quantos adversários ultrapassa um jogador... —, o Manchester City também lidera em muitos números: é a equipa que mais tempo tem a bola por jogo (66,6%), mais passes acerta (88,9%), mais remates efetua (17,5) e menos permite que lhe façam (6,3), em média, por jogo.

Tudo é consequência do futebol de toque e passe de Guardiola, do jogo posicional a que habituou os jogadores, onde a bola deve correr mais do que qualquer um e todos contribuem para abrir e atacar o espaço (ou reduzi-lo, rapidamente, a defender). Como tudo é uma questão de causa-efeito na outra equipa de Manchester.

Chris Brunskill Ltd

A abordagem de Mourinho, mais preventiva e anuladora das forças dos outros, preferindo muitas vezes o controlo musculado ao domínio vertiginoso, justifica o facto de o United ser apenas a sexta melhor equipa da Premier League nas médias, por jogo, de posse de bola (53,6%), eficácia de passe (83%) e remates feitos (13,7). É apenas a sétima que menos pontapés permite ao adversário (11,7) e a quinta na tabela dos expected goals — a cada 10 remates, 5 devem dar golo.

A qualidade das situações de remate que o Manchester United gera, portanto, está ligada ao estilo mais lento e previsível pelo qual Mourinho é, muitas vezes, criticado. Porque dentro do contexto também há os 349,4 milhões de euros que gastou a contratar jogadores desde o verão de 2016, quando chegou ao clube, em comparação com os 528,8 milhões que Guardiola teve para usar no City durante o mesmo período.

E por isso o português, ocasionalmente, vai deixando bocas e desabafos na direção do seu vizinho gastador, como que sugerindo desigualdades que justifiquem o 6º lugar da época passada e o previsível 2º posto com que terminará este campeonato. A vizinhança está tão distante que há um número neste contexto que resume quase tudo: o Manchester United encontra-se a 16 pontos do rival e, se perder este sábado, vê a Premier League ser conquistada pela equipa de Pep Guardiola. O Manchester City venceu o jogo da primeira volta (1-2), se também ganhar este a vizinhança fica mesmo má.