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Ups, Red Bull, cortaram as asas ao clube errado

O patrocínio na camisola é o mesmo, o equipamento é em tudo igual e o símbolo é muito parecido, parecenças justificadas pelo facto de o dinheiro que alimenta o Leipzig e o Salzburgo vir da mesma carteira. Há já algum tempo que a Red Bull tem um plano para ser uma potência no futebol, mas, na quinta-feira, correu-lhe mal: os alemães que têm sido a prioridade para a empresa, perderam, e os austríacos que estavam meio esquecidos, ganharam e estão nas meias-finais da Liga Europa

Diogo Pombo

Alexander Hassenstein

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É incrível e bonito de se ver, mais uma remontada que nos lembra o quão bonito é o futebol: a equipa que na semana anterior encaixa um 4-2 marca quatro golos em 20 minutos e toda a gente vira doida varrida nesse estádio de Salzburgo, na Áustria, com um povo e um país que não associamos a vibrações eufóricas causadas pelo futebol.

Também encanta ver como em Marselha, no Vélodrome que, sim, é um estádio atmosfericamente eufórico com pontapés na bola, as gentes vibram no 5-2 que faz a equipa francesa virar a derrota da primeira mão. É a segunda remontada na noite reservada à Liga Europa, em que era suposto descobrirmos quem avançaria para as meias-finais da competição e mais do costume: vermos se quem esperávamos iria, ou não, consegui-lo.

E algures a meio desta noite, no alto de camarotes ou gabinetes, terá havido fatos e gravatas da Red Bull a sentirem, talvez, um contentamento agridoce com a forma como a equipa de Salzburgo avançou e a de Leipzig ficou retida em Marselha. Não era suposto que assim o fosse, mas não pelo que se passou no futebol em si.

Mais porque, há coisa de dois anos, a Red Bull decidiu apostar nessa equipa de Leipzig, com mais força do que apoiou, até então, a de Salzburgo. Não é de agora que a empresa, cuja vida e lema é dar asas a quem bebe a bebida energética com que construiu a sua fortuna, quer ver a sua marca a voar no mercado do futebol, mas não planearia que o voo fosse este.

Em 2005, a equipa que mora na capital austríaca foi refundada com o investimento da Red Bull. Os novos donos mudaram-lhe o nome (chamava-se Austria Salzburgo), as cores e o símbolo, desenhando-lhe asas literais para representarem as figurativas que pretendiam dar. O Red Bull Salzburgo nasceu para viver sem falta de dinheiro. Em 12 anos ganhou oito campeonatos, outros 'ene' títulos no seu país e foi pescando peixe pequeno para tornar graúdo.

Era essa uma das maiores intenções, a par de dar nas vistas fora de fronteiras, onde a UEFA, não avessa ao poder de marcas nas suas provas, mas sim nos clubes, os obrigou a refazerem o logo para jogarem nas competições europeias - os touros da marca trocados por uma asa.

O Salzburgo nunca conseguira mostrar-se tanto como agora, nesta quinta-feira, em que passou às meias-finais da segunda prova europeia de clubes. Nunca chegou, sequer, à fase de grupos da Liga dos Campeões - só em 1994, antes de os donos energéticos aparecerem - e passou ver-se mais distante desse objetivo a partir de 2009.

Mas, sobretudo, há coisa de dois anos.

Alexander Hassenstein

No fim da década anterior, a marca que dá asas a toda a gente e que entretanto, também já estava presente nos futebóis dos EUA (New York Red Bulls), do Brasil (Red Bull Brazil) e do Gana (Red Bull Ghana), olhou para a Alemanha.

Arranjou forma de adquirir a licença de um clube pobre e a falecer, o SSV Markranstädt, perto de Leipzig, comprou-o e realizou a prevista operação de cosmética. As cores e o equipamento ficaram semelhantes às dos clubes-irmãos e o nome aproximou-se o possível do que era desejado: nasceu o Rasenballsport Leipzig, abreviado para RB Leipzig, forma que a empresa arranjou de contornar as regras da Federação Alemã de Futebol.

Quatro subidas de divisão em seis anos fizeram-no chegar à Bundesliga, onde acabou a época de estreia no 2º lugar, fintando adversários e estádios alérgicos, com assobios, cartazes e apupos, à sua ascensão a pulso financeiro. Chegou à Liga dos Campeões esta temporada, defrontou duas vezes o FC Porto, na fase de grupos, caiu depois para a Liga Europa e foi jogando por a UEFA, no fundo, ter deixado.

A entidade teve de investigar e averiguar se não existiu um conflito de interesses entre os clubes de Salzburgo e de Leipzig, dentro do interesse da Red Bull em ser vista no futebol europeu, quando, no arranque da época, ambos tinham hipóteses de jogar na Champions.

Porque, até há bem pouco tempo, os clubes partilhavam diretores executivos e os tais fatos e gravatas que terão sido apanhados de surpresa na quinta-feira. Até Ralf Rangnick, um dos elogiados crânios que ajudou a revolucionar o futebol alemão, no pós-hat-trick de Sérgio Conceição e do trauma de 2000, ainda trabalhava como diretor desportivo de ambas as equipas em 2015.

Ele, como a Red Bull, passou a concentrar-se em Leipzig, para onde, em 2016, começou a ser canalizado tudo quanto é bom jogador apanhado na rede global da empresa. Miúdos como Bernardo Júnior (entrevistado pela Tribuna Expresso, há quase dois anos), Naby Keita, Dayot Upamecano ou Kevin Sabitzer, que jogaram todos em Salzburgo antes de a gestão achar que estariam melhor em Leipzig.

As fichas passaram a estar na cidade do leste da Alemanha que, caído o muro em 1990, por fim tem um clube ganhador, europeu e falado no futebol. O clube ao qual a Red Bull muito tem feito para dar asas, investindo e contratando apenas jogadores com menos de 25 anos, para evoluírem e renderem em curva ascendente, deixando os outros que a marca tem a operarem quase como satélites.

Tudo parecia estar a correr bem até ao dia em que um desses, que tinha as asas mais curtas, voar mais alto do que a equipa bonita da Red Bull.