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Nuno Espírito Santo e a carreira de treinador: "No Porto aprendi que o empate não é um resultado positivo"

Num texto na primeira pessoa, o técnico que garantiu a subida do Wolverhampton à Premier League, passa em revista a carreira de treinador: da influência de Mourinho e Jesualdo Ferreira, às passagens por Rio Ave, Valência e FC Porto. Pressão, sentiu-a no Dragão. Hoje, está num processo: o de aprender a desligar.

José Coelho / Lusa

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A ideia de se tornar treinador "chegou tarde". Mais ou menos quando começou a perceber que a bola corria demasiado rápido para as suas pernas. Para mais, a visão do banco era algo a que estava habituado.

"Vou ser honesto. Eu fui guarda-redes, mas ao longo da minha carreira passei quase tanto tempo no banco como a jogar. Isto deu-me duas visões. Duas perspectivas. Isto permitiu-me ver o jogo, ver o espaço, ver tudo. Ajudou-me no modo como entendo o futebol hoje".

Nuno Espírito Santo abre o livro num texto na primeira pessoa escrito no início de abril para o site "The Coache's Voice" e hoje recuperado pela edição de domingo do britânico "The Guardian" na sequência da subida dos Wolves, este sábado, à Premier League.

"A minha ideia de me tornar treinador chegou tarde, ainda assim. Mas quando percebes que a bola anda mais rápido que tu, pensas: “Ok, adoro jogar. Quero continuar neste jogo, mas não como jogador”.

E no processo de maturação do técnico, NES, como é conhecido no meio, tem duas referências a fazer: José Mourinho e Jesualdo Ferreira.

Jesualdo "faz sentido em tudo o que diz"

“Aprendi muito com os treinadores com os quais joguei. No Porto, com o José Mourinho, ganhamos tudo com um grupo fantástico de jogadores. O Mourinho construiu aquilo. Ele fez-nos ter sucesso, ganhar tudo. Isto tem um grande impacto", refere.

Mais tarde, de novo no Porto, aparece Jesualdo Ferreira ao serviço de quem tudo mudou: "Tantos anos no futebol, e um homem que faz sentido em tudo o que diz."

"Jesualdo Ferreira deu-me a minha primeira experiência como treinador, no Málaga e no Panathinaikos. Tinha uma equipa muito boa a trabalhar com ele - um deles, o Rui Pedro Silva, é agora meu adjunto nos Wolves - mas é aqui que tudo muda. Adotas uma filosofia. Uma visão de como o futebol funciona. Mas acrescentas a essa visão a tua visão do jogo, a visão do interior do balneário", escreve Nuno.

Nuno recorda que foi no Rio Ave que assumiu o primeiro desafio como treinador principal e o balanço não podia ser mais positivo: "No primeiro ano, terminámos em sexto". Foi altura de subir a parada: "O momento em que soube que ia para o Valência foi incrível", diz.

O Mestalla cheio e os adversários de nomeada mundial foram todo um novo mundo para o antigo guarda-redes. Mas o grande teste, confessa neste texto, foi a chegada ao FC Porto.

No Porto "tens de ganhar todos os jogos"

Ter sido jogador no clube deu a Nuno a confiança de conhecer a estrutura e a cultura. Querer que o clube ganhasse, fê-lo sentir que bastaria ser ele próprio para que as coisas resultassem. A lição provar-se-ia mais dura.

"Aprendi muito na minha passagem por lá. Primeiro de tudo, que um empate não é algo que se possa encarar como positivo. Como treinador, isso faz-te crescer. Tens de ganhar todos os jogos, e trabalhas 24 horas por dia nesse sentido. Nada mais acontece na tua vida. Não podes relaxar. Não podes. Tudo é sobre ganhar, e isso estimula-te e torna-te mais forte", reforça.

Nuno Espírito Santo fez-se mais forte, mas confessa que hoje quer aprender a desligar depois de duas épocas de enorme pressão, no Valência e no FC Porto, que deixou em maio do ano passado para depois assumir o comando dos Wolves.

"É difícil, mas fazes melhor quando tens as ferramentas que te ajudem a desconectar. Estou nesse processo. Consigo desligar-me às vezes, e só pensar na vida. Mas no ano passado e no ano antes desse não foi assim. Isto vem com o tempo."

Desligar faz assim parte da sua ideia de futebol, a ideia que o levou a ponderar se ir para a segunda liga inglesa era uma boa opção. Concluiu que sim.

"Não é sobre o Championship mudar a tua ideia. Não. É a tua ideia dentro do Championship. Conseguiremos concretizá-la? É possível fazer valer a tua ideia, a tua filosofia? Nós pensamos nisso e achamos que sim", conta.

O campeonato ainda não terminou, mas a subida ao escalão máximo do futebol inglês está garantida. Valerá a ideia de Nuno na Premier League? Tal como a capacidade de desligar no futebol, é coisa que só com o tempo virá.

  • NES, de Nuno Espírito de Subida à Premier League

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