Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Pareceu improvável que um intelectual de boulevard pudesse controlar balneários cheios de bárbaros desdentados

Wenger anunciou que vai deixar o Arsenal e não podemos noticiar sem analisar acontecimento assim. Porque Wenger é especial, ainda que não triunfal, pedimos ao escritor Bruno Vieira Amaral que nos explique o que nos aconteceu nestes 22 anos de Arsenal de um só homem: iremos a 1996, àquele dia em que o Arsenal apresentou Wenger como treinador e “os ingleses encontraram no francês com ar de mestre-escola da Provença o alvo ideal para os seus exercícios de ceticismo em relação a tudo o que vinha do continente”, e acabaremos nestes dias de 2018 em que Wenger se tornou “especialista em justificar os fracassos”

Bruno Vieira Amaral

epa

Partilhar

Arsène Wenger – Esta carreira teve duas partes distintas

Raymond Poulidor é um dos nomes míticos do ciclismo mundial. Nunca venceu o Tour, mas ficou em 2º lugar um número suficiente de vezes para garantir um lugar especial no panteão velocipédico e no coração do público. O azar de Poulidor (ele que foi, à sua época, a personificação do azar) foi ter sido contemporâneo de Jacques Anquetil e de Eddy Merckx, o Canibal. Para muitos o maior ciclista de sempre, Merckx não se preparava exclusivamente para o Tour ou para qualquer outra das grandes voltas. O seu objetivo era vencer tudo e todos. Mais do que um canibal, pronto a devorar os inimigos, era um Catóblepa, o animal mitológico que só podia olhar para baixo, como se todas as provas fossem um contra-relógio e o único adversário de Merckx fosse ele mesmo. Pode dizer-se que na primeira parte do seu longo consulado em Londres, Arsène Wenger foi Merckx e que, na segunda parte, foi Poulidor. Como se costuma dizer em linguagem de flash interview: “esta carreira teve duas partes distintas”.

Depois de levar o Mónaco a uma final da Taça das Taças contra os alemães do Werder Bremen, em 1992 (a mais triste final das competições europeias, se não contarmos com a verdadeiramente trágica do Heysel, disputada num Estádio da Luz deserto), Wenger exilou-se no pouco conceituado campeonato japonês para orientar o Nagoya Grampus Eight. É verdade que, na altura, o Japão procurava afirmar o seu campeonato, mas era estranho que um dos treinadores europeus mais promissores fosse desperdiçar os seus talentos num futebol de faz-de-conta. Por isso, quando, em 1996, o Arsenal apresentou Wenger como treinador, os ingleses encontraram no francês com ar de mestre-escola da Provença o alvo ideal para os seus exercícios de ceticismo em relação a tudo o que vinha do continente. Naquele tempo, é bom não esquecer, o melhor campeonato do mundo era a Série A e, apesar de alguns períodos de domínio continental e de alguns epifenómenos tecnicistas como Chris Waddle ou Paul Gascoigne, o futebol inglês permanecia numa caverna insular de kick and rush, imune aos desenvolvimentos do desporto noutras paragens. Futebolista britânico era sinónimo de estivador de chuteiras como Tony Adams ou Vinnie Jones, o equivalente no relvado aos hooligans da bancada.

reuters

A desconfiança não se devia apenas ao ar circunspecto e professoral de Wenger, embora parecesse improvável que um intelectual de boulevard pudesse controlar balneários cheios de bárbaros desdentados. Wenger foi mesmo um dos primeiros treinadores estrangeiros na Premier League (na temporada em que se estreou, 96/97, só havia outro treinador não-britânico, o holandês Ruud Gullit, que orientava o Chelsea). Sim, numa época em que Carlos Carvalhal é sensação no “melhor campeonato do mundo” pode parecer estranho que tenha havido um tempo em que os cérebros por trás das equipas inglesas eram todos pescados no mercado interno. Mas era mesmo assim e muitos duvidavam que um treinador estrangeiro, um continental, fosse capaz de entender as particularidades do futebol inglês, como se se estivesse a falar de culturas e religiões diferentes em que mais depressa um missionário enviado para evangelizar os pagãos se converteria aos rituais britânicos do que conseguiria convencer um autóctone da bondade das suas ideias. O mito das dificuldades específicas da Premier League ainda permanece, embora talvez menos pujante, e foi resumido para a eternidade pelo comentador Andy Gray na famosa frase “but can they do it on a cold rainy night in Stoke?”.

Wenger chegou com vontade de fazer jus à fama de Professor Pardal e substituiu a descontraída cultura de pub por uma metodologia de laboratório com dietas rigorosas, controlo de peso dos atletas e planeamento científico dos treinos. Convém igualmente não esquecer que a chegada de Wenger ao futebol inglês coincidiu com a entrada em vigor da Lei Bosman. Poucos perceberam a mudança sísmica que se avizinhava. Munido com os seus métodos de ponta e, aproveitando as novas regras da Lei Bosman, jogadores estrangeiros com grande potancial, Wenger transformou o futebol inglês. O capitão continuava a ser o irascível e rupestre Tony Adams, mas o futebol desse Arsenal que dividiu o domínio da Premier League com o Manchester United de Ferguson, há de permanecer na história graças ao perfume de Dennis Bergkamp, à força de destruição criativa do tandem Petit-Vieira, à arte de Robert Pires e ao fulgor de uma gazela chamada Thierry Henry. Não pode ser coincidência que os melhores anos de Wenger à frente do Arsenal correspondam à idade de ouro da seleção francesa, desde as meias-finais do campeonato da Europa de 1996 à final do Mundial de 2006, com a conquista do Mundial e do Europeu pelo meio, e o ocasional desastre em 2002. Se a maior conquista de Wenger foi o campeonato de 2003/04, em que o Arsenal não sofreu uma única derrota – feito que nem o melhor Chelsea de Mourinho, nenhum United de Ferguson e nem sequer o Super City de Guardiola conseguiram igualar –, a final da Champions de 2006, perdida para o Barcelona, foi uma espécie de canto do maravilhoso cisne criado pelo treinador francês.

reuters

É curioso que o grande feito de Wenger tenha sido para consumo interno e que nunca tenha encontrado a chave para o sucesso na Europa. Durante o seu longo mandato, Wenger viu três clubes ingleses conquistarem a Champions, incluindo o Chelsea, que assim pôde reclamar para si a glória paroquial de ter sido o primeiro clube da capital inglesa a conquistar o troféu. Depois do triunfo dos Invencíveis, o Arsenal nunca mais foi campeão. Os treinadores estrangeiros passaram a ser a regra, Mourinho apareceu para assumir, entre outros, o papel de Némesis do francês e, com os anos, Wenger tornou-se não tanto num especialista em fracasso, como o apelidou Mourinho, mas um especialista em justificar os fracassos, alinhando em sua defesa uma série de conquistas simbólicas ou menores (apuramentos consecutivos para a Champions, taças e supertaças, etc.) e sublinhando o carácter “diferente” do clube de Islington, como se este fosse uma agremiação de cavalheiros idealistas numa luta desigual contra psicopatas sem escrúpulos e com acesso ilimitado a fundos de origem duvidosa. A cada fracasso, Wenger passou a recitar a litania do Arsenal-David contra os adversários-Golias em que estes, ao contrário do que acontecia na história bíblica, ganhavam porque, bem, eram gigantes e malvados. No entanto, há quem justifique a fase-Poulidor de Wenger com a perda do seu próprio gigante, Patrick Vieira. De repente, o treinador francês ficou com uma cratera no meio-campo e tentou calafetá-la de todas as maneiras possíveis, desde sucedâneos de Vieira (Gilberto Silva, um Vieira de marca branca, a Granit Xhaka, que de sólido só tem o nome) a uma multiplicidade de jogadores elegantes, franzinos e propensos a lesões, com destaque para Fabregas, Rosicky, Arshavin e Ozil, que, apesar das inegáveis qualidades de cada um, partilham o dom de pôr os adeptos a suspirar pelo tempo em que Vieira sustentava toda a equipa como um Atlas.

Os próprios adeptos do Arsenal, confortados com os apuramentos para a Champions e outras conquistas paliativas, adotaram a narrativa de Wenger de um clube com uma “philosophie” diferente, um viveiro de jovens jogadores, uma estufa de promessas em flor contra a produção intensiva e industrial dos adversários. Só que tudo tem os seus limites e assistir à ascensão e ultrapassagem dos vizinhos do Tottenham terá sido um deles. Havia uma linha a separar a narrativa da resistência heroica a um novo modelo de negócio da aceitação resignada de um lugar secundário na hierarquia do futebol inglês. Durante anos, graças aos créditos conquistados na sua fase-Merckx, Wenger equilibrou-se precariamente nessa linha. Agora, 14 anos após o último título, finalmente caiu. Dizem que saiu para não sofrer a ignomínia de ser despedido. Resta saber se o Wenger que os adeptos guardarão é o das grandes conquistas ou o dos grandes fracassos. Ou até se é possível guardar um e esquecer o outro. É que o período de ouro de Wenger ganha um brilho maior em contraste com os insucessos da segunda metade da sua carreira londrina. E, assim, o eterno segundo, o “especialista em fracasso”, seria lembrado por esses anos breves mas inesquecíveis em que foi roi et seigneur da velha Albion.