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A final da Taça de Itália é a história entre um maníaco obsessivo e uma seriedade carrancuda

Quando um ia a meio de uma carreira algo banal, apanhou o início da aventura de um tipo que salivava para roubar bolas e levar a melhor dos outros pelo físico. As correrias agressivas de Gennaro Gattuso jogaram com o feitio sério de Massimiliano Allegri, muitos anos antes de o segundo treinar o primeiro. Esta quarta-feira, defrontam-se a partir dos bancos do AC Milan e da Juventus na final da Taça de Itália (20h), a primeira - sim, leu bem, a primeira - que Gianluigi Buffon deverá jogar nos 17 anos que conta no clube de Turim

Diogo Pombo

Marco Canoniero

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É certo que uma pessoa se define pelo que lhe vai na cabeça e pela forma como pensa, mas quem a vê de fora define-a, primeiro, pela maneira como age. Convém que saibam, se não souberem já, de algumas formas de agir de Gennaro Gattuso, para ficarem com uma melhor ideia da pessoa sobre quem se vai escrever.

Um dia, quando ele ainda era um jogador recém-saído da adolescência, trocou a romântica Itália pela Escócia dos duros costumes, um futebol mais condizente com a sua forma de ser e jogar. Antes de um dérbi de Glasgow, contra o Celtic, o treinador do Rangers fez-lhe um pedido, com gentileza: “Por favor, Rino, não sejas uma besta. Não leves um amarelo demasiado cedo”.

Gattuso tinha 19 anos e já o alcunhavam com o nome de um dos mamíferos mais pesados, violentos e temperamentais do planeta. Esse partida arrancou, 20 segundos passaram e o árbitro mostrou-lhe um cartão amarelo. Irritado, o italiano chegou ao balneário, no intervalo, pontapeou o cacifo e de alguma forma acabou com um sobrolho aberto. O inchaço e o sangue a jorrar mal o deixavam ver e ele queria ser substituído, mas Walter Smith, o técnico que o urgiu a comportar-se, ordenou que fosse cosido para continuar em jogo. Foi uma espécie de castigo.

Em quase todos os dias na vida que teve, enquanto futebolista, Gattuso não dormia na noite anterior aos jogos. O italiano era “maníaco” e tinha um feitio “demasiado intenso”, palavras do próprio, ficava acordado a ver televisão ou entreter-se com uma consola, deixando as horas de sono para a tarde que antecedia as partidas. Até admitiu que, em 2003, teve que dormir no sofá nas duas semanas prévias à final da Liga dos Campeões, por estar “tão bombeado”. Surpresa, ele raramente teve um companheiro de quarto durante a carreira.

E, noutro dia, ele já trintão e experiente, com caráter supostamente mais calmo e temperado, sentiu que havia demasiada tensão entre a equipa do AC Milan que estava a horas de jogar a meia-final de uma Liga dos Campeões, contra o Manchester United. Achou que esses jogadores, acostumados a ganhar, ter canecos entre as mãos e enfrentar partidas deste tipo, precisavam de algo para aliviar essa tensão e, portanto, Gattuso decidiu comer um caracol vivo à frente de toda a gente.

Nesse dia, um dos pares de olhos que assistiu à tentativa de aliviar a tensão no ar pertencia a Massimiliano Allegri, o treinador, provavelmente já ciente de como um episódio destes só poderia vir de um jogador em específico.

Claudio Villa

Antes de o treinar durante o último grito do mítico AC Milan, do qual Nesta, Zambrotta, Seedorf, Pirlo, Ambrosini e Inzaghi levaram a mística com eles, em 2011, os dois técnicos que se defrontam esta quarta-feira, na final da Taça de Itália, conheceram-se no Perugia, em 1996 - quando a seriedade carrancuda de Allegri era a personalidade por trás da braçadeira de capitão.

Essa equipa recebeu as correrias agressivas de um miúdo a cumprir o primeiro ano no futebol sénior. Estava a sair da puberdade, a crescer nos 16 anos, mas já só pensava em correr, ir ao ginásio, pesar-se todos os dias e comer frango e arroz branco a cada refeição. “Ele era o meu capitão, sempre me respeitou, sempre me deu a mão e sempre me tratou como um verdadeiro jogador. Nunca o esqueci”, disse, há dias, o outrora obsessivo e, por estes dias, mais ponderado Gattuso que treina o AC Milan.

A culpa de a equipa listada de vermelho e preto ter, desde dezembro, um estilo com mais quilometragem em campo, mais agressivo e que dá mais valor a cada jogada disputada, é dele. Gennaro Gattuso substituiu Vincenzo Montella no banco do clube que lhe falou ao coração e arriscou em apostar num treinador, pela experiência das suas ações, volátil.

Mas Gattuso estabilizou uma equipa para a qual estabilidade, desde o tal ano em que venceu o scudetto pela última vez (2011), é tão rara como ver um humano a não deitar lixo para o chão. Mesmo ainda não sendo espetacular, ou particularmente animado, porque é falível e os golos custam-lhe (é o pior ataque entre os dez primeiros da Série A), o AC Milan já não é tão dócil por ter agora um treinador que nunca soube o que isso é.

E, entre as 15 vitórias, nove empates e sete derrotas que têm juntos, chegam a esta final da Taça da Itália muito graças à mudança de atitude. Agora há um treinador que cobra, grita, exige e sabe o que fazer para unir os jogadores como se uma guerra houvesse para travar, mesmo que isso, às vezes, o faça dizer que talvez a equipa não teria sofrido um golo se um jogador (Çalhanoglu) tivesse “levantado o rabo do chão” em vez de protestar com o árbitro.

Essa desavença surgiu numa derrota com a Juventus, a equipa séria, organizada e nunca descomposta que Massimiliano Allegri monta, há quatro épocas.

Juventus FC

A senhora a quem um país chama de velha está a um ponto de garantir o sétimo campeonato seguido. A maior fatia deste sucesso em cadeia é do engenho estruturado de Allegri, treinador que canaliza tudo para ter a equipa (com mais recursos de Itália) mecanizada a agir e reagir ao que quer que seja.

Imperturbável face a tudo o que lhe ponham à frente, como ele parece ser, quer pelo feitio, quer pelas feições que a genética lhe deu: fechadas, algo tristonhas, carrancudas. Aparentemente inalteráveis pelo que a vida lhe possa dar, em tudo o contrário a Gattuso. “O Rino é um apaixonado por futebol e uma grande cabeça. Não é fácil entrar no AC Milan numa situação complicada. Quando foste um grande campeão, ser colocado em causa não é fácil, mas o Rino está a ter sucesso. E vejo que ele melhorou, está um pouco mais pacífico”, brincou, contudo, ao falar do amigo antes da final.

Nesta equipa velha e envelhecida, o mais idoso é Gianluigi Buffon, que na idade partilhada com Gattuso (40 anos) nunca tinha chegado à decisão da Taça de Itália com a Juventus.

São 17 anos de vida em Turim e só neste, que provavel e infelizmente será o último da carreira, o guarda-redes volta a ter hipótese de conquistar o troféu em que não tocou em 1999, com o Parma. Num tempo em que chegou a jogar contra o tipo sério que o tem treinado e o maníaco que tentará fazer com que perca a última final da carreira.