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Arsène Wenger: o dinossauro chocado que ainda não esvaziou a secretária, nem sabe o que vai fazer

Há coisa de uma semana, o treinador francês disse adeus ao Arsenal, após 22 anos ligado ao clube de Londres e 34 de trabalho ininterrupto. Agora que está desempregado, Arsène Wenger deu a primeira entrevista e confessou ainda não saber o que fará com o seu tempo: "Não consigo ficar estendido na praia o dia todo. Aborrece-me. Vivi e respirei futebol durante estes anos todos, não me imagino a fazer outra coisa". O que será que vai fazer agora?

Diogo Pombo

Robbie Jay Barratt - AMA

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Devido ao grande, vastíssimo, enorme, variadíssimo tempo de vida que passou no Arsenal, para o qual todos os adjetivos são poucos, porque foram 22 anos, Arsène Wenger cedeu à habituação. O treinador que já gostava de futebol ficou apaixonado e, sem o saber, estava a condenar-se a sentir o que lhe vai agora na alma - estranheza, inquietação e ansiedade ao ver amigos, alegremente, a desfrutarem do seu tempo livre na praia, deitados na areia.

Wenger é incapaz de o fazer e os 1.235 jogos, os 19 títulos e todos os incontáveis dias a queimar pestanas pelo Arsenal são algumas das razões. “Tenho amigos que vão se deitam durante todo o dia na praia, nas férias, e invejo-os. Simplesmente não consigo. Aborrece-me. Tenho de estar a fazer algo, preciso de um desafio”, disse o francês, sentado no café de um hotel, em Paris, ao falar com o “The Guardian” na primeira entrevista que deu após sair do Arsenal.

Dissociar o francês do clube londrino é esquisito, até para ele. O treinador explicou que viveu e respirou futebol durante tantos anos que se tornou “uma paixão”, que não o deixa “imaginar-se a fazer outra coisa”. Wenger confessa estar “num momento entusiasmante” por ter “uma página em branco à frente”, a pedir-lhe uma decisão - que Wenger só vai tomar a partir de 14 de junho.

Por coincidência, é o dia em que o Campeonato do Mundo arranca.

Neal Simpson - EMPICS

Nesse dia, o alto gaulês com um corpo de esparguete e postura de monsieur, estará em algum estádio na Rússia, a comentar um qualquer jogo da competição para a BeIn Sports, canal de televisão que o contratou. Será a mudança de ares para quem já não mudava de profissão, ou, pelo menos, de ambiente laboral, desde o tempo em que os temas em Inglaterra era o divórcio real entre Carlos e Diana e a uma nova banda sensação, de seu nome Spice Girls.

Nesse outro dia, o primeiro no futebol inglês do homem que exilado estava a treinar no Japão, o jornal London Evening Standard preencheu a capa com a seguinte pergunta: “Arsène Who?”. A resposta era, e foi, Wenger a conquistar a dobradinha à primeira época completa no clube, a ir conquistando sete Taças de Inglaterra (mais do que Liverpool e Chelsea têm, juntos) e a formar uma equipa que ficou 49 jogos sem perder, entre 2003 e 2004, e a história guardará como “Os Invencíveis”.

É assim que um artigo, destinado à primeira vez que falou no pós-Arsenal, acaba por se alongar sobre o homem que permaneceu 22 anos no mesmo clube, numa Premier League onde, em média, um treinador não dura mais de 20 meses no mesmo poiso.

Arsène Wenger conquistou tanto para lá de troféus e títulos que até ele caiu na própria armadilha. “Como qualquer bom escritor sabe, ter uma página em branco à frente pode ser um tempo de angústia, mas espero que não dure muito”, antecipou, esperançoso, ao “The Guardian”. O francês, de 69 anos, confessou que ainda terá de retornar ao escritório que foi seu no Arsenal, porque “ainda nem esvaziou a secretária e, de certa forma, ainda [está] em choque”.

É obrigado a regressar às instalações que, há 22 anos, quando as conheceu, eram um campo de treinos partilhado pelo Arsenal com uma universidade, um local para os jogadores comerem bifes acompanhados por batatas fritas antes dos jogos e de onde saiam para beber cervejas depois.

Não tinha o complexo desportivo que Arsène Wenger ajudou a desenhar, ao corredor, ou o estádio para cujo plano ele serviu de conselheiro, ou as preocupações por nutrição, ioga e horas de descanso, género de preocupações que o francês, meticulosamente, deu ao clube e, por arrasto, ao futebol inglês.

Wenger inovou, encantou com a forma de jogar futebol que perdurou, durante vários anos, até às épocas mais recentes em que o Arsenal se deteriorava a cada ano passado. “Será que quero continuar a sofrer tanto?”, perguntou, para o ar e o jornalista que o entrevistou, não sabendo a resposta, mas tendo a certeza de querer “continuar a defender as [suas] ideias de futebol”.

Nick Potts - PA Images

Mas ele diz que ainda é muito cedo para decidir o que irá fazer a seguir.

Arsène está com 69 anos e tem plena noção do que é, ou representa, para muita gente. “O meu tipo de lealdade, provavelmente, já não existe. O dinossauro em que me tornei é talvez o último símbolo de tempos que mudaram. Hoje vivemos numa sociedade que é rápida a rejeitar”, filosofou, bem ciente de como, nos últimos três ou quatro anos, um dos temas do dia no Arsenal foi sendo quando iria o francês embora.

Para não escrever que permanecerá o legado do treinador, porque não sabemos, nem ele, se ainda vai treinar algures, fica o raciocínio que Wenger deixou, quando, na penúltima jornada da Premier League, se despediu dos adeptos do Arsenal, emcasa. O tipo de frases e pensamentos que o fez ser admirado durante tanto tempo, por tanta gente:

“Se Deus existe e, um dia, eu for lá acima e me perguntar: ‘Queres entrar? O que fizeste na tua vida?’, a única resposta que terei é: ‘Tentei ganhar jogos de futebol’. Ele dirá: ‘Isso é tudo o que fizeste?’ E só terei uma resposta: ‘Não é tão fácil como parece’”.