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Bielsa no Leeds United. O homem que quer jogar futebol como se joga na rua vai atacar subida à Premier League

Treinador argentino de 62 anos assinou contrato de dois anos com o clube inglês. Leeds United não joga a Premier League desde 2003/04. Bielsa diz que sempre quis treinar em Inglaterra

Hugo Tavares da Silva

Jean Catuffe

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Aquele Leeds United de David O’Leary era qualquer coisa. Rio Ferdinand era patrão, Ian Harte um craque nos cruzamentos e livres com a canhota, Dacourt e Bowyer controlavam as batalhas a meio campo, Alan Smith e Viduka aterrorizavam as balizas alheias. Em 2000/01 fizeram cócegas no céu, quando chegaram às meias-finais da Liga dos Campeões. O Valencia de Cañizares, Mendieta e Aimar fechou a porta ao sonho.

Essa equipa de O’Leary terminou na quarta posição na Premier League, um lugar abaixo do que fez na época anterior. Eram dias dourados, com craques como Robbie Keane e Harry Kewell a darem-se a conhecer ao mundo. Quatro anos depois, como um murro no maxilar daqueles que ficaram apaixonados por aquele conto de fadas, o clube desceu para o Championship e nunca mais saberia dali sair.

Marcelo Bielsa, de 62 anos, foi anunciado esta sexta-feira como novo treinador do Leeds United. O argentino, obcecado pelo futebol de ataque e ética, é um daqueles casos raros em que o currículo magrinho não belisca a admiração que muitos têm por ele. Pep Guardiola disse há alguns meses que Bielsa era o melhor treinador do mundo. Enquanto selecionador do Chile, por exemplo, nada venceu, embora provavelmente tenha preparado o terreno para as vitórias de Sampaoli, mas é reconhecido como alguém que devolveu o orgulho àquela gente. Foi campeão olímpico com a Argentina em 2004, com Tévez, Mascherano, Lucho, Mariano González e Saviola. Com os graúdos, a memória que fica foi a desilusão em 2002, quando Batistuta e companhia ficaram pelo caminho na fase de grupos do Mundial.

Claro que no currículo também há histórias, timings e saídas que talvez ajudem a perceber o seu feitio mais complicado. Na segunda época no Marselha, após a primeira jornada, abandonou o cargo de treinador. Seguiu-se a Lazio, donde fugiu dois dias depois de assinar. E, finalmente, o Lille, recomendado por Luís Campos. O argentino somou apenas três vitórias em 13 jogos e acabou por ser despedido. Mas o CV também grita coisas boas: campeão no início da carreira com Newell’s Old Boys e Vélez. Em Espanha, com o Athletic Bilbao, perdeu as finais da Taça do Rei e Liga Europa contra Barcelona e Atlético Madrid. E claro, tão ou mais importante para pessoas como Marcelo, a influência, paixão pelo jogo e os valores que transmitiu a jogadores e treinadores.

Agora, o Leeds, um clube que até já chegou a duas finais europeias - Taça dos Campeões Europeus em 75 e Taça das Taças em 73. “Sempre foi a minha ambição trabalhar em Inglaterra e tive várias oportunidades durante a minha carreira, embora tenha sempre achado importante esperar pelo projeto certo. Quando um clube com a história do Leeds United fez a oferta era impossível recusar. Estou entusiasmado com o desafio”, disse ao site oficial do clube inglês.

Catorze anos depois de estar ausente dos grande estádios de Inglaterra, o Leeds aposta num treinador de culto para subir de divisão. Aguardam-se agora transferências a piscar o olho à técnica e velocidade. Esqueçam o kick and rush, senhores. O Leeds vai tocar a bola e jogar a 150km/h, nem que seja no papel. Os laterais vão subir, a equipa vai viver momentos de caos, mas a ideia é sempre seguir em frente. Afinal, Bielsa vê o futebol de uma maneira muito simples: “Se na rua jogávamos para atacar e quando perdíamos a bola todos trabalhávamos para recuperá-la o mais rápido possível para atacar outra vez, o futebol profissional mantém o mesmo princípio”. O Bielsismo é isto: abafar sem bola, atacar até o sol cair.