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A calma do campeão, o assédio à casa das máquinas e o candidato que já não pode mais viver sem títulos

A Liga portuguesa 2016/17 começa esta sexta-feira com o Rio Ave-FC Porto (20h30, SportTV1). O tricampeão nacional Benfica já mostrou na Supertaça ao que vem. Resta a Sporting e FC Porto lutar contra uma hegemonia que começa a ser inegável

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Benfica

Lembra-se da última vez que o Benfica começou uma época tão tranquilamente? Pois, nós também não. Depois de um campeonato ganho ao sprint, o tricampeão nacional começa a nova época com as ambições do passado: ganhar (a Liga), ganhar (as Taças), ganhar (na Europa).

A poucos dias de começar mais um campeonato, vive-se para os lados da Luz uma calma que não é normal por esta altura do ano. Quando os outros clubes concorrentes ao título maior do futebol português vivem momentos de indefinição e de propaladas necessidades de ida ao mercado - especialmente no que diz respeito a compras -, ao Benfica resta arranjar colocação para os excedentários.

Isto porque as contratações já foram (bem) feitas há muito tempo. A mais entusiasmante chama-se Franco Cervi, que assinou em setembro do ano passado (lembra-se?) e parece encaixar que nem uma luva no 4-4-2 de Rui Vitória, substituindo um dos jogadores mais fundamentais do Benfica em 2015/16 (e antes...), Nico Gaitán. Já Carrillo assinou em janeiro, por estar a chegar ao fim do contrato com o Sporting. Ainda os adeptos festejavam o 35º campeonato e já André Horta assinava um contrato de cinco anos, ele que tão bem tem feito a tão falada “posição 8” dos encarnados, a mesma posição onde se pensaria que Renato Sanches poderia fazer falta.

EPA

É inegável o grande trabalho de planificação feito pela estrutura encarnada, que permite a Rui Vitória ter a esta altura da época um plantel que lhe garanta os tais dois jogadores por posição sem que o futebol da equipa saia prejudicado. Ora veja: na baliza Ederson e Júlio César dão todas as garantias; para a posição de defesa central existem Luisão, Lindelof, Jardel e Lisandro, com o jovem Kalaica de olhos postos numa eventual saída de um dos mais velhos; para a lateral direita há Semedo e André Almeida, cada um ao seu estilo - o primeiro mais rompedor e ofensivo e o segundo mais seguro e posicional; do outro lado há a experiência de Eliseu e a irreverência de Grimaldo.

No meio campo, para a missão mais defensiva existem Fejsa, Samaris e o reforço Celis. Mais à frente: André Horta, Danilo - emprestado pelo Braga - e eventualmente Pizzi. Nas alas, bem, aqui as opções são infindáveis: Cervi, Zivkovic, Carrillo, Guedes, Pizzi, Carcela, Salvio e Benítez - com a certeza que não ficarão todos - oferecem as mais diversas opções a Rui Vitória, queira o mister usar extremos puros na procura da linha de fundo ou alas que gostem mais de vir para dentro e usar o pé contrário para o remate. Para as duas posições do ataque, Jonas, Mitroglou e Jiménez, que marcaram em conjunto 73 golos na época passada, são garantias que poucas equipas se podem gabar de ter. Jovic é o jovem à espera de uma oportunidade (e Rui Fonte provavelmente não ficará).

Sem ter realizado grandes exibições nos jogos de preparação (empate a um golo contra o Torino e derrota contra o Lyon por 2-3 - os últimos jogos), o Benfica entrou muito bem no primeiro jogo a valer. Conquistou a Supertaça Cândido Oliveira (3-0 ao Braga) e já mostrou aquele poderio ofensivo que tantas alegrias tem dado aos benfiquistas. É caso para dizer: o campeão voltou. O Benfica visita o Tondela este sábado, às 20h30.

Sporting

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A época passada viu o Sporting bater todos os recordes: vitórias, pontos, golos marcados, golos sofridos e outros mais. Os 86 pontos conquistados teriam sido suficientes para ganhar o campeonato em qualquer ano... menos no ano passado (sim, o Porto de Mourinho também fez 86 pontos na época 2002/2003).

É galo? É. É que, ao contrário do rival da Luz, o Sporting vive por estes dias com o coração na boca. Dizem por aí - às vezes os próprios empresários... - que há um ou dois jogadores que querem sair do clube. O que pode ser preocupante se esses jogadores forem João Mário e Islam Slimani, para muitos os dois melhores jogadores a vestir de verde e branco na tal época de todos os recordes. A juntar a estes dois há ainda Adrien, William e Rui Patrício, todos campeões da Europa - claramente valorizados pela competição - e alvos sempre apetecíveis para um qualquer clube europeu, sheik ou chinês da vida. Até 31 de agosto - altura em que fecha a janela de transferências - muitos murros na mesa serão dados e muita tinta irá correr. Para já, com eles, não há dúvida que o Sporting fica mais forte do que sem eles.

Jorge Jesus já disse que o clube tem de ir ao mercado, até porque o próprio afirmou também não acreditar que possa vir a contar com todos os jogadores titulares da época passada. A tão falada necessidade em contratar um defesa central é discutível. Coates e Semedo serão os titulares que muito bem estiveram a época passada, Oliveira e Naldo já demonstraram algumas valências. Recorde-se os jogos muito bons que Naldo fez contra o Benfica, além de não ter comprometido sempre que foi chamado, assim como Paulo Oliveira, que já demonstrou ser um central bastante confiável.

Menos discutível será a urgência em encontrar um avançado. Mesmo que Bruno de Carvalho convença Slimani a ficar em Alvalade, só o argelino não chega. Teo e Barcos já têm passagem marcada para a Argentina, sem regresso, e Alan Ruiz, a única contratação que se tem revelado um reforço, não é ponta de lança de raiz.

Em Alvalade joga o meio-campo campeão da Europa e caso o Sporting resista ao assédio feito aos seus jogadores tem ali um caso sério de qualidade que permite à equipa dominar qualquer adversário. Há quem lhe chame a casa das máquinas.

Ao contrário de Rui Vitória, Jorge Jesus sabe que não pode mexer na equipa sem que a qualidade de jogo sofra com isso. Prova disso mesmo foi a sofrível pré-temporada dos leões. Apenas duas vitórias em nove jogos, sofrendo mesmo algumas goleadas pelo meio (derrota com Mónaco por 1-4, derrota com Zenit por 2-4 e derrota com PSV por 0-5). Melhor foi a primeira parte do jogo contra o Wolfsburgo (2-1), na qual atuaram todos os titulares. Aí viu-se o Sporting de todos os recordes. O mister prometeu que vai conseguir “que o Sporting jogue o futebol do ano passado”. Pode começar já este sábado, às 18h15, ao receber o Marítimo num jogo que ficará marcado pela solidariedade dos adeptos, aos quais foi pedido que levassem mantimentos para os bombeiros.

FC Porto

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Ao contrário dos outros dois eternos candidatos ao título, o FC Porto vem de uma época onde os positivos são mesmo muito poucos. Nem títulos, como o Benfica, nem recordes, como o Sporting. Salva-se a “descoberta” de André Silva em mais uma época para esquecer no reino do dragão. As esperanças estão uma vez mais depositadas num treinador que parece ter carta branca no que respeita às contratações - curiosamente depois dessa estratégia ter falhado com o basco Julen Lopetegui, o que até chegou a ser publicamente admitido por Pinto da Costa.

O presidente afirmou não conhecer Laurent Depoitre e foi mais longe ao dizer que só consumou a contratação do jogador belga a pedido de Nuno Espírito Santo. Ninguém pede que os presidentes conheçam todos os jogadores, mas revelá-lo assim publicamente coloca maior pressão em cima do seu treinador, ao contrário do que estávamos habituados de Pinto da Costa, que chamava a si todas as responsabilidades pelas decisões tomadas (ainda por cima o belga afinal não poderá ser utilizado contra a Roma...).

Para a defesa, sem dúvida a grande fraqueza da equipa, o FC Porto contratou Felipe ao Corinthians, um defesa central que até já foi ponta de lança. Os jogos de preparação não correram da melhor maneira ao jogador brasileiro, o que é normal tendo em conta que vem de um futebol bem diferente. Há Marcano, que é capaz do melhor e do pior - e no pior tem dado sempre golo para o adversário. O nigeriano Chidozie tem potencial mas ainda comete muitos erros e, como Marcano, expõe demasiado a equipa. O outro central do plantel, Martins Indi, foi riscado por Nuno, ao ser mandado treinar com a equipa B, e a sua função neste momento é encontrar um clube que pague por ele o que o FC Porto pagou há duas temporadas - cerca de €7,5 milhões. Para as laterais, Nuno pode estar descansado: conta com Maxi, Layún e o reforço Alex Telles, e a julgar pelos jogos de pré-epoca, Varela pode ser o quarto lateral.

Está no meio a virtude desta equipa: Danilo, Rúben Neves, André André, Herrera, Evandro e João Teixeira são jogadores que deixam Nuno satisfeito, seja qual for a disposição do triângulo no meio-campo. No ataque, o único que parece ter lugar garantido - por mérito próprio, diga-se - é André Silva, o jovem dragão que promete golos, marcou que se fartou nos jogos de preparação e que tem em Otávio o principal comparsa, porque o brasileiro que esteve emprestado ao Vitória de Guimarães aproveitou a oportunidade e foi dos melhores na pré-época portista. Rápido e com uma grande capacidade de deixar os colegas na cara do guarda-redes, o jovem ganhou um lugar na equipa.

Em sentido contrário está Brahimi, o argelino que prometeu mundos e fundos aos adeptos portistas mas parece estar a baixar os braços - foram raras as suas aparições nos jogos de preparação. Aboubakar, que já não contava, passou a contar só porque Depoitre, que foi contratado à pressa para jogar contra o Roma no play-off para a Liga dos Campeões, afinal não pode jogar por já ter jogado pelo Gent numa pré-eliminatória da Liga Europa. Nuno já disse que o FC Porto não pode viver sem títulos nem mais um ano. A ver vamos. A Liga NOS abre com o FC Porto a visitar o Rio Ave, esta sexta, às 20h30. Que comecem os jogos.