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Um, dois, três, dezoito: todas as equipas da Liga 2016/17 em análise

Se ainda não sabe nada sobre a Liga que começa hoje, não se preocupe: vai ficar a saber tudo, tudo, tudo com a ajuda de Rui Malheiro, analista de futebol que explica o que devemos esperar dos 18 clubes da prova

Rui Malheiro

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Josée Manuel Ribeiro / Reuters

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Três candidatos para um campeão

São três jornadas as que nos separam do fecho do mercado. Será a partir daí que serão feitas as primeiras contas a sério sobre quem será o principal candidato ao título, já que os planteis de Benfica, Sporting e FC Porto estão longe de estarem fechados, e as próximas semanas trarão perdas – com danos – e reforços – com o intuito de produzirem ganhos – que terão que ser integrados em competição a doer.

As novidades, até ao final da 3.ª jornada, são a ausência de Jonas, o jogador mais decisivo do plantel do Benfica, por lesão, e a certeza que Sporting e/ou FC Porto não chegarão ao início de setembro com 9 pontos, já que o primeiro clássico da temporada – entre leões e dragões – está agendado para Alvalade a 28 de agosto. Não decidirá nada é certo, mas o seu resultado poderá conduzir a sprints de última hora em busca de reforços, numa altura em que os grandes colossos do futebol europeu libertarão alguns jogadores.

Para já, o tricampeão Benfica, apesar de ter perdido o futebol selvagem de Renato Sanches, determinante para reintroduzir os encarnados na corrida pelo título em 2015/16, e o virtuosismo ziguezagueante de Nico Gaitán, parte como principal candidato.

Rui Vitória ficou sem dois ases, mas tem um plantel mais recheado do que o precedente, o que fica bem atestado nas aquisições dos promissores Danilo e André Horta, que robustecem a zona central do meio-campo, e dos flanqueadores Zivkovic, Cervi e Carrilo, que se juntam a Pizzi e Salvio para oferecerem soluções intermináveis na exploração dos corredores laterais e de diagonais em direção a zonas de definição, onde ainda poderá caber Rafa, o fruto mais apetecido do mercado do país campeão da Europa de futebol.

Agarrado à vertigem, como atestou a entrada demoníaca ante o Sporting de Braga na Supertaça, sempre com a exploração dos corredores laterais como mote, o que se adensa com a titularidade de Nelson Semedo e Grimaldo (em detrimento dos mais defensivos André Almeida e Eliseu), o Benfica continuará a ser uma equipa – estruturada em 1x4x4x2 – em que a qualidade individual superlativa dos seus jogadores esconderá deficiências do coletivo, bem patentes nas dificuldades em estabelecer conexões através do corredor central, que continua votado a um estranho abandono, dificultando, muitas vezes, a capacidade para controlar o jogo – adormecendo-o – com bola.

Nada que assuste um treinador-motivador sempre fiel ao seu ideário, cujo percurso (surpreendentemente) vitorioso e discurso carregado de benfiquismo cativou os exigentes adeptos. O maior desafio de Rui Vitória será mesmo o de escolher os melhores, ultrapassando uma fasquia que nunca se lhe colocou no último exercício: o de gerir a insatisfação dos jogadores menos utilizados.

FRANCISCO LEONG

Tudo poderá começar pela baliza, onde Júlio César e o lesionado Ederson são dois gigantes, ou no centro da defesa, que ganhou um líder contundente (Lindelöf), não só a defender como também a sair a jogar (como demonstrou ao desbloquear a jogada do tento inaugural sobre o Braga), para complementar um guerreiro (Jardel) que não nasceu para ser patrão, mas que terá agora a sua voz de comando (Luisão) totalmente disponível, e prolongar-se pelos corredores laterais – onde as opções são múltiplas – e pela posição “8”, onde o criativo André Horta, que, com o à-vontade de quem cresceu a jogar futebol na rua, não acusou o salto do Bonfim para a Luz, deverá começar como titular.

O principal contendor dos encarnados é o Sporting. Do onze titular, até ao momento, Jorge Jesus só perdeu Téo Gutiérrez, um jogador especial que valeu quase tantos golos como dores de cabeça, e viu o plantel ser reforçado, mas apenas Alan Ruiz, forte candidato ao papel de “nove-e-meio”, estará na luta por um lugar num onze estruturado no inegociável 1x4x4x2.

Com os processos defensivo e ofensivo bem apreendidos, reflexo de um ano de trabalho acumulado sob o comando belicoso de JJ, os leões, sempre com o corredor central a servir como mote a um futebol combinativo e de permanente oferta de múltiplas linhas de passe ao portador da bola, deparam-se com o mercado como principal inimigo ao desfiar do novelo de boas ideias.

Se é certo que a continuidade de Rui Patrício, William Carvalho e Adrien parece afiançada, as saídas de João Mário – que deverá ter no versátil Melli, com a concorrência de Gelson Martins, o principal candidato à sua substituição – e Slimani estão iminentes, o que obrigará a um ataque contundente ao mercado.

Isto porque Jesus ainda pretende um defesa-central que compita com Coates (ainda longe do seu melhor) e Rúben Semedo (veloz e promissor, mas pouco constante), o que assinala o papel secundário/terciário de Paulo Oliveira, Naldo e Ewerthon, um lateral-esquerdo – o argentino Más parece ser o alvo prioritário – que entre diretamente no onze, superando a concorrência de Jefferson e Marvin Zeegelaar, e um médio-centro que ofereça mais garantias do que o futebol pausado de Aquilani, além da necessidade de afiançar um reforço para o ataque, que poderá ser no plural caso se confirme a saída do goleador argelino.

A tarefa mais hercúlea está nas mãos de Nuno Espírito Santo. O novo treinador do FC Porto, com ótimos trabalhos ao serviço de Rio Ave e Valência, tem que conviver com a obrigatoriedade de colocar fim a um ciclo inédito de três anos sem conquistas, e com a urgência de reconstruir sem os mesmos argumentos – até ver – dos rivais no ataque ao mercado. Algo bem diferente do que aconteceu com Julen Lopetegui, insigne a desaproveitar lagosta, nos dois últimos exercícios.

Nuno tem sido inteligente na abordagem ao novo exercício. Discurso fluente e assertivo, indagando o reavivar da mística azul e branca, uma revolução tão silente como contundente no plantel, mostrando-se destemido no momento de fazer escolhas sem olhar a nomes: dispensou Hélton; encostou Martins Indi, Brahimi e Aboubakar, mesmo percebendo que os dois últimos lhe podiam ser úteis; recuperou Marcano, Reyes e Adrián López; e deu oportunidades a Josué, Hernâni, Quintero, Rafa Soares, Andrés Fernández, Suk e Marega antes de certificar uma arrojada guia de marcha.

Tem boas ideias dentro do campo, onde foi notória a aposta num 1x4x3x3, capaz de se desdobrar em 1x4x2x3x1 (André André como médio mais ofensivo), e uma evolução na perceção do que é pretendido – uma equipa compacta e extremamente reativa à perda da bola, capaz de ser contundente no contragolpe sem renegar a posse da bola – nos diferentes momentos do jogo com o decurso da pré-temporada.

A necessitar com urgência de reforços para a zona central da defesa, onde o reforço Felipe e o inconstante Marcano parecem curtos para um candidato ao título, mas também a necessitar de mais soluções para o meio-campo e para o ataque (o tanque belga Depoitre, talhado para corresponder a um futebol mais direto, é o mais recente reforço), o FC Porto surge com três laterais de qualidade para dois lugares – Maxi Pereira, Alex Telles e Layún (para já, o mexicano tem sido opção secundária, mas também já foi testado no sector intermediário).

O meio-campo está bem oleado, aproveitando as dinâmicas estabelecidas entre Danilo, Herrera e André André, e há um ataque onde a juventude e irreverência de André Silva – impressionante capacidade goleadora na pré-temporada do mais promissor avançado do futebol português nos últimos longos anos -, Octávio – desequilibrador a partir do corredor esquerdo para o central – e Corona – a necessitar de ganhar consistência e estabilidade para fazer disparar o seu imenso talento – têm feito a diferença.

O mês de agosto promete ser árduo: além das deslocações a Vila do Conde e a Alvalade, os dragões ficaram com a fava do playoff de acesso à fase de grupos Liga dos Campeões (extremamente importante marcar presença pelo reforço financeiro), o que obrigará a um duplo-confronto de elevado grau de dificuldade com uma multimilionária Roma.

O quarto grande

MIGUEL RIOPA/Getty

É esse o estatuto que António Salvador tem reivindicado para o Sporting de Braga. As últimas épocas, com triunfos na Taça de Portugal (2015/16) e na Taça da Liga (2012/13), acrescidos de uma presença numa final europeia (2010/11), de um segundo lugar (2009/10), de um terceiro lugar (2011/12) e de quatro quartos lugares (2010/11, 2012/13, 2014/15 e 2015/16) no campeonato confirmam-no.

José Peseiro, de regresso aos guerreiros do Minho, tem como missão prolongar a senda vitoriosa, procurando encurtar o fosso para os grandes (que se tem alargado) e chegar longe nas competições a eliminar, mantendo-se fiel a um jogar enleante e de forte vocação ofensiva.

Se é certo que os bracarenses só perderam um titular indiscutível (o pendular Luiz Carlos), os próximos dias poderão certificar perdas importantes, como as de Rafa – absolutamente determinante -, Pedro Santos, Vukcevic ou Ricardo Ferreira, jogadores com bastante mercado.

A antecipação de cenários tem sido um trunfo, e não é por acaso que as aquisições do defesa-central Rosic (Vojvodina), dos médios-centro Bakic (Fiorentina/Belenenses) e Luis Aguiar (um regresso, ex-Peñarol), do médio-ofensivo Tomás Martínez (River Plate, via Defensa y Justicia), e do extremos Ricardo Horta (Málaga) já foram afiançadas, numa lista que – em caso de saídas – não ficará por aqui.

Peseiro tem procurado afirmar o 1x4x3x3 e o 1x4x2x3x1 como as estruturas táticas preferenciais, mas a alteração que promoveu ao minuto 20 da Supertaça, ao recuperar o 1x4x4x2, mais próximo do que era utilizado por Paulo Fonseca, mostrou uma equipa mais capaz de fazer estragos e de jogar no meio-campo adversário.

Cinismo europeu

FRANCISCO LEONG/Getty

Repetir o sublime 5.º lugar do último exercício não é uma miragem para o Arouca. É certo que colocar a fasquia para um lugar na primeira metade da tabela mostra sensatez, mas Lito Vidigal, apesar da perda de unidades de qualidade, como o lateral-esquerdo Lucas Lima, o médio-centro David Simão ou o extremo Ivo Rodrigues, conseguiu montar um plantel com mais qualidade do que o da pretérita temporada.

O 1x4x3x3, com variações pontuais para o 1x4x2x3x1, continuará a ser estrutura tática preferencial. Contudo, saber ao que joga e como joga é a grande arma do Arouca para namorar com o sucesso. Por isso, não se espere uma equipa com exibições de nota artística elevada, apesar de jogadores como André Santos e Rafael Crivellaro, que se juntam a Nuno Coelho, Adilson, Nuno Valente – rubricou uma grande pré-temporada – e Artur, oferecerem mais e melhores soluções na zona nevrálgica do terreno: o meio-campo.

Mas será difícil superar um conjunto com um processo defensivo – Rafael Bracali (na baliza), Jubal (no centro da defesa) e Nuno Coelho (o equilibrador do meio-campo) são as pedras basilares – coriáceo, e extremamente contundente a explorar as debilidades do oponente no contragolpe. Aí, é Mateus, a partir da direita (onde se sente mais confortável) ou da esquerda, quem é mais capaz de fazer a diferença. Mas também há Zequinha, Walter González ou Marlon de Jesús, o internacional equatoriano que poderá ter, caso se adapte à maior rigidez do futebol europeu, uma relação interessante com o golo.

Querer jogar como um grande

O debutante Capucho, na sua apresentação como treinador do Rio Ave, prometeu criar uma equipa com identidade. A amostra na pré-epoca e no duplo confronto, na Liga Europa, ante o Slavia Praga, deixou água na boca.

É certo que os vila-condenses caíram – com alguma infelicidade – ante o oponente checo, o que deverá conduzir à perda de unidades nucleares (o médio-defensivo Wakaso e o defesa-central Marcelo têm mercado), mas viu-se, em Praga e na segunda parte nos Arcos (com apenas dez jogadores), uma equipa arrojada e com vontade – e capacidade – de pressionar alto e assumir o jogo no meio-campo adversário.

José Coelho/Lusa

O início de temporada, que inclui receção ao FC Porto e deslocações a Braga e Alvalade, não é fácil, mas dificilmente conduzirá a uma mudança de identidade. O 1x4x4x2 em losango é o plano principal, mas o 1x4x3x3, ainda à espera de reforços para o ataque, até porque Hélder Postiga e Ukra decidiram rumar a novas paragens, foi trabalhado.

Repetir a presença nas provas europeias é o objetivo, o que não é fácil. Mas muita atenção à qualidade de Gil Dias, um menino emprestado pelo Mónaco com todos os traços para se afirmar como uma das revelações do exercício, como também a João Novais e ao croata Krovinovic, opções secundárias para Pedro Martins que se preparam para assumir um papel principal, ou a Rafa Soares, lateral-esquerdo contratualmente ligado ao FC Porto, e ao extremo Héldon, de quem se espera uma época mais constante do que a anterior.

Identidade positiva

Carlos Pinto (Paços de Ferreira) e Pepa (Moreirense), tal como Capucho, são treinadores debutantes na divisão maior do futebol português. Em comum, um passado interessante nos escalões inferiores (mais longo o de Pinto), privilegiando um futebol enleante e de elevada vocação ofensiva.

As saídas do desequilibrador Diogo Jota – 12 golos e 8 assistências – e do goleador Bruno Moreira – 14 golos – elevam o grau de dificuldade na abordagem ao novo exercício do Paços de Ferreira, que aponta a um lugar na primeira metade da tabela, sempre com a qualificação para a Liga Europa em ponto de mira.

O 1x4x4x2 em losango, com possível variante em 1x4x4x2 clássico, é a estrutura tática preferencial, surgindo o 1x4x3x3, com Cícero ou Rabiola como referência ofensiva, como plano alternativo. Pedrinho, protagonista de ótimas temporadas no Freamunde, Leandro Silva, emprestado pelo FC Porto, e Mateus Silva, descoberto no Mirassol, robusteceram o sector intermediário, onde se mantém o promissor André Leal, um médio-ofensivo com potencial para atingir patamares competitivos mais elevados.

No ataque, as dúvidas são maiores. Gleison e Ivo Rodrigues, emprestados pelo FC Porto, oferecem desequilíbrios a partir dos corredores laterais, restando perceber se Welthon, em tempos apontado como um “novo Hulk”, vencerá o desafio da consistência. É que o seu pé esquerdo já deixou marcas positivas na pré-temporada.

Os objetivos do Moreirense são mais modestos. Passam por alcançar a manutenção, se possível sem passar por grandes sobressaltos classificativos, mas fica a ideia que o plantel ainda precisa de sofrer alguns incrementos. Pepa deverá ter o 1x4x3x3 como estrutura tática principal, mas o 1x4x4x2 clássico poderá vir a ser uma opção de recurso.

Com um meio-campo totalmente renovado e rejuvenescido, onde sobressai o talento de Francisco Geraldes, emprestado pelo Sporting, a maior experiência do setor defensivo contrasta com a irreverência de um ataque formado por jogadores móveis e velozes, mas a quem falta uma relação mais eficaz com a baliza adversária.

A busca permanente de uma identidade positiva é também o mote do espanhol Julio Velázquez, no Belenenses. O técnico espanhol, que se destaca pelo discurso desempoeirado, quer um futebol de posse, pressionante e extremamente ambicioso, partindo de uma estrutura entre o 1x4x3x3 e o 1x4x2x3x1.

Contudo, terá pela frente o desafio hercúleo de garantir uma maior consistência do processo defensivo, algo que não conseguiu afiançar no exercício passado. A consistência do setor defensivo, suavemente retocado, continua a deixar dúvidas, assim como o que poderão trazer os reforços Yebda, Rosell e Llorente ao setor intermediário, que perdeu Aguilar e Bakic, mas ganhou, nos últimos dias, o leão João Palhinha. No ataque, a irreverência de Fábio Sturgeon e de Miguel Rosa passará a ter a companhia do agitador Gerso, contratado ao Estoril, e do sérvio Kommen Andric, principal candidato ao papel de referência ofensiva.

Contendores europeus

MIGUEL RIOPA/Lusa

O Vitória Guimarães, agora sob o comando técnico de Pedro Martins, que regressa a um clube onde se destacou como jogador, é o principal candidato a entrar na luta pelos lugares europeus, o que poderá adensar-se com a chegada dos últimos reforços.

A aposta no 1x4x4x2 clássico como estrutura tática preferencial indicia uma equipa com grande apetite pela baliza adversária, o que é confirmado pela presença de quatro avançados – Ricardo Valente e Hurtado a partir dos corredores laterais; e os tanques Marega e Tiquinho Soares como dupla de ataque – no onze, além da aquisição de dois laterais – João Aurélio e Rúben Ferreira – talhados para oferecerem largura e atacarem a profundidade.

Tudo isto obrigará a um trabalho esdrúxulo da dupla de médios-centro, formada pelo promissor João Pedro e pelo cerebral Rafael Miranda, sabendo que a necessidade de acumular pontos poderá conduzir a uma reorganização em 1x4x2x3x1, abdicando de um dos avançados para reforçar o meio-campo com mais uma unidade de criação (Tozé é, para já, o principal candidato ao lugar).

Também na corrida pelos lugares europeus estará o Estoril. Os canarinhos perderam o seu abono de família – Léo Bonatini, autor de 17 golos no último campeonato -, mas conseguiram juntar uma dupla de avançados oriunda do futebol chinês, formada pelo regressado Kléber, avançado que também passou por FC Porto e Marítimo, e por Paulo Henrique, que chegou a ser destaque nos turcos do Trabzonspor e nos holandeses do Heerenveen, justificando, na altura, a cobiça dos grandes portugueses.

A promessa de uma equipa com elevado poder de fogo, espraiada num 1x4x4x2 clássico, já testado na segunda metade do exercício passado, é evidente, mas falta confirmar a consistência de um setor defensivo aparentemente imberbe que perdeu as referências Yohan Tavares e Diego Carlos, além do guardião Kieszek e dos laterais Anderson Luís e Babanco, e a capacidade para fazer chegar a bola com qualidade a zonas de definição, mesmo percebendo-se que este poderá ser o ano da confirmação do talentoso Mattheus, muito para lá da simpática imagem de filho de Bebeto, e da possível afirmação de Matheus Índio, promessa brasileira desviada ao Vasco da Gama.

Mais difícil parece ser o sucesso da corrida europeia do Nacional da Madeira (e do Marítimo). O camaleonismo tático de Manuel Machado continua a ditar leis na Choupana, onde as primeiras voltas intermitentes, fruto da necessidade de reformular os planteis, costumam dar lugar a segundas metades da temporada em crescendo. Afiançar a continuidade do olímpico Salvador Agra – 9 golos e 12 assistências em 2015/16 –, depois de perdidos o goleador Tiquinho Soares e o versátil João Aurélio, será determinante.

Já o Marítimo assumiu o risco da escolha do tergiversante técnico brasileiro Paulo César Gusmão. Com ele, voltamos a ouvir a palavra “tareia” (física) no léxico do futebolês, como também assistimos à chegada de um camião de reforços brasileiros da sua confiança, do qual já resultaram quatro dispensas, e à manutenção de problemas disciplinares que custaram muito caro no último exercício. Inclinado para a opção por um 1x4x3x3, onde Fransérgio deverá assumir o papel de elo de ligação entre o meio-campo e o ataque, percebe-se que, afinal, o onze-base será formado maioritariamente por jogadores oriundos do plantel 2015/16, concluído num paupérrimo 13.º lugar, a pior classificação dos verde-rubros desde 1985/86.

Fuga à descida

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Revelação da primeira volta do exercício anterior, o Vitória de Setúbal procura recompor-se de uma segunda metade de época paupérrima, o que levou a que a manutenção só fosse assegurada na última jornada.

O trabalho de reconstrução do plantel, fortemente reformulado, coube a José Couceiro, de regresso aos bancos após um ano sabático. A forma arguta como abordou o mercado, afiançando reforços oriundos de Benfica (Bruno Varela, Fábio Cardoso e Nuno Santos, extremo, capaz de jogar a partir dos dois corredores laterais, candidato a uma das revelações do exercício), Sporting (André Geraldes e Ryan Gauld) e FC Porto (Mikel Agu e o ex-boavisteiro José Manuel, unidade móvel de ataque), garante soluções interessantes numa equipa que deverá partir de uma estrutura em 1x4x2x3x1.

Por isso, é bem possível que os sadinos, ao contrário do que aconteceu nas duas últimas épocas, passem por menos sobressaltos, ao invés dos já analisados Moreirense e Marítimo.

Fugir à zona de descida é também o mote do histórico Boavista, que mantém Erwin Sánchez como técnico. A aposta numa estrutura em 1x4x2x3x1, com Fábio Espinho – excelente reforço – como cérebro no lugar de Rúben Ribeiro, indicia que os axadrezados pretendem ter um convívio saudável com a bola.

Com o setor defensivo e intermediário a manterem as suas principais unidades, com exceção do lateral Afonso Figueiredo (Rennes) e do veterano Paulo Vinícius, as principais novidades chegam para o ataque, juntando-se a Renato Santos, extremo que se tornou decisivo com o treinador boliviano. Lovro Medic, possante ponta-de-lança contratado ao NK Zagreb, Erivelto, goleador brasileiro contratado ao Al-Mesaimeere do Qatar, e, principalmente, o internacional maltês André Schembri, unidade móvel de ataque protagonista de uma época notável nos cipriotas do Omonia (15 golos) em 2015/16, são as caras novas que geram mais expetativas.

Já o Tondela, depois de uma espantosa recuperação sob a batuta de Petit, somando 17 pontos nas últimas 8 jornadas, reformulou de forma profunda o plantel, o que fica bem atestado na chegada de mais de dezena e meia de reforços, onde o versátil Pité, emprestado pelo FC Porto, e o veloz Zé Turbo, desviado, enquanto júnior, pelo Inter de Milão ao Sporting, geram expectativas, assim como o brasileiro Crislan, avançado emprestado pelo Braga com a difícil tarefa de fazer esquecer o decisivo Nathan Júnior.

Para afiançar a manutenção, o antigo médio-defensivo deverá apostar num 1x4x2x3x1 como estrutura preferencial, mas também testou o 1x3x4x3, provavelmente influenciado pelo último Europeu, e o 1x4x3x3.

Já os recém-promovidos Desportivo de Chaves e Feirense têm pela frente a tarefa encorpada de escaparem ao rótulo de principais candidatos à descida. Os flavienses, que foram buscar o técnico Jorge Simão ao Paços de Ferreira, foram mais agressivos no ataque ao mercado, buscando jogadores experientes, como Ricardo (guarda-redes, emprestado pelo FC Porto), Pedro Queirós (lateral-direito, ex-Astra), Felipe Lopes (defesa-central, ex-Wolfsburgo), Luís Alberto (médio-defensivo, ex-Tondela), Battaglia (médio-centro argentino, que já passou por Braga e Moreirense), Simon Vukcevic (médio-ofensivo, que após a sua passagem pelo Sporting, viu a sua carreira entrar numa espiral descendente) e Rafael Lopes (avançado, ex-Académica), e alguns jovens com vontade de surpreenderem, como são o caso do lateral-esquerdo sérvio Petrovic, do médio-centro Francisco Ramos e dos extremos Fábio Martins e Hamdou Elhouni, um líbio que se destacou no Santa Clara. A estrutura preferencial deverá ser o 1x4x3x3, mas o 1x4x4x2 clássico e o 1x4x2x3x1 também foram trabalhados.

Já o Feirense, sob o comando do experiente José Mota, foi mais comedido na busca de reforços, mantendo grande parte dos titulares que afiançaram a subida. Contudo, chegaram jogadores com alguma experiência de I Liga, como são o caso de Peçanha, Paulo Monteiro, Vítor Bruno, Ricardo Dias, Tiago Silva e Luís Aurélio, e do mercado brasileiro, opção recorrente na carreira do treinador de Paredes.

O 1x4x3x3, partindo, em momento defensivo, de um 1x4x5x1, deverá ser a aposta de Mota, que conta com médios interessantes, como Fabinho, Rúben Oliveira e Tiago Silva (ex-Belenenses), e um ataque onde se poderão destacar o nigeriano Peter Etebo, destaque nos Jogos Olímpicos, e o grego Tasos Karamanos, emprestado pelo Olympiacos.