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Está 6-0 ao intervalo

Jesus ganhou todos os jogos a Espírito Santo quando um estava no Benfica e o outro no Rio Ave. Agora enfrentam-se com armas iguais

Pedro Candeias

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É coisa de VHS, a imagem tem grão e riscos e interferências, nem sempre se percebe o que é dito ou quem são os jogadores, mesmo que aquela tenha sido a época de estreia dos nomes nas camisolas. No total, são 4m44s de vintage: 3m10s de jogadas mais ou menos perigosas, um golo do Dino, do Chaves, e outro do exótico Earl Jean, do Felgueiras, que tinha 1,67 m e marcava de cabeça, porque os basquetebolistas saltam bem e ele fora basquetebolista; um corte de 24 segundos para os comentários dos dois treinadores, um tem cabelo branco e o outro bigode, sobre o atraso-que-não-foi-atraso-mas-que-foi-atraso ao guarda-redes e dá o 2-1 ao Felgueiras num livre do Sérgio Conceição; seguem-se 18 segundos de resumo e novo corte para ouvir o Américo Marcus, o adjunto do Chaves, que foi expulso pelo árbitro Carlos Calheiros, a quem falta “dignidade desportiva”; e 51 segundos sem interrupções até ao fim da reportagem, que termina com o 2-2 do Chaves.

Está no YouTube, resulta da busca “Felgueiras x Chaves (1995/1996)”, é um mimo para quem gosta de antiguidades — e é o que há do jogo em que o Felgueiras e o seu treinador de cabelo branco se estrearam na primeira divisão. Aconteceu a 20 de agosto de 1995, e desde então Jorge Jesus ocupou 572 desses 7668 dias em jogos do campeonato (488), da Taça de Portugal (75), da Taça da Liga (35) ou da Supertaça (3) — o número cresce para 793 se somarmos os da II Liga. E, amanhã, Jesus cumpre o 489º encontro para a Liga principal, o 15º clássico diante do FC Porto, e fá-lo contra um treinador que também tem um apelido bíblico, Nuno Espírito Santo, e a quem ganhou sempre: 6 triunfos, 17 golos marcados e 3 sofridos.

Podia argumentar-se que este desvio colossal (obrigado, Vítor Gaspar) é como é porque o Benfica é o Benfica e o Rio Ave é o Rio Ave, só que a teoria cai como uma bola furada porque o Rio Ave de Pedro Martins empatou e perdeu duas vezes e ganhou uma ao Benfica ou ao Sporting de J.J. Ainda assim, não façamos confusões, pois Jesus é ao mesmo tempo o diabo de Espírito Santo e o bicho papão de todos os outros.

Jesus e os outros

Na Liga competem 18 treinadores, e Jesus está acima de todos no número total de jogos (488), de vitórias (262) e de títulos (3) na competição; também é o mais velho e o mais experiente; e, se isto fosse suficiente para definir quem é o quê, J.J. era o melhor. Só que isto é curto, porque exclui o facto de Jesus estar há sete anos (e dois meses) consecutivos a treinar clubes grandes. Ora, clubes grandes, orçamentos maiores; e, orçamentos maiores, jogadores melhores. Partindo deste princípio, as comparações estão inquinadas, e foi isso que José Peseiro me disse quando lhe pedi para comentar o seu registo contra Jesus: 4 vitórias (uma após grandes penalidades), 2 empates e 2 derrotas. Do bando de 18, o mister do Braga é o único com saldo positivo contra Jesus, mas ele não quer “ir por aí”, porque nem ele nem Jesus são hoje o que foram antes.

José Mota também não é o que foi. No futebol dos anos 90, Mota tinha cabelo encaracolado, era defesa, andava pela segunda divisão e chegou a jogar contra duas equipas de Jesus, o Felgueiras e o Amora. “Lembro-me bem dele”, diz Mota. Do que ele se lembra melhor é de ter batido J.J., com armas iguais e até desiguais, quando se tornou treinador. Aliás, recorda, o Jesus só lhe levou a melhor “quando foi para o Benfica”.

Nenhum treinador da Liga tem tantas vitórias sobre Jesus. “São cinco”, conta Mota, e há duas que foram especiais. “Eu estava no Leixões e ele no Braga, e o Braga estava com um grande plantel.” O Braga tinha Eduardo, João Pereira, Rodríguez, Vandinho, Matheus e Alan, por exemplo. “Ganhámos 2-0 em Braga e 1-0 em Matosinhos. Antes de um desses jogos, o Jesus disse que o Beto não era guarda-redes, porque não tinha altura suficiente, e nós usámos isso como fator de motivação.”

Hoje, Beto é suplente de Rui Patrício no Sporting e o Sporting é treinado por Jorge Jesus. “A vida dá muitas voltas. Mas há coisas que não mudam.” É aqui que José Mota, hoje no Feirense, entra pelo lado da tática e da estratégia. “As equipas do Jesus gostam muito de entrar a jogar ao ataque, de impor o jogo delas. Há muitos anos que são assim, e uma das formas de contrariar isso é tentar segurar o resultado e jogar com o relógio. O Jesus prefere resolver cedo, chegar à vantagem o quanto antes; se não conseguir, a equipa pode ficar mais inquieta.”

Depois, é aproveitar os espaços que “naturalmente se criam” para chegar à baliza e fazer tremer a coisa. “Obviamente, aqui também entra a qualidade dos jogadores. Devo dizer que também venci o Jesus pelo Leixões, porque o Leixões tinha bons futebolistas na altura. Sabe que isto sem ovos...” Não se fazem omeletas.

Saídos da casca

O FC Porto de Nuno Espírito Santo saiu da casca em Roma: três golos, a entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões, festa no campo, o treinador aplaudido de pé no avião, receção apoteótica no aeroporto e aquela injeçãozita de moral para o fim de semana.

O Porto não era favorito e não passou a sê-lo, mas equilibrou as forças com o Sporting, porque, aqui, ali, nota-se o dedo de Espírito Santo — ou, melhor, nota-se menos o dedo de Julen Lopetegui. De repente, aquele carrossel chato, abúlico e, sobretudo, inconsequente de Lopetegui transformou-se numa corrida de carrinhos de choque, de pressão alta e transições mais ou menos rápidas. Espírito Santo não é fã do tiki-taka de Guardiola e dos seus copycat; a história da posse de bola aborrece-o. Ele sabe que perdeu sempre para Jesus, com quem se dá bem e contra quem tentou de tudo, desde jogar com três centrais para segurar os dois avançados da praxe (resultou mal, perdeu por 6-1, em março de 2013) até apostar no contra-ataque (ia resultando, mas perdeu por 1-0 em maio de 2014, na final da Taça).

Em Alvalade, a estratégia passará por assumir o jogo e tentar espreitar aquelas nesgas que se abrem, aproveitando a ausência de João Mário, o tipo mais inteligente com bola e sem bola neste cantinho da Europa. É do lado do Porto que pode ou não haver surpresa. A Jesus todos já conhecem, porque há muito que está no meio de nós.

  • “Nuno lutou com Jesus sempre com armas desiguais”

    Futebol nacional

    Domingos Paciência, o último Bola de Prata português, eterno ídolo portista e ex-treinador do Sporting, garante que é cedo demais para dar palpites sobre o favorito ao título nacional, o que o leva a ser prudente na antevisão do primeiro clássico da época, domingo, em Alvalade, entre um Sporting mais equibilbrado e um FC Porto de novo moralizado, mas que ainda precisa de um reforço importante