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Jesus tinha mesmo razão: o Rio Ave apertou o Sporting à séria

Jorge Jesus tinha dito que o Rio Ave ia "apertar" mais o Sporting do que o Real Madrid e a equipa de Nuno Capucho assumiu as palavras do adversário e ganhou por 3-1

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Não dava mesmo para acreditar: ao intervalo o Rio Ave já ganhava por 3-0 ao Sporting

MIGUEL RIOPA/Getty

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Aquela coisa de Inglaterra ser a pátria do futebol como o conhecemos leva a que os ingleses encham o peito sempre que falam de bola. É por isso que, em Inglaterra, ninguém é considerado grande jogador/treinador se nunca experimentou a prática na pátria, por assim dizer. A conversa, adornada com um belo sotaque, é mais ou menos esta: "Ok, ele até é bom, mas será que consegue ser assim tão bom em Stoke, numa noite fria de inverno, chuvosa e ventosa?"

Esta conversa voltou à baila recentemente, quando Pep Guardiola se instalou em Manchester (a bem da verdade, convém ressalvar que o City já leva cinco vitórias em cinco jogos) e poderá ter ocorrido a alguns dos sportinguistas que viam a sua equipa perder por 3-0 ao intervalo numa noite fria e ventosa em Vila do Conde.

Isto de jogar em Santigo Bernabéu e ter o mundo a nossos pés é tudo muito bonito, mas o pior é quando o regresso à realidade da Liga portuguesa deixa alguns jogadores a sonhar com o hino da Champions - ou, deixando os pleonasmos de parte, a dormir em campo.

Jesus reconheceu a intensidade do (belo) jogo em Madrid e fez quatro mudanças no onze do Sporting: André - estreia a titular - no lugar de Bas Dost, Schelotto no lugar de João Pereira e Joel Campbell e Alan Ruiz nos lugares de Marvin Zeegelaar e Bryan Ruiz - sendo que o polivalente Bruno César foi o escolhido para assumir o posicionamento de lateral esquerdo.

O problema é que isto de se dizer a um jogador que ele é lateral esquerdo pode não funcionar quando ele pura e simplesmente nem parece estar em campo. Ao contrário do que deu a entender Jorge Jesus na conferência de imprensa de antevisão do jogo, em que apareceu com o ego em altas depois da exibição a meio da semana, não é (apenas) o treinador que faz a diferença: são os jogadores.

MIGUEL RIOPA/Getty

Como a diferença que há entre André e Slimani - o primeiro teve uma oportunidade mas não soube desviar a bola de Cássio e o segundo marcou dois golos na estreia na Premier League. Sim, para André (e mesmo Bas Dost) ser mais "Slimani" terá de ser o treinador a indicar o caminho, mas nem mesmo o melhor treinador do mundo consegue fazer com que os jogadores façam o que não querem fazer. Ou não podem fazer - a fadiga, especialmente na 2ª parte, foi evidente em alguns jogadores que tinham estado muito bem em Madrid, como Gelson.

Pelo contrário, do outro lado do campo, no Rio Ave, havia um menino a querer e a poder fazer muita coisa: Gil Dias. O miúdo de 19 anos emprestado pelo Mónaco, que já tinha conhecido Nuno Capucho na época passada, no Varzim, mostrou que tem tudo para ser uma das revelações da Liga portuguesa esta época, não só no golo que marcou aos 43', a cruzamento de Guedes, mas também na grande assistência que fez, antes, aos 36', para o próprio Guedes marcar.

Tanto Gil como Guedes estiveram em grande plano, mas já antes o Rio Ave de Capucho - uma equipa com cabeça, tronco e membros, que tem tudo para se dar bem no campeonato - tinha aproveitado as dificuldades do Sporting no processo defensivo. Aos 29', Roderick Miranda dominou a bola com o peito, a meio-campo, esqueceu que era central e foi por ali fora, sem ninguém o incomodar, até enganar Coates e oferecer o golo a Tarantini que, calmamente, sozinho dentro da área, passou - sim, a palavra correta é "passou" - a bola para dentro da baliza de Rui Patrício.

Ao intervalo, o Rio Ave ganhava por 3-0 e o resultado só podia surpreender quem não tinha visto o jogo, com um Sporting algo apático, que nunca soube bem conter as saídas para o ataque do Rio Ave, ao contrário do que era expectável.

Jesus deixou Joel Campbell e Alan Ruiz no balneário e fez entrar Bas Dost e Bryan Ruiz, e é verdade que a equipa melhorou em relação à 1ª parte, mas, de qualquer modo, não melhorou o suficiente. Ruiz teve o golo nos pés mas rematou ao lado e foi Bas Dost a conseguir reduzir para 3-1, mas já aos 82', quando pouco mais havia a fazer.

Jesus bem disse que o Rio Ave ia apertar mais do que o Real Madrid. E que não tinha um "melhor plantel", explicou. "Tenho é uma equipa trabalhada por mim. E se está trabalhada por mim, tem de ser a melhor. A diferença está no treinador". Esta noite, Jesus vai ralhar com ele próprio.