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É nas Kostas do outro que eles veem as suas

O Benfica ganhou (3-1) ao Braga e subiu à liderança do campeonato. Os dois golos de Mitroglou e as defesas de Júlio César foram decisivos num jogo intenso

Pedro Candeias

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PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O que dizer de um jogo que à meia hora já tinha tudo? E quando dizemos tudo, dizemos mesmo tudo, a começar por um começo engasgado, porque um dos árbitros não acertou com o microfone do intercomunicador. O encontro, que estava agendado para as 20h00, arrancou lá para as 20h05 e às 20h06 Mitroglou falhou na cara de Marafona; às 20h09, ao minuto três, o Hassan imitou Mitroglou; dois minutos depois, Pedro Santos imitou Hassan; e seis minutos depois de Pedro Santos ter imitado Hassan que por sua vez imitara Mitroglou, foi a vez de Salvio imitar toda a gente que já citei.

Resumindo, ainda não tinha passado aquele período que os especialistas cá do burgo definiram como “fase de estudo mútuo”, e já o Benfica e o Braga tinham criado e desbaratado oportunidades suficientes para nos fazerem acreditar na vida e no amor e na felicidade eterna. Os críticos encartados de treinadores dirão que isto foi assim porque nem o Benfica nem o Braga sabem defender ou controlar a posse de bola neste momento da vida deles . Sobretudo o Benfica, que tem maior responsabildiade, e que anda a enterrar os mitos, como Gaitán, e a cuidar dos feridos, como Jonas.

Mas para quem gosta disto - e quem gosta disto, gosta de golos - o Benfica-Braga podia ser o nosso pequenino Tottenham 4 -5 Arsenal (2004) ou o nosso Manchester City 6-3 Arsenal (2013), ou outros jogos históricos da nossa liga que não vou nomear para não ferir suscetibilidades.

E isto esteve prestes a acontecer, logo a abrir, porque tanto o Benfica como o Braga se entregaram ao ataque e foram à procura do golo, como se fosse uma final de uma competição sem prolongamento, sem penáltis, e com um incentivo financeiro para ambos se marcassem mais de dois cada.

Nesta realidade alternativa, não havia pontos nem uma liderança de um campeonato em disputa - era o jogo pelo jogo, sem táticas ou espartilhos.

Foi assim, neste lufa-lufa, de trás para a frente, da esquerda para a direita e de grandes defesas dos guarda-redes, que houve direito a uma pausa forçada quando Marafona se lesionou e se deixou cair aos 15 e aos 22 minutos.

O ritmo quebrou um bocadinho, mas foi coisa passageira, porque logo, logo Mitroglou rematou para a vantagem (27’) e tudo voltou à normalidade neste neoclássico anormal: ao minuto 36, Ricardo Horta imitou Salvio que já tinha imitado aqueles que nós sabemos; e antes do intervalo, Rosic e Lisandro completaram o jogo da imitação. Intenso, do início até ao intervalo.

A estatística dizia que o Benfica tinha 10 remates e o Braga, 6. E que o Benfica tinha 53% posse de bola e o Braga, 47%. Estavam bem uma para o outro, que viesse a segunda parte.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Depois do descanso, José Peseiro deve ter dito aos seus rapazes para começarem a pressionar um bocadinho mais alto para provocar o erro no meio campo do Benfica - e do meio campo à defesa contrárias, prosseguir em linha reta, que é sempre o caminho mais curto para se chegar a algum lado.

É verdade que assim foi, mas também é verdade que foram os encarnados os primeiros a disparar (Guedes, à barra; Guedes, ao corpo do guarda-redes) e os únicos, viemos a saber depois, a chegar ao segundo (Pizzi) e ao terceiro (Mitroglou) golos.

É que ao futebol mais desprotegido e vertiginoso do Braga somou-se o cansaço (jogou com o Gent na quinta-feira, não esquecer) - e o cansaço leva ao erro e à desconcentração. Ainda deu para reduzir a desvantagem, por Rosic, e provar que alguma coisa se passa na futura-ex-fortaleza encarnada que anda a sofrer golos à razão de um por jogo. E se hoje não sofreu mais, foi porque Júlio César esteve lá e esteve em grande.

É que há duas formas (ou à força, ou com jeitinho) para convencer quem não quer ser convencido de coisas tão evidentes como as únicas verdades neste mundo: todos nós morremos e todo o sucesso é efémero.

Perante tipos como este, o melhor é adotar o princípio de Pascal: na generalidade, as pessoas mudam mais facilmente de opinião se descobrirem (ou acharem que descobrem) a verdade por eles e não pela boca dos outros.

A verdade dói porque é factual e, em última análise, são os jogadores que mais vezes fazem a diferença. E foi por ter jogado com Mitroglou e não com outro qualquer, que o Benfica também é líder deste campeonato.