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Gil: três letras, três golos, três pontos

Quem é o rapaz que deu nas vistas no Rio Ave-Sporting? O Expresso conta-lhe a história de Gil Dias, jovem de 19 anos emprestado pelo Mónaco ao Rio Ave

Diogo Pombo (texto), Rio Ave FC (fotos)

RESSALTOS PARA QUÊ? Nos juniores do Braga, de onde saiu para o AS Monaco, trocou de alcunhas a meio da época quando começou a ganhar todos os ressaltos nos quais “metia o pé”. Hoje já precisa de poucos para fazer o que quer da bola

Rio Ave FC

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Imagine um miúdo calado, com idade para ser reguila e irrequieto, mas que era pacato. Um rapaz que gosta de estar no seu canto, a observar, a ver o que os outros estão a fazer e não a ser produto para olhos alheios. Esse miúdo tem 16 anos, é calmo e, mesmo não querendo, dá nas vistas pela altura e o corpanzil que já tem. Gosta de ficar no seu espaço, sem o chatearem. Tranquilo é o seu nome do meio. É o retrato de alguém que não pode ser mais calmo. Agora imagine, uns anos volvidos, este miúdo com uma bola por perto, a servir-lhe de isco para o pé esquerdo.

O miúdo passa a ser o contrário de tudo o que era. Não evita dar nas vistas. Farta-se de tocar na bola, pede-a constantemente. Os jogadores com quem partilha equipa estão sempre a procurá-lo. A bola tem que ir ter com ele, é este o miúdo que inventa mais coisas com ela. Em campo, como jogador, é impossível ficar no seu canto a observar e a ser apenas mais um.

Talvez não seja preciso imaginar alguém assim.

Porque este é o miúdo que, este domingo, atazanou a vida ao Sporting durante a hora e meia em que os leões jogaram futebol em Vila do Conde. É uma versão mais crescida do rapaz de quem Pedro Duarte se recorda bem.

Ele via-o discreto, parco no que dizia e nas atenções que atraía para ele, no balneário. É assim que Gil Dias chega aos juniores do Braga, em 2013. O treinador gala-o logo, despista-lhe a qualidade no primeiro treino. Chega na segunda semana de pré-época e “o pé esquerdo falava”, conta ao Expresso.

O miúdo era capaz de fazer coisas com a bola que faziam as outras pessoas esperar muito dele. “Faltavam-lhe alguns pormenores, como ser mais competitivo e aumentar os índices de agressividade a defender e a atacar. Mas a qualidade estava lá”, diz, ecoando em palavras o que, na altura, lhe passa pela cabeça quando começa a treinar o miúdo que vem do Sanjoanense. Havia ali potencial, muito.

Só que era preciso trabalhá-lo.

Ao início, Gil Dias não está habituado a quem o rodeia, à forma como a equipa joga, à intensidade, a ter de defrontar os miúdos da formação dos clubes grandes. Nos primeiros dois ou três meses fica muitas vezes sentado, tem outros à frente dele, fica a ver do banco. Tem que embalar. Quando o faz, agarra-se ao ritmo que o empurra para “uns últimos seis, sete meses de temporada a um nível extraordinário” que ajudam o Braga a ser campeão nacional de juniores - algo que não acontece desde 1977. “A equipa, depois, foi querendo o Gil a marcar golos, a assistir, a dar nas vistas. Tornou-se uma referência”, resume o treinador que teve na altura.

Podia ser uma espécie de descrição do que aconteceu a Gil Dias frente ao Sporting.

O miúdo, hoje com 19 anos, pediu a bola, correu muito com ela e fintou muita gente com ela. Fez os leões parecerem mansos. Acabou o jogo com um golo, um passe dado para outro, e com o tipo de exibição que faz toda a gente perguntar de onde ele veio. Mas a questão podia antes estar no como é que Gil Dias chegou aqui.

Foto Rio Ave FC

O treinador que gosta muito dele

Pode ser muito por culpa de Nuno Capucho, porque o treinador do Rio Ave sempre tentou manter-se próximo do miúdo assim que lhe pôs a vista em cima. “O Capucho era treinador dos juniores do FC Porto quando fomos lá ganhar 3-2. Ele fez um jogo extraordinário. Com certeza que já o conhecia, mas aí passou a conhecê-lo melhor”, lembra Pedro Duarte.

Só pode, porque, mesmo quando Gil Dias foi diretamente dos juniores minhotos para o AS Monaco da liga francesa, Capucho continuou a querê-lo. Não se chega a estrear em França e a meio da época passada pede-o emprestado. O miúdo vai para o Varzim, marca quatro golos em 18 jogos, dá nas vistas. A vida dá umas voltas, devolve-o ao Mónaco e põe Capucho no Rio Ave. Mas, no meio, havia o interesse comum de se reencontrarem e a Gestifute de Jorge Mendes, que representa ambos, ajuda a concretizar o que eles querem.

E o miúdo chegou a Vila de Conde, onde “parece que abriu o livro”, brinca Pedro Duarte. Hoje ele vê-o “mais maduro e mais homem”. Mostra-se mais, afastou-se dos tempos em que, nos juniores do Braga, o chamavam “Gilinho” por ser “muito introvertido” e sempre arranjar um canto para ficar e onde só houvesse espaço para ele. “Até brincávamos com ele, dizíamos que, com um metro e noventa, não podia deixar que lhe chamassem isso”, revela, entre risos. Era um miúdo que “às vezes até parecia estar um bocadinho desligado do que estava a acontecer à volta”. Mas que carregava no botão “quando era altura de trabalhar e ir para o campo”, onde “trabalhava nos limites”.

No Rio Ave, dizem-nos, continua a ser como era em júnior. É um rapaz tranquilo, “muito reservado”, a levar o trabalho tão a sério quanto pode, ao ponto de não faltar a uma sessão de ginásio, por exemplo. Está em Vila do Conde por ter sido um pedido expresso de Capucho, que gosta muito do jogador que não é fã de dar entrevistas, nem o clube quer que ele, ou qualquer outro, as deem – o Expresso sabe que, após a vitória frente ao Sporting, o Rio Ave prefere que os jogadores não falem para não haver entusiasmo em demasia. Gil Dias já terá feito o suficiente em campo.

Foto Rio Ave FC

Nada que o afete, garante Pedro Duarte, que ainda fala com o miúdo que é benfiquista e, com 10 anos, o Sporting não quis. O treinador descreve Gil Dias como alguém humilde, consciente do que vale, do que tem de fazer e, sobretudo, que sabe e gosta ouvir. “Percebeu que se tinha de tornar mais competitivo, ela está muito bem aconselhado, o que é uma mais-valia.

Tem um grande apoio do avô, da mãe e da irmã, e de alguns amigos que o ajudam muito. Sempre foi muito focado no trabalho dele”, retrata o seu antigo treinador, pelo telefone, da China, onde está a trabalhar no Tianjin Teda.

Mesmo longe, faz questão de, a cada aniversário da conquista do título de juniores, enviar uma mensagem a todos os que faziam parte da equipa. Diz que, agora, “é fácil dizer coisas ao Gil”, como sempre o é quando alguém está a passar um bom bocado – “mas é importante, nas outras alturas, enviar uma mensagem a perguntar como é que ele está”.

Gil Dias parece estar muito bem, como estava no final da tal época que partilharam no Braga, quando “os colegas já lhe chamavam o Zé dos Ressaltos, porque ficava com a bola cada vez que metia o pé num ressalto”. A jogar assim, poderá não precisar de muitos para chegar onde Pedro Duarte o imagina – a ser “um dos futuros valores da seleção nacional”.