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O lado obscuro do futebol: a estranha história de Platiny

Platiny veio para Portugal à procura do sonho de se tornar futebolista profissional. Até aqui, tudo normal. Mas o enredo complicou-se quando se descobriu que tinha falsificado o registo criminal. O Sindicato diz que não é caso único, o SEF investiga. Esta é a história de Platiny, que o Expresso publicou este fim de semana. O jogador deixou de representar o Gil Vicente esta segunda-feira

Pedro Candeias, Hugo Franco e José Caria

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josé caria

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Platiny é só um nome, e ele não sabe o que levou os pais a escolhê-lo. É provável que tenha sido roubado ao futebol, porque jogar à bola sempre foi um assunto de família, isto é, dos tios e dos primos e dele, mas o Platini com ípsilon não garante que tenha sido por isso. O Platini original não lhe diz nada. A memória futebolística de Platiny Mário Lopes Alves, nome completo, nascido “a dois de janeiro de noventa e seis”, começa com o Barcelona, Ronaldinho Gaúcho e Figo, o clube e os jogadores de que realmente gosta — “o Cristiano, nem por isso”. E recomeça sempre que o fazem lembrar-se de trocar as aulas pelas futeboladas de rua e de levar em troca as “chapadas da mãe na cara”.

Nesse tempo, Platiny sonhava em ser “jogador profissional na Europa”. Era tudo o que queria ser, mas agora, que o é, o provável é que deixe de o ser. “Quando a gente está a ir bem na vida aparece sempre algo de errado que estraga tudo.” Platiny tem outras variações para a tema do karma: “Queria saber porque é que me fizeram isto”, “o meu futuro está destruído”, “o futebol é um mundo de mentira”. Talvez o tenham obrigado a mentir. Ou talvez o próprio seja uma mentira.

Todos procuram o eldorado

Esta história não é só dele, há muitas outras semelhantes em que só mudam os nomes e os tempos. São miúdos africanos que caem no engodo de alguém que lhes prometeu o eldorado europeu e arriscam tudo para poderem ser o Nani. Uns ganham, outros perdem. Este rapaz de brincos, ondas tatuadas no antebraço e com uma orgulhosa cabeleira afro está no grupo dos derrotados.

Platiny nasceu pobre na ilha do Fogo e foi criado na ilha de São Vicente pelos avós, pela mãe e pelo padrasto. Só mais tarde é que alguém lhe disse quem era o pai biológico, entretanto cegado pela doença. Como tinha jeito para a bola, desistiu de estudar e deu nas vistas num “torneio interzonal”. Diz que foi eleito o melhor jogador e que, logo ali, um italiano e um alemão foram ter com ele, prometendo-lhe um clube na Europa. Só se lembra do nome do alemão, a quem chamava Ivo, e foi este quem lhe fez a cabeça para deixar Cabo Verde. O Ivo ia tratar de tudo: passaporte, documentos, passagens, viagem de avião, futuro garantido — o sonho encapsulado num voo.

A tarefa de Platiny era convencer a mãe a deixá-lo ir, e o momento em que ela o proibiu de deixar Cabo Verde foi o momento em que ele fugiu de casa. De São Vicente para Santiago, de Santiago para São Vicente, de São Vicente para Lisboa. “Fiz aquela coisa de pôr os dedos [impressões digitais], deram-me o bilhete, e aterrei no aeroporto.” Nunca mais viu o italiano ou ou alemão. À sua espera estava um homem com uma placa a dizer Platiny, mas não acreditou que fosse para ele. Mas era. Esperou até ficarem quase só os dois, frente a frente, na zona de chegadas; o homem perguntou-lhe pelo nome, ele respondeu e recebeu outro bilhete para o Porto. Da Invicta foi levado por outro homem para Coimbra, onde foi recebido pelo roupeiro da Académica. Fez testes, não ficou e foi tentar a sorte a Barcelos, ao Gil Vicente. Lá estava o futebolista Zé Luís, cabo-verdiano como ele, que lhe apresentou o influente empresário João José, outro cabo-verdiano, que o terá “ajudado” com esta “situação toda da Académica para o Gil Vicente”.

Este é António Fiúsa, presidente do Gil: “O Platiny apareceu aqui porque conhecia o Zé Luís. Foi o vice-presidente para a formação que o recebeu. Gostaram dele e ele ficou. Agora, sinto-me enganado. O Gil foi enganado.” É aqui que começam as mentiras.

[A partir de hoje, Platiny deixou de ser jogador do Gil. O clube rescindiu contrato.]

Porquê eu?

Platiny entrou em Portugal em outubro de 2013 com um visto de curta duração, 30 dias. Em janeiro de 2014, quis prolongar a estadia e conseguiu-o com os documentos necessários e o contrato de formação que assinara entretanto com o Gil, onde começara a treinar — e, depois, a jogar. Em março de 2015, teve de renovar o visto; o mesmo foi aceite sem reservas, até o SEF receber uma denuncia anónima: os papéis de Platiny podiam estar falsificados, o que originou uma investigação. O parecer do SEF, a que o Expresso teve acesso [na foto], diz o seguinte: “O certificado de registo criminal apresentado não foi emitido pelas autoridades de Cabo Verde, apresentando indícios de ter sido falsificado.” Tem “diferentes lapsos e gralhas anómalas”, e a Conservatória dos Registos de São Vicente garante que “nada consta acerca do indivíduo identificado”. Conclusão: “O documento é contrafeito.”

Platiny diz não saber “como é que isto aconteceu” e que jamais lhe passou pela cabeça que o italiano ou o alemão tivessem forjado documentos. “Eu nunca tinha visto um passaporte na minha vida. Mas eu não minto, não cometi crime, só quero jogar futebol”, defende-se. Fontes do processo avançam a hipótese de o jogador estar a querer proteger um agente de futebol cabo-verdiano, suspeito de crimes como este. As consequências estão a caminho: o Gil Vicente quer rescindir contrato com Platiny (assinou até 2018), e o futebolista terá de regressar a Cabo Verde, porque verá o seu visto cancelado. “Fazem de mim um cão. Para isto, prefiro ir para a minha terra”, acusa o jogador. Platiny garante que não recebe o salário de “quinhentos e tal euros” desde julho e que o Gil Vicente o quer tirar da casa onde está e pô-lo noutro lugar. “O Gil Vicente não é o mau da fita, nós fomos lesados. E há jogadores nesta situação em outros clubes, com miúdos que chegam com documentos que depois se descobrem terem sido falsificados”, rebate António Fiúsa, presidente do clube de Barcelos. Até o inquérito estar fechado, Platiny viverá da ajuda do Sindicato dos Jogadores.

A rede portuguesa

Há dias, o jornal cabo-verdiano “A Semana” escreveu um artigo que denunciava a existência de “quinze futebolistas com falsificação de documentos sob investigação policial” em Portugal, “cujas idades e apelidos foram mudados, entre os quais um influente futebolista da seleção”. Ao Expresso, a Procuradoria-Geral da República confirma “a existência de um inquérito que tem como objeto fatos relacionados” com Platiny. Já o SEF não especifica o caso deste jogador, mas revela estar a investigar em rede. “O SEF tem exercido ações de fiscalização a nível nacional neste âmbito, das quais resultaram, em alguns casos, processos-crime.” Uma fonte da investigação garante que “têm sido recorrentes” nos últimos meses os casos de empresários “sem escrúpulos” a colocar jovens atletas de forma ilegal em Portugal. Este é o modus operandi: “Cabo Verde é uma das principais plataformas de importação de jovens atletas, que acabam nas mãos destas redes”, declara. Muitas das vítimas são oriundas de Cabo Verde, mas também de outros países africanos, como o Senegal ou a Guiné-Conacri. E lembra que, apesar dos protocolos celebrados entre o SEF e a Liga ou a FPF, é difícil estancar o problema: “Há uma enorme pressão exercida por estes empresários que querem meter o miúdos em Portugal.”

A Liga garante não ter conhecimento de nenhum processo a decorrer sobre o caso Platiny nem de outros semelhantes, e diz que todos esses assuntos não são da competência daquele órgão mas do Ministério Público. “Todo o tipo de denúncias ou de suspeitas de crimes são remetidas para o MP”, responde fonte oficial da Liga. Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, recusa esta versão e fala de “clubes pagos por agentes para colocar os seus jogadores, indiferentes à idade, mesmo que a diferença entre atletas seja evidente [ver entrevista ao lado]. Vale tudo”. Não é só a idade que está em causa, mas também o cadastro.

Um empresário de futebol bem relacionado em Cabo Verde conta ao Expresso como tudo é relativamente simples quando se quer contornar a justiça. “Houve um jogador aqui que teve um acidente de carro, bateu noutro carro, não tinha carta, e o dono do outro veículo queria apresentar queixa. Estava para ser transferido para um clube da primeira divisão portuguesa e, tendo cadastro, não podia fazê-lo. Como o agente conhecia o juiz e gente do tribunal, fez pressão e conseguiu que a coisa fosse abafada.”

O futebolista joga, agora, num dos dez primeiros classificados da Liga e a história dele podia podia ser a história de Platiny.

O Expresso replica aqui parte do documento da Direção Regional do Norte do SEF a informar o futebolista do “provável cancelamento” da Autoridade de Residência, por “lapsos e gralhas anómalas” no certificado de registo criminal: “O carimbo da autoridade emissora aposto no documento é uma reprodução por via digital e não carimbo a óleo”; “incongruências linguísticas a nível de ‘indivído’ [indivíduo] e ‘verifiquei a autencidade’ [autenticidade]”. Resumindo: “O documento é contrafeito”

O Expresso replica aqui parte do documento da Direção Regional do Norte do SEF a informar o futebolista do “provável cancelamento” da Autoridade de Residência, por “lapsos e gralhas anómalas” no certificado de registo criminal: “O carimbo da autoridade emissora aposto no documento é uma reprodução por via digital e não carimbo a óleo”; “incongruências linguísticas a nível de ‘indivído’ [indivíduo] e ‘verifiquei a autencidade’ [autenticidade]”. Resumindo: “O documento é contrafeito”

TRÊS PERGUNTAS A

Joaquim Evangelista, Presidente do Sindicatos dos Jogadores Profissionais de Futebol

O Sindicato sabe de casos de falsificações de documentos de jogadores em Portugal? Tem algum número que nos possa adiantar?
Infelizmente, sim. Desconhecemos o número. É um assunto tabu, ninguém o quer abordar, nem sequer as vítimas (normalmente os jogadores), porque têm medo das represálias. Conhecemos esta realidade porque os jogadores, quando as coisas pioram, batem à nossa porta. A falsificação, regra geral, é feita no país de origem. A aquisição de nacionalidade e a falsificação da idade estão na base destes casos. O que mais me incomoda é que sempre se culpa os jogadores, jovens vulneráveis que alimentam o sonho de serem futebolistas para ajudar a família.

Porque é que isto acontece?
Porque o futebol é um negócio que gera muito dinheiro, opaco e onde existe um sentimento de impunidade. Há redes organizadas que acham que vale a pena correr o risco, e de facto vale. As autoridades não podem estar em todo lado, e há dirigentes e clubes sem escrúpulos, mesmo que estejamos a falar de jovens. Os clubes de base estão a perder a sua vocação, não integram os jovens, não formam, não atuam na comunidade. Os clubes foram capturados e são pagos por agentes para colocar os seus jogadores, e é indiferente se a idade é verdadeira (mesmo sendo evidente a diferença entre atletas), se são portugueses ou se têm talento. Vale tudo!

Como se resolve este problema?
O Sindicato propôs há pouco tempo a criação de uma comissão entre SEF, FPF e LPFP, que está a funcionar. Sinaliza e monitoriza estes casos e leva a efeito ações de sensibilização. Foi um passo importante. Mas não chega. Entendemos que o futebol não pode estar sempre a desculpar a sua inatividade remetendo para os órgãos criminais, que têm feito muito, para não dizer quase tudo. O futebol tem órgãos jurisdicionais próprios, regulamentos, pode e deve reforçar as sanções e no limite erradicar as pessoas envolvidas nestas práticas. Sob pena de ser culpado por omissão. Entre outras medidas, entendo que deve ser criado um registo de clubes e dirigentes envolvidos nestas práticas. Acabamos de estabelecer uma parceria com o Gabinete de Apoio à Inclusão Social dos Cabo-verdianos, instituição que atua na integração da comunidade imigrante em Portugal, tendo em vista aconselhar e ajudar os jovens que querem jogar futebol.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 24 de setembro de 2016