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“O Mário Wilson era um otimista por natureza. Sempre o foi, até ter perdido a mulher”. Por José Augusto

Um homem “muito bom”, um filósofo e um senhor que tinha resposta para tudo. Até para uma equipa de cabisbaixo, acabada de perder com uma goleada de oito. José Augusto, um dos magriços, recordou-nos Mário Wilson, o adversário e o amigo

Diogo Pombo

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INÀCIO ROSA/LUSA

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Coincidiram nos relvados, nos camarotes, à mesa e em encontros. Antes de serem amigos foram adversários, no campo, e José Augusto apenas guarda palavras boas de todos os momentos que teve com Mário Wilson, falecido esta segunda-feira, aos 86 anos.

Pedimos ao antigo jogador do Benfica e da seleção nacional que nos falasse do primeiro treinador português a ser campeão pelos encarnados (1975/76). O resultado da conversa está transcrito em baixo.

“O Mário foi um amigo, uma amizade criada no futebol. Lembro-me perfeitamente, quando comecei a minha carreira, no Barreirense, de defrontar a Académica, no Barreiro. Eles tinham uma equipa extraordinária. A dupla de centrais entre o Torres e o Mário Wilson era qualquer coisa de intransponível. Depois, com os tempos, tive-o como adversário também no Benfica. Quando passou a treinador, tivemos mais convivência, porque ele participou como elemento de curso de treinadores.

Tivemos presenças bastante significativas em vários momentos do futebol. Ultimamente, o Mário era um assistente digno no camarote presidencial do Benfica. Falávamos sobre tudo durante os jogos em que ele estava presente. Já não aparecia muito nos últimos tempos. Apercebemo-nos da gravidade pela qual ele estava a passar, na doença. Estávamos preparados para receber o que aconteceu.

Ele foi um amigo, um homem do futebol. Era um filósofo: da tática, da técnica, da observação que fazia nos jogos, nas conclusões que tirava da finalização, ou não, das jogadas. Ao mesmo tempo que perscrutava uma forma diferente de desenvolver determinado lance. Tinha um conhecimento profundo de futebol, sempre.

Tinha, realmente, uma capacidade de aceitação enorme nos resultados que, enfim, poderiam levar a equipa e os jogadores a efeitos psicológicos de desmotivação. Ele contava que, um dia, levou uma goleada: ‘Vocês não sabem. Uma vez, levei uma goleada de oito, cheguei lá ao balneário e vi e tudo com cabeça em baixo. Disse-lhes: 'Vocês estão chateados com o quê? Eles vinham preparados para dar 10, só deram oito, portanto estão chateados porquê?’”.

Quando estávamos a assistir aos jogos do Benfica, falámos um dia de como o Mário veio de Moçambique, de Lourenço Marques, como goleador. Era avançado centro. E eu perguntei: "Então Mário, qual é diferença entre a avançado ou a defesa central?". E ele respondeu-me: "Olha, a avançado estamos de costas, e a defender estamos de frente”.

Basicamente, tinha uma resposta para tudo. Era um otimista por natureza. Sempre o foi, até ter perdido a mulher. Nestas idades, estamos sempre à espera do que a morte nos concede. Temos de aceitar as coisas com naturalidade.

Ele tirou um grande conhecimento da prática que teve. Era um homem culto e essa cultura deu-lhe para tirar muitas conclusões e reparos durante a sua carreira. Tanto a jogador como em treinador. Foi uma continuação do que fez. Todos os jogadores que deixam de jogar e continuam, no futebol, como treinadores, ficam com exemplos para demonstrar. Ele tinha uma noção exata daquilo que se pretendia.

Dos tempos em que treinou o Benfica, dizia: ‘Bem, com esta equipa, qualquer treinador era campeão’. Era um homem que criava bom ambiente, um homem que deixa saudades. Era um homem bom, muito bom. Era incapaz de ofender quem quer que fosse, tinha sempre uma palavra de respeito, mesmo em momentos de desacordo. Era um homem passivo.

Mesmo quando explodia, explodia com uma filosofia que desarmava facilmente os argumentos dos outros. Gostei muito de conviver com ele. Não foi muito, mas foi o suficiente para o respeitar. Foi um amigo”.