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O mesmo sangue, hinos diferentes

Os campeonatos estão parados, porque é tempo de seleções nacionais. Recuperamos, aqui, algumas histórias de laços fraternos que o futebol separou

Inês Rosado e Sofia Sirigado

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PATRIK STOLLARZ

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Este texto é um conjuto de histórias de irmãos futebolistas que escolheram jogar por países diferentes. Reunimos os casos mais famosos e conhecidos; entre eles, está um caso português.

\302\251 Reuters Photographer / Reuter

“Perguntei-lhe se deveria aceitar ou não. A resposta foi um claríssimo sim”

Lito Vidigal está a encher o olho dos apaixonados do futebol em Portugal. Já foi jogador mas é como treinador que tem demonstrado as suas qualidades: na época que terminou a 15 de maio conseguiu levar o Arouca a uma participação inédita na Liga Europa. O que muitos não sabem é que o treinador de quarenta e seis anos tem doze irmãos, cinco deles ligados ao mundo do futebol. Destes cinco há um especial: vestiu a camisola das quinas por quinze ocasiões e jogou ao lado de Rui Costa e Figo. Luís Vidigal é quatro anos mais novo que o irmão, Lito, e representou Portugal, numa seleção de craques, no Europeu de 2000. A história dos Vidigal não é em nada diferente de outros irmãos que decidem tornar-se futebolistas, exceto que Luís vestiu a camisola vermelha e verde e Lito envergou as cores de Angola.

Nascidos em Lubango, Angola, foi no interior alentejano que se iniciaram nas lides futebolísticas. Em Elvas, Lito começou a jogar em 1988, de onde dois anos depois rumou ao Estrela de Portalegre. No ano em que Lito abandonava o Elvas, entrava o irmão Luís, em 1991. Andaram sempre desencontrados nos relvados e acabou por ser Luís aquele que teve uma ascensão meteórica. Em 1995, assinou contrato pelo Sporting, foi campeão na época de 1999/2000 e foi chamado à seleção nacional por Humberto Coelho para o Europeu de 2000 na Holanda e na Bélgica. Em conversa com o Expresso, Luís Vidigal afirmou que a chamada à seleção portuguesa aconteceu “de forma natural”. O jogador foi abordado primeiramente pela seleção das quinas e considera que o processo “foi facilitado”. “Se me perguntar qual das duas seleções gostaria de representar, olhando para aquilo que é o ranking de uma e outra e aquilo que poderia perspetivar relativamente à minha carreira, logicamente a seleção portuguesa oferecia-me condições diferentes, melhores”, confessou. Mas Luís não esquece o seu país natal e acrescentou que “caso tivesse acontecido pela seleção angolana também me dedicaria da mesma forma que fiz pela seleção portuguesa”.

Já Lito passou três anos no Campomaiorense para depois se destacar no Belenenses, onde esteve de 1995 a 2002. Viria a terminar a sua carreira como jogador no Santa Clara em 2003. Pelo meio, em 1998, foi chamado para ingressar a seleção angolana no apuramento para o Mundial na França. Sobre a situação do irmão, Luís acredita que lhe tenha passado pela cabeça a ideia de representar Portugal “mas não aconteceu e felizmente pôde representar Angola”. Nesse ano – 1998 - os palancas negras não chegaram à competição. Lito já jogava na seleção angolana quando surgiu a hipótese para Luís vestir de vermelho e verde e o irmão mais novo, como é normal, pediu conselhos ao irmão mais velho: “Nós sempre nos aconselhámos mutuamente. Perguntei-lhe se deveria aceitar ou não. E logicamente, da parte dele, a resposta foi um claríssimo sim, disse-me que devia aceitar porque a seleção portuguesa era muito forte.”

Lito viria a ser ainda mais feliz por Angola mas enquanto treinador, quando levou a seleção angolana a outros voos: apurou-se para o CAN 2012, que se realizou no Gabão e na Guiné Equatorial.

Os Vidigal nunca partilharam o campo na mesma equipa, mas fizeram-no enquanto treinador... e jogador. Em 2008, Lito Vidigal assumiu a posição de técnico do Estrela da Amadora, que na altura jogava na primeira Liga. Entre o leque de jogadores à sua disposição estava o irmão, Luís Vidigal, vindo de uma temporada de oito anos em Itália, onde jogou no Nápoles, Udinese e Livorno. Sobre se gostavam de ter jogado juntos na seleção, fosse ela a portuguesa ou a angolana, Luís considera que, apesar de os seus caminhos terem sido diferentes, “às vezes as oportunidades acontecem em determinados momentos e felizmente para mim aconteceu. Ter representado a seleção portuguesa foi uma alegria e um orgulho”.

QUIQUE GARCIA

Nem clube, nem patrocínios, nem seleção: só o nome

Rafinha e Thiago Alcântara são, sem dúvida, o caso mais sonante e conhecido. Filhos de Mazinho, antiga glória da seleção brasileira e tricampeão do mundo pela canarinha, os irmãos não nasceram ambos no Brasil. Thiago, o mais velho, nasceu em Bari, em Itália. Rafinha, o mais novo, nasceu em São Paulo quando o pai jogava no Flamengo.

Mazinho acabaria por se mudar permanentemente para Barcelona, por motivos profissionais, e com ele levava os dois filhos, que desde jovens mostraram que a habilidade para o futebol era genética. Formados na escolas de futebol do gigante Barcelona, os jovens brasileiros cresceram para o futebol ao comando de Pep Guardiola, treinador dos catalães entre 2007 e 2012.

Partilharam o campo apenas uma vez, em dezembro de 2011, na fase de grupos da Liga dos Campeões no jogo entre Barcelona e Bate Borisov, que os catalães venceram por 4-0.

Thiago Alcântara destacou-se de imediato, Rafinha teve mais dificuldades. Empenhados em seguir caminhos independentes, Thiago deixou o Barcelona para seguir Pep para a Alemanha, na época 2012/2013, quando o treinador espanhol rumou ao Bayern de Munique.

A partir daí, os irmãos Alcântara só partilham mesmo isso: a ligação familiar. Deixaram de partilhar clube, agente desportivo e patrocínios. E até a seleção nacional.

Os irmãos representaram as seleções jovens de Espanha por possuírem dupla nacionalidade devido aos anos de residência no país. Thiago acabou por escolher representar a seleção sénior espanhola, apesar de Mazinho ter insistido junto da Confederação Brasileira de Futebol para que contactassem o filho e o incentivassem a optar pela canarinha.

Na altura, a Confederação vetou o interesse em Thiago, alegando que o jogador nem sequer tinha nascido em território brasileiro. Em entrevista ao Globo Esporte, Mazinho declarou que teria ficado mais feliz se os filhos tivessem optado pela seleção brasileira mas que compreendia que os jogadores já se sentissem “mais espanhóis que brasileiros”. “A vida toda deles está aqui” [Espanha], confessou, “Eu não interfiro. A decisão é deles. O que eles quiserem fazer, eu apoio.”

Na verdade, Mazinho sente-se orgulhoso por ter dois filhos a jogarem ao mais alto nível e, por esse motivo, não tem qualquer problema em assistir à divisão clubística e nacional dos filhos. Com Thiago no Bayern de Munique e Rafinha no Barcelona, Mazinho não ficou indiferente ao duelo de ambos os colossos do futebol europeu na meia-final da Liga dos Campeões em 2013, que acabou também por ser um duelo entre irmãos. “Quem vai à final [da prova] sou eu”, garantiu ao jornal espanhol As antes de demonstrar o seu orgulho pelos filhos “Para mim será um orgulho e uma honra ter dois filhos a disputar uma semifinal da Champions , tenho a certeza que vou aproveitar muito”.

Para deleite do pai, Rafinha contrariou as apostas de que seguiria os passos do irmão mais velho na seleção espanhola. Também porque, à segunda, e perante o sucesso de Thiago no Bayern de Munique, a canarinha não queria perder outra vedeta. E foram eles que se chegaram à frente pelo jogador, que oficializou em 2015 à ESPN que tinha optado pela seleção amarelinha.

Dissipavam-se as dúvidas e o jogador do Barcelona seguia os passos do pai.

© Alessandro Garofalo / Reuters

“É um sonho que temos os três, dividir o mesmo campo”

Paul Pogba nasceu em França, filho de pais guineenses [da Guiné Conacri] e começou a dar nas vistas no futebol profissional no Manchester United (para onde voltou agora), ao mesmo tempo que começava a representar as seleções jovens gaulesas. Ao contrário dos irmãos gémeos, Mathias e Florentin, mais velhos, nascidos em Conacri, capital da Guiné, Paul optou por representar a seleção francesa quando chegou a altura de escolher.

Mas o sonho de um dia partilhar o campo com os irmãos mais velhos, seja em que circunstância for, está bem presente na cabeça do jovem de 22 anos: “É um sonho que temos os três, dividir o mesmo campo”, partilhou em declarações à FIFA, em 2015. “Mas sabemos que é um sonho difícil de realizar. Os meus irmãos são as pessoas que melhor me aconselham no futebol. De toda a vezes que dou um passo em frente, sei que é graças a eles”.

Florentin é o irmão que, depois de Paul, mais tem vindo a marcar posição no futebol europeu. Defesa central do Saint-Éttiene, que terminou a época em sexto lugar da liga francesa, tem a oportunidade de se mostrar nas grandes competições europeias. Nunca teve dúvidas de que queria representar a seleção da Guiné, como disse, também ele, em entrevista à FIFA em 2015: “Desde que sou miúdo, sempre foi o meu sonho jogar pela Guiné”.

Florentin teve a sua oportunidade em 2009/2010, quando foi chamado para a seleção africana. Na altura, desentendeu-se com o selecionador e acabou por também jogar pelos sub-20 da França. Algo que não o impediu de regressar, pois a FIFA não contabiliza as seleções jovens como internacionalizações. Em 2013, Luis Fernandez assumia o comando da seleção nacional da Guiné Conacri e o defesa-central regressou... para se tornar capitão: “Sempre fui um líder de coração. Não sou o jogador mais velho da equipa mas o treinador deu-me o voto de confiança”.

Na seleção guineense divide o campo com o irmão gémeo, Mathias, avançado do Sparta de Roterdão. É dos três irmãos aquele que ainda permanece na sombra, mas quando chegou a hora de escolher também não teve dúvidas de que a seleção da Guiné seria a opção certa. Os irmãos gémeos já cumpriram o sonho de jogar juntos, ainda que apenas na seleção. Esperar que o irmão mais novo se junte ao role é um acontecimento impossível. Mas quem sabe possam medir forças num Mundial.

EMMANUEL DUNAND

Sem Gana(s) de representar a Alemanha

Os irmãos Boateng são outro caso igualmente famoso, muito porque os protagonistas assim o exigem. Kevin Prince e Jêrome são os mais conhecidos mas os craques têm ainda outro irmão, mais velho, George Boateng, que também jogou futebol e chegou a ser considerado por muitos o mais talentoso da família. A verdade é que o ex-jogador (agora com 40 anos) não conseguiu fazer carreira no desporto-rei. Ao invés, esteve preso e depois tentou dedicar-se ao hip-hop.

O mesmo não pode dizer-se dos irmãos mais novos. Kevin Prince e Jêrome nasceram os dois na Alemanha e têm ambos uma carreira sustentada. Mas se o sucesso segue ambos na mesma medida, a escolha sobre que país representar não foi igual.

Kevin Prince é o mais velho e foi o que se destacou primeiro no Hertha de Berlim, onde os dois irmãos começaram a dar os primeiros passos do percurso no mundo do futebol. Considerado em 2006 o melhor jogador jovem do campeonato alemão, Kevin teve um percurso de altos e baixos, que começou no Tottenham em 2007 (onde jogou apenas catorze jogos em duas épocas), prolongou-se no Borussia de Dortmund, onde conseguiu dar nas vistas mas não permaneceu apesar dos esforços de Jurgen Klopp para mantê-lo na equipa; seguiu depois para o Portsmouth (que desceu de divisão em 2010 e deixava de jogar na Premier League).

Foi então que Kevin teve a oportunidade que lhe mudou a vida. Rumou ao AC Milan na época de 2010/2011, ganhando, no mesmo ano, a liga italiana e jogando ao lado de vedetas como Zlatan Ibrahimovic. Kevin começava a afirmar-se como um craque – chegou a marcar um hat-trick em catorze minutos e a vestir a camisola número 10.

No entanto, a sua carreira ficou manchada por ter sido o responsável pela lesão que afastou Michael Ballack, jogador ícone dos alemães, dos relvados. A sua relação com a seleção alemã, na qual jogou por quarenta e cinco ocasiões entre os sub-15 e os sub-21 (em conjunto com o irmão), deteriorou-se de tal forma que Kevin acabou por optar defender oficialmente as cores da terra-natal do pai, o Gana.

Já Jêrome, que dá nas vistas atualmente no Bayern de Munique, teve um percurso mais consistente que o irmão. Saiu do Hertha de Berlim para o Hamburgo e foi chamado pela primeira vez por Joachim Low para a seleção alemã em 2010, oportunidade que não recusou.

Os irmãos, que partilharam o campo nas seleções jovens alemãs, passaram a ser "rivais". Curiosamente, Alemanha e Gana defrontaram-se no Mundial de 2010 na África do Sul e no Mundial de 2014 no Brasil e, das duas vezes, Jêrome levou a melhor sob o irmão mais velho e, inclusive, levantou a taça de Campeão do Mundo em 2014, no Brasil.

Os dois irmãos não podiam ser mais diferentes em termos de personalidade - Jêrome é mais calmo, Kevin é conhecido pela sua irreverência - mas são dois dos grandes impulsionadores da campanha do "não ao racismo" no futebol porque a sua experiência fez com que passassem por situações de preconceito. Um dos episódios é até bem recente: Alexander Gauland, deputado do partido Alternative fuer Deutschland, afirmou no final de maio que “as pessoas consideram Jêrome Boateng um bom futebolista, mas não gostariam de o ter como vizinho”. Kevin saiu em defesa do irmão mais novo e numa publicação no Instagram pessoal dirigiu-se a Alexander Gauland, dizendo que ele “precisa de jogadores como o irmão para conseguir ganhar títulos”.