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Treinar a mente para vencer

Nem sempre é o melhor atleta que ganha nem o gestor mais inteligente que é promovido. A diferença entre passar de muito bom a vencedor também se treina, não está só no talento - Rui Patrício que o diga

Carolina Reis e Mariana Cabral

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Visto de fora é só mais um apartamento, inserido num moderno prédio do centro de Lisboa. Não há qualquer referência visível ao que acontece por detrás da porta castanha blindada. A ideia é que pareça uma casa normal. E parece. Primeiro toca-se à campainha, depois sobem-se dois andares a pé ou de elevador. Como se se fosse visitar um amigo ou se estivesse a chegar a casa no regresso do trabalho. Quando a porta discreta se abre, entra-se num caminho alternativo.

É aquele o primeiro passo que desportistas, CEO, artistas dão quando querem aumentar a sua performance, estar ao mais alto nível e percebem que só as suas capacidades naturais não chegam. É preciso estar motivado para o trabalho, focado na missão e preparado para o erro. E isso implica uma viagem ao interior mais profundo, através da psicologia de alta performance, guiado por um coach, alguém que vai olhar para todas as áreas do indivíduo e ver como o pode ajudar a ter o melhor desempenho possível. A genética e a biologia — as qualidades — contam, mas não chegam. Não é só com elas que se alcançam metas. É preciso treinar a mente.

“Estamos a falar de treino de competências para atingir a máxima eficácia”, define Ana Bispo Ramires, psicóloga que há mais de duas décadas acompanha atletas de alto rendimento. É esta discreta mulher que abre a porta blindada. E que olha para as pessoas que ali se sentam e vê as suas competências e a maneira como estas podem ser trabalhadas para elas ficarem na sua melhor forma e, assim, atingirem os seus objetivos. Algo que pode passar por fazer mais formação académica; por aprender a gerir a ansiedade; por adquirir técnicas que ajudem na interação humana; por perceber que se está a falar num tom errado durante uma reunião; ou por descobrir que não se consegue ultrapassar o concorrente por medo de o destronar. A psicologia de performance está direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psicoemocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação, quer a nível desportivo, académico ou empresarial.

“Esta questão do desenvolvimento de objetivos e de esforço para lá chegar desenvolve a perceção do controlo, o ‘eu posso fazer coisas pela minha vida’, e isso é brutal para as pessoas. A maior parte anda em piloto automático, a reagir e não a proagir, portanto nós desafiamos as pessoas a proagir.” O ‘nós’ inclui uma nutricionista e uma fisioterapeuta que se certificam de que o corpo, e não só a mente, estão a ser bem direcionados. E a reação vai depender do indivíduo, logo não há um plano comum nem ferramentas que funcionem com toda a gente da mesma maneira. “A capacidade de decidir em competição, com alta pressão, por exemplo, é difícil para alguns, para outros não. Por isso é que não há uma única ferramenta que sirva para todos”, frisa Duarte Araújo, diretor do Laboratório de Perícia no Desporto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa. Este organismo dedica-se à investigação interdisciplinar para compreender a performance e o treino para um melhor desempenho, de acordo com os constrangimentos do indivíduo, do ambiente e da tarefa.

Naquele consultório escondido num prédio de habitação, onde o trabalho começa mas ao qual não se cinge, sentam-se nomes tão diferentes como o guarda-redes Rui Patrício, a apresentadora Fátima Lopes, o artista plástico Hugo Martins, o empreendedor João Filipe Jorge e Pedro Marques, responsável pela metodologia das equipas de futebol do Manchester City. “Se as pessoas quiserem falar do trabalho que fazem connosco, que falem, mas nós não o faremos. Porque, em termos contextuais, a área da psicologia ainda é, erradamente, conotada com problemas e com a ideia de ser para malucos. E não como área de treino, que é o que a psicologia da performance traz”, explica.

Sessão 1: O Atleta e os seus avatares

Chegaram todos em bruto, com uma parte do talento por esculpir, e foram, com o tempo, transformando as suas carreiras e transformando-se, num processo em que o indivíduo é um atleta. “É um treino de endurance, com várias provas pelo meio, em que aprendemos e ganhamos e noutras só aprendemos — o que aguça ainda mais a minha mente de atleta”, conta a apresentadora de televisão Fátima Lopes. As provas variam consoante o avatar a trabalhar. Isto é, trabalham-se os vários aspetos das suas vidas. Se é mais pessoal ou mais profissional. Durante o processo, Fátima é ‘atirada ao tapete’, o que lhe dá novas ferramentas para se superar. Leva trabalhos para casa, como aprender a escrever para descrever estados de alma, e recebe tarefas em que é desafiada a agir de maneira diferente. “Mais do que nunca tenho a certeza de que o grande poder está dentro de nós. Só precisamos da ajuda certa para o usarmos”, conclui.

É um treino a longo prazo, feito de forma contínua, com sessões semanais em que se analisam e dissecam os acontecimentos da semana anterior e se avaliam novos projetos e o impacto no plano de vida. “O pior de tudo são as sessões em que vou sem ‘caneleiras’ e só me apetece fugir. A resistência à frustração é, sem dúvida, uma componente que temos trabalhado bastante. Por muito que por vezes não apeteça ficar ali, é importante encarar as situações e ‘ir a jogo’”, diz João Filipe Jorge.

Ana Bispo Ramires nunca fala sobre os seus coachees (clientes) em particular. Faz parte das regras do jogo. Especializada em desporto, trabalhou dez anos no Benfica e habituou-se a estar sempre disponível, nem que seja por telefone, para algum caso de stresse. Como aconteceu com um guarda redes durante o Europeu. Ou com um velejador que lhe ligava sempre de alto mar em plena situação de crise. E seja um CEO ou um funcionário de uma pastelaria trata-o como se fosse um atleta. Analisando todos os seus avatares: do profissional ao de conjugalidade. Tudo o que influencie a chegada à meta.

“O coaching é fazer aquilo que é necessário ser feito. Tem aspetos psicológicos, como tem muitos outros. Envolve um conjunto de atividades que estão além de ferramentas psicológicas”, frisa Duarte Araújo. Não basta a uma pessoa querer fazer uma maratona e convencer-se de que é capaz de a fazer. O coaching vai analisar a eficácia dos treinos físicos e perceber até que quilómetro consegue um indivíduo correr. Envolve, por isso, toda uma multiplicidade de funções e tarefas que se adaptam de pessoa a pessoa. “Fernando Mamede era excelente a nível biológico. Batia os tempos dos atletas quenianos, mas desistia quase sempre nas grandes competições internacionais”, conta Duarte Araújo. Foi o seu contemporâneo Carlos Lopes — com valores abaixo dos seus — que ganhou medalhas olímpicas, apesar de não ser melhor. Aliás, Fernando Mamede bateu o colega fundista nos 10 mil metros no Campeonato do Mundo em 1984, fixando um novo recorde. O seu talento natural, contudo, nunca ultrapassou as dificuldades psicológicas das provas. O coaching de alta performance, feito por alguém qualificado, vai a esse nível de profundidade, fornece aquela alavanca em que se dá o pulo de bom (ou muito bom) para vencedor. É o que faz a diferença no comportamento humano. “Vamos arranjando situações para ir treinando competências que se pretende desenvolver, por exemplo, melhorar a concentração face a um adversário, identificar estratégias para manter o foco face a uma situação de jogo específica, como aguentar aquele segundo que pode ajudar a defender uma grande penalidade”, diz Rui Patrício sobre o outro treino que faz, o mental.

Sessão 2: Traçar um caminho

A investigação que Duarte Araújo tem levado a cabo mostra que o coaching tem impacto direto. Não representa a totalidade do sucesso nem metade dele. Não é a solução para todos os problemas. A capacidade de provocar mudanças comportamentais no coachee chega aos 20%. “Tem um impacto significativo, e isso já é bom, porque influencia.” O caso de Rui Patrício serve de metáfora. “O Rui tem características específicas que tornam qualquer psicólogo o melhor do mundo. É um tipo supertrabalhador e supercurioso, que foi treinado desde miúdo numa escola de futebol que contribuiu para a sua formação identitária e para a sua capacidade de trabalho. A mãe e o pai do Rui tiveram um papel importantíssimo na sua construção em termos de valores. Os técnicos da seleção de futebol, tanto os que o chamaram à titularidade como os atuais, têm um papel também determinante no rendimento dele”, sintetiza Ana Bispo Ramires, afastando do trabalho que faz com o jogador o grande motivo de sucesso.

Nos últimos anos, multiplicaram-se os workshops de coaching, sessões de poucas horas que prometem ensinar a mudar de vida, a evoluir nas empresas, e os discursos motivacionais tornaram-se moda. Uns fazem perguntas até o indivíduo começar a revelar todas as suas dúvidas e características. Outros acreditam que basta ensinar a lidar com a adversidade, contrariando-a com amuletos. “Isso para mim é como transformar as pessoas em cachorrinhos. A única coisa que leva as pessoas a mudarem é exteriorizarem que têm de o fazer”, acusa Jorge Araújo, ex-treinador de basquetebol que aplicou as táticas desportivas num modelo transponível para as empresas. “Este é um conceito que está em grande discussão a nível internacional. O coaching em que acredito é aquele que ajuda as pessoas a alterar comportamentos para entender a necessidade da mudança”, frisa.

CONHECIMENTO. Fátima Lopes e Rui Patrício têm sessões semanais de coaching com Ana Bispo Ramires — faz parte dos seus processos de autoconhecimento

CONHECIMENTO. Fátima Lopes e Rui Patrício têm sessões semanais de coaching com Ana Bispo Ramires — faz parte dos seus processos de autoconhecimento

O caminho é fértil em teorias. A área é desregulada e desregulamentada, sem nenhuma entidade para a fiscalizar ou certificar. Uma situação semelhante ao que acontecia antes de ter sido criada uma Ordem dos Psicólogos, em que muita gente abria um consultório de psicologia sem ter qualquer tipo de formação. Daí que Jorge Araújo não revele os nomes de CEO e políticos que acompanhou e acompanha. E que Ana Bispo Ramires tenha um consultório que se confunde com uma casa de habitação normal. A ideia de neutralidade tem a ver com a discrição. E também com a desconfiança com que a prática do coaching e da psicologia de performance ainda são vistas. “Eu não sei o que é o coaching em Portugal, devo dizer muito sinceramente. Sei que há pessoas que trabalham de forma séria, que investigam, estudam e têm o seu próprio coach. Acho que tudo tem mais a ver com o nível de exigência que o técnico tem consigo quando vai para o terreno numa qualquer área. O nível de exigência, os seus valores e o seu código de ética, tudo o que leva para o terreno. É isto que distingue um bom profissional de um mau profissional”, diz Ana Bispo Ramires.

Para perceber o que é o coaching é preciso recuar até à época da Guerra Fria, ao primeiro congresso da Sociedade Integrada da Psicologia no Desporto, em Roma, em 1965. O conceito nasce no desporto e estava focado no lado clínico dos atletas, se tinham ou não capacidades físicas para ganhar. Em período de Guerra Fria, a criação desta sociedade foi classificada de elitismo pelos países socialistas, que criaram a Federação Europeia da Psicologia do Desporto, já mais abrangente e virada para outras atividades do atleta. “É aqui que os psicólogos começam a acompanhar as equipas, ainda com muito sigilo. A então seleção da Checoslováquia incorporava o técnico, o médico, o nutricionista, o fisioterapeuta, o relações públicas e o psicólogo. Já se parecia com o coaching”, explica António de Paula Brito, histórico professor da Faculdade de Motricidade Humana e responsável pelo ensino da psicologia do desporto nas universidades portuguesas.

Ciclicamente, desde aí, os psicólogos que acompanhavam os atletas e as equipas dividiam-se em quatro tipos: os que estavam virados para a procura de maior rendimento, os que se centravam na recuperação, os que estavam focados no planeamento e os que viam o atleta como um todo. Estes começaram por surgir no ténis de alta competição, onde havia mais dinheiro para investir. “O coach de hoje é contratado para trabalhar com o indivíduo. É uma pessoa que se ocupa de tudo”, sublinha António de Paula Brito. E foi isso que fez quando criou um laboratório de psicologia do desporto. “Começávamos por traçar um perfil psicológico, em que analisávamos fatores como o tempo de reação. E disponibilizávamo-lo ao jogador. Depois víamos o seu desempenho. E a sua relação com o treinador.”

Adaptado às empresas e ao cidadão comum, o coaching entra em Portugal pela mão do mítico jogador de futebol Jorge Valdano. A Make a Team, uma empresa do ex-atleta que faturava milhões de euros por ano, trazia de Espanha a ideia de aplicar a psicologia do desporto no mundo empresarial. “Para quem trabalhava no desporto muito afincadamente é muito natural conseguir fazer sinergias e links com todas as áreas, porque o desporto em si é um laboratório fantástico de exibição de competências humanas ou da falta delas, portanto o transfer para outras áreas profissionais é muito fácil. Paralelamente, também começou a ganhar visibilidade internacionalmente esta necessidade da psicologia do desporto extravasar da sua área e ir para outras áreas”, conta Ana Bispo Ramires.

Sessão 3: Aprender a errar é fundamental

A base do trabalho que Ana Bispo Ramires, Jorge Araújo e Duarte Araújo fazem com os seus coachees está aí. Sem nunca falarem de valores, percebe-se que este é um trabalho caro. Ana e Jorge dizem que não há uma tabela fixa, que varia de projeto para projeto. Um trabalho que passa por ver e interpretar. Por vezes, a imagem que temos de nós próprios é errada, o que pode conduzir a objetivos irreais. “Chego a ir assistir a reuniões ao lado do CEO. Para ver como ele age e reage. Alguns dizem que eu sou o coach, outros apresentam-me como um parceiro de trabalho”, diz Jorge Araújo, que na lista de clientes da sua empresa, a Team Work, tem o Banco Popular, o Banif, a Bosch ou a Bial. Com o olho habituado a analisar a partir do momento em que os clientes entram naquele consultório descaracterizado, Ana avalia a fisicalidade da pessoa. Mas o trabalho não é esse, nem se desenvolve apenas naquele consultório através de perguntas e respostas, de sessões de psicanálise. “Há uma parte inicial que é dolorosa, que é trabalhar a autoconsciência das pessoas, porque é ali que se começa a tomar consciência, e essa parte demora algum tempo. A forma como muitas coisas acontecem na vida é alimentada por ações nossas”, diz Ana Bispo Ramires.

“É um exercício fundamental de recriação, entre aquilo que imaginávamos que éramos e o que queremos efetivamente ser. Uma caminhada consciente, às vezes dorida, de construção da nossa essência, de uma forma voluntária e em parceria com alguém que nos desafia quando, momentaneamente, nos questionamos”, define o artista plástico Hugo Martins.

Numa sociedade que vive obcecada pela ideia de sucesso, toda a gente quer ganhar. E foca-se, excessivamente, nisso, vivendo pouco preparado para o erro. “Os erros vão acontecer sempre. A forma como reajo ao erro, imediatamente a seguir, três minutos após ou quatro jogos depois, é que vai determinar tudo”, continua a psicóloga.

É como entrar em estado flow, em que se está imerso no que se está a fazer. Rui Patrício aprendeu isso com Ana. “É uma experiência importante, porque devemos saber entrar mas também permanecer mesmo quando acontecem erros. Apesar disso, sente-se uma alegria imensa em cada momento do jogo, como se desejássemos superar-nos a nós próprios em cada oportunidade. Como gosto mesmo muito do que faço, permite-me ser ainda mais feliz no dia a dia.”

Apesar de o coaching ter origem no desporto, o guarda-redes do Sporting admite que, mesmo na sua área, ainda é visto como algo para malucos. Mas Rui sente o impacto a toda a hora, não apenas nos jogos ou antes dos penáltis. “Sei hoje claramente que só não erra quem não arrisca, e quem não arrisca não evolui. Sei que o erro faz parte da aprendizagem e, por muito que não goste de errar, porque sou superexigente comigo próprio, já sei olhar para o erro e perceber que me ajudará a melhorar no minuto imediatamente a seguir.”

Quando se delineia uma estratégia de alta performance, o erro pode mesmo fazer parte do caminho. “Um treinador de excelência pode planear derrotas para a sua equipa, porque a época desportiva são 30 jogos ou 30 competições, e eles têm de estar num certo sítio em determinada altura, portanto vai potenciar que isso aconteça”, diz Ana Bispo Ramires.

Sessão 4: Criar a mudança

Continuidade é uma palavra chave quando se caracteriza o coaching de alta performance. “Só é consistente se persistir o tipo de apoio. Quando eu relaxo, eu regrido. Veja-se agora as dificuldades que o Eder está a ter em França”, diz Jorge Araújo.

É por isso que Hugo Martins está com Ana há 20 anos. E que Scolari é acompanhado pela mesma psicóloga há 15 anos. E que a comitiva olímpica dos EUA integra 44 psicólogos. “Há características que são detetadas estudando os perfis e as histórias de vida. Às vezes, as pessoas têm-nas e não o sabem”, diz António de Paula Brito. Tentar mudar o comportamento e perceber o que nos vai aproximar mais do que queremos é um trabalho de autoconsciência complexo, porque às vezes as questões são muito subliminares. Se a reunião correu mal, qual foi a razão? Teria dormido bem? Teria comido bem? Estaria irritado com alguém? Teria problemas com algum tipo de personalidade?

Todos queremos ser campeões. Trabalhar para o ser é que é mais difícil. O coach faz parte desse trabalho.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016