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André Silva: o retrato do “mini Deco” educadinho, teimoso e goleador que marcou 15 golos num jogo

Aos 15 anos, o pequeno “Deco do Salgueiros”, foi namorado pelo Benfica, Sporting e FC Porto. Acabou por ir parar ao Dragão, não só por simpatia clubística, mas porque a mãe recusou sem contemplações separar-se do filho primogénito, ainda tão menino

Isabel Paulo

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OLHA QUEM É ELE. Entretanto cresceu e já não veste vermelho, mas a cara não engana: é mesmo André Silva, o miúdo que se está a destacar no FC Porto (e na seleção), mas que começou a jogar no Salgueiros

OLHA QUEM É ELE. Entretanto cresceu e já não veste vermelho, mas a cara não engana: é mesmo André Silva, o miúdo que se está a destacar no FC Porto (e na seleção), mas que começou a jogar no Salgueiros

André Silva tinha oito anos quando foi jogar um torneio em Viana do Castelo, equipado com a camisola das escolinhas do histórico Salgueiros. Jogava a médio- avançado e, contra o Vianense, ainda o encontro ia a meio, quando marcou o 15º golo. O pequeno Deco, alcunha que ganhou dos colegas de equipa, foi festejar com o treinador, que de pronto o tirou da equipa.

“Expliquei-lhe que o jogo estava ganho, não estávamos ali para humilhar ninguém e que era bom que ele desse chances aos colegas de equipa”, lembra Luís Machado, sem esconder o orgulho que sente por ter sido quem ensinou “os primeiros passos no futebol ao novo goleador da equipa de todos nós”.

André Silva, bom aluno no campo e nos bancos da escola em Baguim do Monte, Gondomar, tinha sete anos quando foi prestar provas no velhinho clube de Paranhos, instigado por um primo Filipe, batizado de Quaresma, hoje a jogar no Leça do Balio, nos distritais.

Alexandre Pereira, então coordenador dos escalões jovens do Salgueiros, recorda a jovem estrela portista como um menino muito educado, que não largava a bola até ser obrigado a ir para o balneário ou ver chegar o pai, Álvaro Silva, bancário na CGD, para o levar a casa.
“Era uma família muito unida, empenhada na educação do André e do filho mais novo, o Afonso, que jogava hóquei em patins”, diz Alexandre, reformado do futebol mas eterno sócio do extinto e entretanto renascido Salgueiros.

“Muito educadinho, mas teimoso quando metia uma coisa na cabeça” é ainda a recordação que Luís Machado guarda do autor do hat-trick da goleada (0-6) da equipa de Fernando Santos, ontem, às Ilhas Faroé, opinião ainda partilhada por João Carvalho, treinador de André nos infantis.

Mais novo um ano, mas mais alto e “entroncado” do que os colegas, o mini-Deco amuou quando os então diretores do Salgueiros não o passaram para a equipa de iniciados de primeiro ano ao mesmo tempo que os amigos. Inconformado, foi jogar no Boavista, não se adaptou, quis desistir e jogar hóquei com o irmão, mas convencido a voltar ao seu primeiro clube por Luís Machado, “lá apareceu, todo contente, com o equipamento vermelho, muito apertadinho do ano anterior”.

No segundo ano de iniciados foi treinado por Alexandre Silva, que já afirmou que ele aos 14 anos era um jogador especial para a idade. “Tinha muito talento, mas não vou mentir e dizer que já adivinhava que se iria tornar no craque que é hoje. São idades ingratas. Com o jeito dele vi muitos e nem todos evoluíram da mesma maneira”, refere Luís Machado, treinador dos guarda-redes do clube caído em desgraça no dealbar da década de 2000, e hoje a militar no Campeonato de Portugal Prio, série C, equiparado à III divisão nacional.

O salto para os grandes aconteceu aos 15 anos, na passagem aos juvenis, depois de dar nas vistas num jogo em 2010 frente ao FC Porto. O Salgueiros venceu por 3-2, André marcou e foi considerado o melhor jogador em campo. Cobiçado pelo Benfica e Sporting, o vizinho Dragão nunca mais largou a presa, até porque o rapaz era simpatizante portista.

“Andavam os grandes todos a namorá-lo, mas a mãe disse logo que para longe, tão novo, o filho não ia, até porque o mais importante para os pais na altura era os estudos, que ele era aluno de boas notas”, conta Alexandre Pereira.

Apesar de ser atleta do FC Porto, André Silva, como os restantes juvenis do clube, jogou então com as camisolas do Padroense até vestir de azul-e-branco no segundo ano dos juvenis e juniores, tendo por treinador Capucho.

Aos 18 anos, o ponta de lança por quem o futebol português aguardava há longos dava sinais que a busca do desejado nº 9 seria uma questão de tempo. Em 2015, foi vice-campeão europeu de sub-19, tendo sido o melhor marcador do Mundial de sub20, na Nova Zelândia, com quatro golos marcados em cinco jogos.

A jogar na equipa B do FC Porto até ser chamado por José Peseiro no fim da época passada, André Silva bisou na final da Taça de Portugal, carregou o FC Porto até ao prolongamento com um pontapé de bicicletas, feito que não evitou a derrota frente ao Sporting de Braga. Nem lhe valeu a chamada para o Europeu do nosso contentamento em França.

Na véspera do jogo frente à Áustria, José Peseiro profetizou que André Silva tinha tudo para vir a ser o futuro ponta de lança da seleção, fazendo dupla com Cristiano Ronaldo, mas advertiu que percebia que Fernando Santos não o tenha convocado.

“O burro do treinador do FC Porto só reparou nele naquela altura (fim da época). Os testes da seleção já tinham sido feitos”, disse meio brincar o ex-treinador portista, entretanto contratado pelo Braga.

Agora com quatro golos marcados em três jogos da equipa nacional – um contra Andorra, três frente às Ilhas Faroé, André Silva promete fazer esquecer Pauleta na sempre inconstante ataque da equipa portuguesa. Ou Domingos, o último rei dos golos do futebol nacional, melhor marcador do campeonato com 25 golos já lá vão 20 anos.

“É um sonho tornado realidade. Eu só penso meter a bola da baliza”, confessou, ontem, o avançado de 20 anos portista, que leva seis golos marcados esta época, cinco na I Liga, um na fase de apuramento para a Champions, frente à Roma.

O jogador que a 6 de novembro celebra 21 anos fez o seu primeiro hat-trick enquanto sénior e tornou-se o jogador do FC Porto mais jovem de sempre a marcar três golos pela seleção. Desde Pauleta num 4-1 a Cabo Verde, em 2006, que nenhum avançado português, além de Cristiano Ronaldo, assinalava o feito.

Para blindar a joia da coroa, a SAD portista já blindou o jogador com uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros. Arsenal e Atlético de Madrid são só dois dos candidatos que se seguem aos seus remates certeiros.