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Ir à Europa está-lhes a sair bem caro

Já tinha perdido em Vila do Conde e empatado em Guimarães. Agora voltou a perder pontos, só que em casa. Pela terceira vez esta época, o Sporting não conseguiu vencer depois de, a meio da semana, jogar para a Liga dos Campeões. O Tondela, que era o penúltimo classificado do campeonato, foi a Alvalade empatar (1-1) contra uma equipa que fez muito pouco e apenas marcou aos 96'. E já jogou sobre as brasas dos assobios

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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É como as pessoas que são religiosas e vão à missa: entram na igreja, fletem um pouco o joelho e benzem-se. Um ritual. Antes de qualquer jogo também há um. Quando, uns minutos antes, vamos espreitar os onzes, queremos separar o trigo do joio, ficar a saber quem joga e quem se vai sentar no banco. É a altura em que vemos se está tudo como de costume ou se o treinador vestiu a bata do laboratória e resolveu experimentar algo. Foi nessa altura que vi André Filipe Ribeiro de Souza.

Ele, que é conhecido pelo primeiro nome, é brasileiro, foi contratado para marcar golos e, pela primeira vez esta época, ia jogar de início não com um médio a reboque, mas ao lado de outro avançado a sério. Entre os onze condecorados com a titularidade, André era o único a quem não se adivinha tal honra e o que menos futebol tem jogado. Visto o nome dele, e como era a novidade, fui perguntar ao Google o que havia para ler sobre este brasileiro. E a internet levou-me até aqui:

“A gente queria ficar brincando. Ia fazer uma finalização e ficava apostando para o outro pagar uma prenda. É meio motivacional isso. Às vezes, as pessoas levam isso para o outro lado, acham que você, por brincar, não tem seriedade. Mas você quer descontrair. Você já vive no futebol, que é muita pressão. Aí tu pega alguns clubes com salários atrasados, torcida xingando, maior complicação. Se você não for para ali brincar, não for para se divertir, você acaba querendo trocar soco no treino.”

O que é estranho, porque o avançado que chegou a Portugal com a alcunha de Balada, o equivalente brasileiro para o que em português se chama de discoteca, até tinha razão nisto que disse há uns anos. E não foi por, até ao intervalo, ser o tipo que mais faltas sofre (três, a par de Gelson) e o que menos vezes perde a bola (nenhuma) - sinal de um súbdito que cumpre o que o treinador lhe terá dito e foge da área, pede a bola, toca-a entre os médios e dá-se ao jogo para os outros lhe darem passes. Foi mais pelo que o Sporting fez e não fez. E as reações que foi recebendo.

Os leões até começaram bem, com Bast Dost a fugir da área, a receber a bola, a picá-la por cima da defesa e a soltar Gelson no campo aberto que, com uma finta pelo meio, o extremo aproveitou para rematar contra o poste esquerdo da baliza do Tondela. Foi logo aos três minutos. Depois, apenas a cabeça do holandês deu algo de perigoso ao jogo, quando rematar por cima da baliza (23’) a bola que Schelotto lhe cruzou. Mas a equipa até tentou coisas.

Gelson ganhava todos os um-para-uns, obrigava um adversário a compensar outro e, com isso, abria espaços. Os extremos fugiam das linhas para o centro e abriam a auto-estrada em que Schelotto se fartou de acelerar até à cruzar muitas vezes. Coates e Rúben Semedo podiam calçar as pantufas, por tudo resolverem com tanto à vontade.

O Tondela, encolhido em si próprio e embriagado na ideia de se fechar, juntar as linhas e manter-se organizado na sua metade do campo, nunca ameaçou Rui Patrício. Só que, mesmo com o jogo controlado, o Sporting não criava oportunidades de golo, não causava arrepios a quem via o jogo. E isso, acumulado com outras coisas que vêm de trás, causaram assobios atrás de assobios: contra lançamentos laterais tardios, os toques que Elias dava na bola, passes mal feitos ou uma demora a construir uma jogada. Estava-se ali a montar uma “grande pressão”, como André disse que acontece no futebol.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Ora, Elias, por mais que erre ou que faça bem as coisas, não tem culpa da lesão que apanhou Adrien e que tiro à equipa o cilindro que mais fazia mexer o motor da equipa. Mas foi ele, o jogador que mais sentia a pressão que há muito não se sentia a vir das bancadas, a ficar no balneário para Jorge Jesus tentar disfarçar a falta que o capitão do Sporting faz à equipa com uma experiência. Saiu Elias para entrar Bruno César.

O homem que gosta de chutar à baliza e que, outro dia, disse ao Expresso que não tem “problema nenhum em jogar em qualquer posição”, não mudou grande coisa. Ao contrário do que acontecera na terça-feira, contra o Borussia Dortmund, para a Liga dos Campeões. Aqui, aconteceu o que já se vira nas duas anteriores vezes em que o Sporting jogou após ter um jogo europeu a meio da semana - foi perdendo ritmo e tino.

Os leões chegaram-se à frente e, desconfortáveis com o nulo que se ia mantendo, foram-se partindo. Os extremos deixaram de recuar e colavam-se às linhas, para esticar o jogo. A equipa procurava mais passes para a frente, preferia arriscar a jogar pelo seguro. Bruno César, que tem passe e remate no pé esquerdo, esticava em demasia a equipa, porque não tem o hábito de ir, voltar e vir outra vez, vaivém que um médio centro tem que ter. As linhas dos médios e dos avançados da equipa separavam-se dos defesas. O Sporting ia-se desmontando.

Isso, aos poucos, partiu o jogo. Ou seja, abriu os espaços que convidaram o Tondela a perder a tímidez e a dar uso aos velocistas que tinham adormecido lá na frente. John Murillo, o venezuelano que vai na segunda época emprestado pelo Benfica, começou a receber bolas no espaço. Miguel Cardoso idem. E os contra-ataques do Tondela, que se tornaram frequentes, foram tendo cada vez menos gente para os parar no Sporting - quem tinha tração à frente demorava a baixar, Bruno César era o líder desse grupo e William era pouco para fazer tanta coisa.

Ele, por não ter ninguém perto para receber a bola, falhou um passe que tentou longo e rasteiro e que deu na jogada em que Murillo se antecipou a Rúben Semedo, na pequena área. Não acertou (66’) com o desvio na baliza. Este filme só passou uma vez. Oito minutos volvidos, o Tondela recuperou uma bola no meio campo do Sporting, queimou com um passe a linha de médios que estava a metros a mais da defesa e obrigou Coates e Rúben Semedo a saírem ambos na pressão ao mesmo jogador. Mal. Fixaram-se os dois centrais, a bola foi para a direita, Jaílson cruzou-a rasteira e Murillo, sozinho, marcou. Castigo.

O Sporting alarmou. Estava apático, sem ideias, jogadas bonitas, bolas na relva que criassem oportunidades. Até a equipa centrar a bola em William, para que ele canalizasse o desespero coletivo pelo pé direito que bombeava passes longos, para a área, apenas conseguiu que Sebastián Coates se antecipasse (86’) ao guarda-redes Cláudio Ramos, num canto, e cabeceasse um remate por cima da barra. E só dez minutos de quase nulidade depois, perante um Tondela cercado na própria área, zeloso dos três pontos que já imaginava a levar para casa, é que um cruzamento de Gelson foi apanhado e rematado por Joel Campbell, na pequena área. O empate apareceu aos 96’ e na última jogada da partida.

Os assobios e a pressão dos quais André falava, claro, ouviram-se. Além do pouco que o Sporting fez, o jogo teve algo em comum com a derrota em Vila do Conde (3-1) e o empate em Guimarães (3-3), há umas semanas - a equipa abrandou, foi perdendo andamento, o discernimento foi pouco e a quebra de ritmo notória. As três partidas jogaram-se após os leões jogarem para a Liga dos Campeões e isto só pode querer dizer alguma coisa.

Que pode ser isto: está a sair-lhes caro jogar na Europa esta época. A fatura já vai em sete pontos perdidos.

  • Em direto: Sporting 1-1 Tondela (fim)

    Sporting

    Após sofrer cinco golos nos últimos três jogos (e de apenas vencer um deles), o Sporting volta ao campeonato para jogar contra o Tondela, em Alvalade. E aos 74' os visitantes marcaram, por Jhon Murillo. Os leões só conseguiram empatar aos 96', por Joel Campbell