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Ele chutou e os outros foram atrás

O Paços de Ferreira estava a pressionar, de peito feito e, portanto, a abrir espaços. Só quando Gonçalo Guedes marcou e continuou a rematar de todo o lado é que os jogadores do Benfica exploraram esses espaços e começaram a fazer o tal jogo entre linhas. Salvio e Pizzi fecharam o 3-0 e a vitória que garantiu, pelo menos, três pontos de vantagem sobre o FC Porto, para a visita ao Dragão na próxima jornada

Diogo Pombo

António Cotrim/Lusa

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Ligamos a televisão à noite, antes ou depois de cada fim de semana, e paramos num programa que, de verdade, ponha gente a jurar que falará de futebol e só de futebol, como quem mete a mão sobre a bíblia e faz um juramento em tribunal. Isto é como nos filmes de Hollywood, em que as pessoas fazem isso perante um juiz e, minutos volvidos, mentem com tudo o que têm - é difícil que o enredo ponha os atores a dizerem a verdade. Por cá, também parece ser difícil falar, analisar, trocar argumentos e discutir apenas sobre o que acontece no campo.

Nas alturas, raras, em que o futebol é mesmo tudo, quem percebe da coisa costuma falar da importância de jogar entre linhas.

Mesmo que não expliquem o que é, isso é algo que tem muito que se lhe diga. É das coisas que todo e qualquer treinador bate palmas quando vê acontecer e está sempre a apregoar aos seus. Porque não há melhor forma de ultrapassar adversários e deixá-los fora de uma jogada do que ter alguém da nossa equipa a pedir a bola nesses sítios: por exemplo, nas costas de um médio e na frente do defesa central, a meio caminho dos dois e com metros livres à volta. O médio fica batido com um passe, que o queima, e o central fica na dúvida, entre pressionar ou ficar à espera. Parece simples.

Só que, na prática, é difícil sê-lo. Sobretudo nas alturas em que uma equipa com piores jogadores, menos dinheiro, objetivos mais magros e outro andamento, entra no Estádio da Luz. Fecham-se, juntam a linha de avançados à dos médios e a dos médios à dos defesas, encurtam os espaços. Mas isto tudo é o contrário do que o Paços de Ferreira faz. Eles pressionam, encostam Mateus, Leandro e Pedrinho aos três da frente e afastam-se da defesa, que não avança com eles. Há espaço, muito, só que o Benfica não puxa pelas palmas de Rui Vitória.

Porque gente como Pizzi, Cervi e Salvio têm ciúmes de Fejsa e passam muito tempo perto dele, na mesma linha, a quererem a bola no pé e a não a pedirem no espaço, nas costas dos adversários, onde lhes podem fazer mal. Por isso a equipa bloqueia, dá muitos passes ao lado e para trás, não desenvolve e vê o Paços a rematar logo aos vinte e poucos segundos e repetir duas vezes a graça nos primeiros dez minutos. Os encarnados estão perros e só rematam quando fazem voos diretos, sem escalas, até Mitroglou. Ele remata a bola que lhe chega de um pontapé de baliza de Ederson - ressalta num defesa e quase dá auto-golo - e a que Pizzi lhe dá, na ressaca de um canto. Defendi personifica o apelido que tem.

E o Paços, que chega muitas vezes à área encarnada, não mexe na ousadia e continua a pressionar, sem esperar e sem se fechar. São 26 minutos de incómodo para o Benfica, até Mitroglou e Cervi se lembrarem de uma coisa. O grego foge dos centrais, dá o sinal para lhe meterem um passe e, ao mesmo tempo, o argentino foge da direita para a frente do avançado. O primeiro toca no segundo, que está sozinho para desmarcar um terceiro, que já fugia pela direita. É Gonçalo Guedes, bruto na força que põe no pé direito que estoira a bola (26’) na direção da cabeça de Defendi, que não tem reação nem tempo para reagir.

António Cotrim/Lusa

Aparece o tal jogo entre linhas. Rui Vitória bate palmas.

Porque quando ele surge, é isto que sucede - jogadores soltos com a bola, virados para a baliza, a fixarem adversários e a soltarem um tipo da mesma equipa para posições de remate.

Esse tipo foi quase sempre Guedes. Até ao intervalo, ele chuta cinco vezes com força e direção na bola, mais do que qualquer outro, e está solto. Pede mais a bola, foge de Mitroglou, espreita nas costas dos médios do Paços, mexe com as marcações do adversário e o Benfica joga melhor. É quem mais diferença faz no jogo e na forma como o Paços defende, pois a equipa recua e junta mais os jogadores quando percebe que os encarnados já deram o clique.

No futebol, um jogo que mete onze jogadores em cada equipa e ninguém (além de um ou outro extraterrestre) faz muita coisa sozinho, é difícil culpar apenas um por tudo o que acontece de bom. Sobretudo quando há Pizzi, que gere os ritmos, tem critério, pensa o jogo e todos os demais clichés da bola na segunda parte; ou porque há Nélson Semedo e Salvio, os dois que dão tração à direita e conseguem sempre ultrapassar os adversários e levar as jogadas até à área. Mas Gonçalo Guedes está em quase todas.

Ele livra-se de um adversário e remata com a canhota (56’). Ele cruza a bola que desvia em alguém, quase dá golo (60’) e acaba na recarga que Mitroglou não aproveita. Ele amansa o cruzamento de Nélson Semedo para Salvio, na pequena área, rematar (72’) contra Defendi.

Ele só não esteve na jogada em que Eliseu, o campeão europeu que se estreou no campeonato, cruzou rasteiro para Mitroglou, que abriu as pernas e deixou a bola chegar ao pé direito (64’) de Salvio. E nem ele, nem ninguém, à exceção de Jiménez, que serviu de tabela, esteve na jogada em que Pizzi tocou e foi para, na área, passar por três e desviar a bola (87’) do guarda-redes do Paços de Ferreira - que sofreu o terceiro depois de ameaçar com um remate de Pedrinho, que rasou o poste direito, e outro de Cícero, que teve corpo para ganhar uma bola a Lindelöf, mas não teve pés para acertar na baliza.

O 3-0 acabou tranquilo quando começou a esforço, só depois de Gonçalo Guedes, ao pontapé, marcar e começar a encostar o adversário à área. A sétima vitória seguida do Benfica assegurou que a equipa continuará, pelo menos, com três pontos a mais que toda a gente na frente do campeonato. São valiosos, porque na próxima jornada vai estar no Porto, a jogar um clássico no Estádio do Dragão. Ainda bem, para eles, que o rapaz começou a chutar na bola.