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O que é isso de ter jeito para jogar à bola?

Luís Vilar

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Este título poderia ser outro: Coitadinho do ‘cromo da bola’ que não entrou em educação física por causa ‘das ciências’. A decisão do Secretário de Estado da Educação de voltar a considerar a nota de Educação Física na candidatura dos estudantes ao Ensino Superior despoletou uma luta nas redes sociais entre os fisicamente aptos e não aptos, estilo ‘nerds’ vs. ‘cromos da bola’. Eu estou à vontade para opinar porque sou ambos: tenho um doutoramento internacional e joguei futebol durante mais de 20 anos...

A opinião pública é que o ‘jeito para Desporto’ é algo inato, totalmente distinto do ‘jeito para Ciências’ que pode ser trabalhado. Esta visão confere um papel secundário a um professor que usa fato de treino, face a outro que até uma bata branca veste. Como se o trabalho de ambos não tivesse uma base de sustentação cientificamente sólida, e um programa de desenvolvimento de competências do 1º Ciclo ao Secundário. Esta perceção, aliada à decisão da anterior administração escolar, ajuda na desvalorização da Educação Física por parte de estudantes, pais e, por conseguinte, diretores de escola. Se não houver budget, ‘corta-se’ nas bolas e nas horas de Educação Física...

Prejudica-se assim o rendimento escolar dos estudantes: investigações internacionais demonstram que os alunos com melhores notas a matemática e português são os que apresentam melhor índices de aptidão física e coordenação motora. Prejudica-se assim a inclusão de alunos com necessidades educativas especiais: investigações internacionais demonstram que a capacidade de leitura e de cálculo de estudantes com hiperatividade aumenta após a atividade física. Prejudica-se assim a saúde da nossa população: investigações internacionais demonstram que o exercício físico promove uma melhor regulação do colesterol, da pressão arterial e da diabetes. Prejudica-se assim o orçamento de estado: investigações internacionais demonstram que um programa de atividade física permite a poupança a longo prazo de 5€/praticante em cuidados de saúde e 3€/praticante em despesas de absentismo. Prejudica-se assim a produtividade do país: investigações internacionais demonstram que praticantes de deporto apresentam níveis superiores de resiliência e trabalho de equipa.

Ainda ninguém parou para pensar porquê que as empresas, grandes e pequenas, nacionais e multinacionais, dão cada vez mais importância ao recrutamento de profissionais com experiência em atividades de desporto?

Verdadeiramente, a questão em discussão deveria ser que modelo pedagógico queremos para a escola pública do nosso país. Continuamos presos a paradigmas de ensino tradicionais centrados exclusivamente em conhecimentos. Um profissional competente deve dominar conhecimentos, mas também habilidades e atitudes. E o ensino deve ser construído para estas três dimensões, e não só para uma. O resultado de décadas de más práticas pedagógicas é que temos profissionais a saberem muito de coisas pequenas, mas a conseguirem fazer pouco de coisas grandes. Já para não falar na tremenda falta de ética vigente... Neste sentido, o legitimo problema que se colocaria é como avaliar coerentemente habilidades e atitudes, já que os exames nacionais só avaliam conhecimentos. Este é um (bom) problema que (também) a Educação Física terá de resolver.

Terminaram há pouco os Jogos Olímpicos. A opinião pública foi bastante contundente na exigência de mais medalhas aos nossos atletas, porém ninguém criticou as medidas de política que fomentaram a negligência da Educação Física. Diria mais: o grande problema é que alguns dos decisores do nosso país nunca foram aptos do ponto de vista físico e motor, e por isso sempre tiveram dificuldades em inserir-se socialmente em grupos. E culpam a sua (des)educação física por isso...