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O cantinho do Herrera

O FC Porto jogou mais e jogou melhor, Nuno Espírito Santo esteve sempre um passo à frente de Rui Vitória, mas o clássico acabou empatado. Herrera pôs uma bola fora já nos descontos e o Benfica aproveitou para fazer o 1-1 num canto curto que mantém os portistas longe na classificação

Pedro Candeias

FRANCISCO LEONG

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Um dos significados para a palavra “bluff” é logro e outro é burla, mas eu prefiro patranha, que é o mesmo que mentira ou peta, só pelo gozo de ter uma palavra que rima com manha no arranque de um texto. E isso, mentir, é coisa que Rui Vitória diz que não faz, ou porque não quer, que é feio, ou porque é assim que ele é.

Garantiu-nos, ontem, na conferência de imprensa, quando lhe perguntaram por Grimaldo, o enésimo jogador entalado por uma lesão muscular do Benfica nesta época – assim, do pé para a mão, avanço os nomes de Rafa, Jonas, André Almeida, Jardel, Mitroglou, André Horta, Fejsa (esta é traumática, não conta) e Luisão (esta aconteceu há pouco, e já vos conto algo sobre ela).

Comecemos pelo Fejsa, e pelo Grimaldo, que condicionaram o que Rui Vitória queria fazer deste clássico. Ele não o admite, mas sem o sérvio e o espanhol, o treinador perdeu um equilibrador e um desequilbrador e ganhou um tipo que está lento, porque não tem ritmo, e outro que é cronicamente lento: Samaris e Eliseu. E isso tudo muda.

Porque sem Fesja, Pizzi é obrigado a andar na linha do meio-campo, de mão dada com Samaris, pertinho dos centrais, para tentar fechar espaços que se abrem porque o grego não dá nem tem a intensidade, antecipação e posicionamento do sérvio. É um seis que não é um seis, mas um oito recauchutado a seis. E isso é um trinta-e-um.

E porque sem Grimaldo, entra Eliseu – não é preciso dizer mais, certo?

Foi por aqui que Nuno Espírito Santo atacou o clássico, pondo Corona em cima de Eliseu, Oliver na esquerda (mas por dentro), Otávio no mesmo espaço de Pizzi e Diogo J. e André Silva em constantes mudanças. Ora isto ocupou a cabeça de Pizzi com demasiada informação para um só cérebro processar: devia ele olhar para Otávio ou seguir em frente?; devia ele ajudar Samaris com Óliver ou pensar o jogo?.

Pizzi entrou em overload – e desligou-se.

Com o meio-campo controlado pelo FC Porto, com a saída Luisão por outra lesão muscular (eu disse que vos contaria algo sobre ela), o Benfica fez... zero.

Não houve diálogo, apenas um monólogo, porque os portistas foram sempre rápidos a recuperar a bola e despachados a levá-la lá à frente, onde André Silva e Diogo J. procuravam combinar entre eles como enganar os adversários. Tivessem eles mais experiência e instinto matador e o encarnados não teriam saído ao intervalo com o zero-a-zero que se viu – safou-os Ederson, com os pés, com as mãos e até com a cara.

Um guarda-redes de corpo inteiro.

Ora, com 15 minutos para discutir e rever a matéria dada, esperava-se que Rui Vitória mexesse nas pecinhas porque, assim, o Benfica não ia lá – ao contrário do FC Porto, que ia a todo o lado a jogar daquela forma.

E como Vitória não mudou e Espírito Santo se manteve, era uma questão de tempo até o inevitável acontecer: golo de Diogo J., que fintou Semedo e disparou a bola que entrou entre o poste e mão direita de Ederson.

Visto daqui, e de lá, foi um frango do brasileiro. Lá se foram uns créditos.

Foi então que Vitória decidiu olhar para o banco e de lá sacar André Horta para o lugar de Cervi. Abdicou de um extremo, mas equilibrou um pouco o meio-campo, e Pizzi pôde parar para pensar.

E o Benfica melhorou. Poucochinho, sim, mas melhorou, porque Pizzi passou a fazer o que gosta, que é arranjar soluções, e foi por isso que Nuno Espírito Santo trocou Corona por Rúben Neves, para travar a resposta encarnada.

O jogo passou a ser mais disputado, na medida em que um jogo disputado é um jogo jogado por dois e não só por um, com bola cá e bola lá, lances de perigo e algumas defesas. Mas tudo se encaminhava para o 1-0 final, justo para os portistas, que jogaram mais e melhor até se esquecerem da verdade absoluta de todos os desportos – isto só acaba quando acaba – e da verdade relativa deste Benfica – é bom de bola parada.

Não é “bluff”, é verdade, verdadinha.

Um disparate de Herrera deu canto que os encarnados transformaram em curto e que deu o golo de Lisandro que mantém o Benfica na frente, com cinco pontos de vantagem sobre os rivais do Porto.