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O engodo, a demora, o medo, o ausente e os pontos (cinco pontos para discutir o clássico)

A forma como todos no FC Porto se mexeram para que um ficasse solto e mandasse a partir da bola. Ou um treinador que mexeu bem, mas tarde, e outro que se pôs a mudar coisas cedo, e mal. Olhámos para o FC Porto-Benfica e destacamos cinco aspetos a partir do que se passou no Dragão

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Corona era um engano

Era só pensar um bocadinho sobre o assunto, que Nuno Espírito Santo chegaria lá rápido. Sem a velocidade, tração à frente e pulmão de Grimaldo, à esquerda, o Benfica ficaria com a lentidão, o peso e a contenção de Eliseu. A melhor forma de chatear alguém tão preso à relva é por um jogador irrequieto e rápido a desmarcar-se. Tudo o que Corona é e Herrera não é, por isso jogou o primeiro e o treinador do FC Porto fez-nos pensar que seria no lado do campeão europeu sem ritmo que os dragões iriam carregar. Enganou-nos, Benfica incluído.

O mexicano manteve-se, de facto, perto de Eliseu, mas a equipa apenas usou-o mais para criar um engodo. Muitas jogadas começavam à direita para atrair a atenção dos encarnados, chamar jogadores e, aí, colocar a bola do outro lado do campo - onde esteve sempre Óliver Torres. A equipa preocupou-se sempre em ter a bola junto do pequeno espanhol, que joga de peito feito e parece ter um cordel a puxar-lhe sempre a cabeça para cima, e em dar-lhe espaço para ele decidir o que fazer. Diogo Jota ou André Silva colocavam-se nas costas de Nélson Semedo, ou entre ele e o central. Fixava-se o lateral direito. Alex Telles avançava no campo como um extremo e esperava junto à linha. Fixava-se Salvio.

E como o FC Porto tinha outro avançado para prender o outro central do Benfica, o trinco Samaris recuava para a equipa não ficar em igualdade numérica na defesa. Isto deixava Pizzi a correr sozinho e a chegar atrasado a todo o lado, incluindo até Óliver, que ficou muitas vezes sozinho como resultado de tudo isto. E com tempo para receber, tocar, passar e fazer jogar. O espanhol foi quem mais vezes (65) tocou na bola nos dragões e acertou 91% dos passes que tentou. Os dragões mexeram-se para deixarem o espanhol com bola, de frente para a baliza, a mandar nos ataques da equipa, o que resultou até ele sair.

Nuno encolheu-se

O golo de Diogo Jota foi aos 50’ e nem mudou nada logo aí: os dragões continuaram a ser melhores. Deixaram de o ser quando o treinador mexeu no que estava bem e alterou uma equipa que já estava habituada ao que tinha de fazer para, sem a bola, pressionar rápido, lá à frente e perto da baliza adversária. Nuno Espírito Santo disse que a ideia dele, quando pôs Rúben Neves, Layún e Herrera, era que eles “sustentassem o jogo, com pressão intensa, condicionando o adversário”. O plano saiu-lhe furado e uma equipa que era ladra de bolas lá à frente passou a fechar-se na sua metade do campo.

Sem Corona, deixou de haver o extremo que impedisse o melhor lateral do Benfica de avançar uns metros na pressão. Pareceu tentar corrigir isso com Layún, mas tirou Óliver e, sem o espanhol, a equipa perdeu tempo (e critério, que é como quem diz, boas decisões) com a bola. E sem Jota, perdeu um homem que roubava o tempo aos centrais do Benfica e deu um sinal à equipa - porque entrou Herrera, um médio - que era mesmo altura de fechar a loja e guardar o 1-0. Mesmo que diga que não foram, “de todo”, mexidas “de cariz defensivo”.

MIGUEL RIOPA

Rui corrigiu-se muito tarde

O treinador dos dragões começou a mexer aos 67 minutos no que estava bem, mas Rui Vitória demorou 59 a tentar corrigir o que mal funcionava. Há uma diferença de oito minutos entre as decisões. Foi o tempo que passou até os sintomas da presença de André Horta se sentirem. O médio, apenas por ele, não fez nada do outro mundo, porque Samaris não o deixava afastar-se por se manter lento e colado aos centrais. Mas o português deixou Pizzi ir para a esquerda e a, por fim, preocupar-se mais com ter a bola do que em roubá-la aos outros.

Rui Vitória viu a equipa a crescer, a já conseguir ligar cinco passes sem avarias e a roubar bolas na outra metade do campo. Os jogadores avançaram todos dois ou três metros, encheram o peito, começaram a agir mais do que reagir e a ter um terceiro homem (Samaris, Horta e Pizzi) com queda para brigar no meio do campo. Só que isto tudo apenas se viu já com uma hora de futebol jogado.

O treinador do Benfica demorou a tentar mudar coisas e a substituição queimada na lesão de Luisão (aos 12 minutos), mesmo que o tenha feito hesitar - teria menos margem para corrigir uma mudança errada - não pode explicar tudo. Vitória até acertou no que mudou, mas foi ajudado pela quebra de intensidade que as substituições de Nuno causaram no FC Porto, que recuou, deixou de reclamar todas as segundas bolas e ficou desconfortável com a pressão que os encarnados fizeram no último quarto de hora, com um segundo ponta de lança a sério (Jiménez) em campo.

Sem o Fejsa será sempre complicado

Não era preciso haver um clássico para concluirmos uma coisa - sem Fejsa, o Benfica fica pior e jogar pior. A forma como o sérvio compensa os espaços abertos por outros, vai às laterais fazer contenção e fechar a porta aos adversários, ou impede a equipa de se encostar muito atrás (encosta nos médios dos outros, sem os deixar virar para a baliza) faz com que toda a gente tenha mais tempo para fazer tudo. Sem ele, e com Samaris, um médio que não é trinco e está sem ritmo e intensidade, a equipa encolheu-se e viu o melhor médio (Pizzi) a pensar apenas em defender.

Diz-se que o médio pode demorar, pelo menos, três semanas a cuidar do tornozelo, e isto não é mau para o Benfica só por causa do que ele dá à equipa a defender. Fejsa é terceiro jogador que mais passes acerta (89,7%) no campeonato, segundo a Opta e o WhoScored.com, e à frente só estão Rúben Semedo, um central que costuma ter mais tempo com a bola e menos jogadores por perto, e Danilo Pereira. O sérvio não deixa os adversários jogarem tanto quanto ajudar a fazer o Benfica jogar. Isto pode não se notar por aí além contra umas 13 ou 14 equipas, mas a ausência de Fejsa será sempre tramada contra os grandes, o Vitória e o Braga.

Mais pontos este ano?

Rui Vitória ganhou a época passada, foi campeão e ninguém lhe pode apontar o dedo, apesar de o ter sido com apenas três pontos conquistados em quatro jogos feitos contra FC Porto e Sporting. É por títulos desses que se diz que os canecos ganham-se a fazer o que se compete contra os pequenos para precaver o salve-se quem puder nos clássicos. O treinador do Benfica viu a equipa a ser pior e a ser ultrapassados em muitos momentos no seu primeiro clássico da temporada. O golo nos descontos deu-lhe um ponto, mas terá que crescer mais nos próximos jogos contra os rivais.