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Lembra-se de Kenedy? “Fiquei traumatizado com os comprimidos para emagrecer. Agora, tenho 10 ou 12 quilos a mais”

Aos 42 anos, Daniel Kenedy regressou ao norte há 15 dias, agora como treinador do Leixões. Conta como foi convidado para jogador-treinador na Grécia, país que adora. "São um pouco como nós, mas ainda mais deixa andar", diz, o ex-campeão do Benfica e FC Porto, que fala grego e sonha chegar ao final da Taça de Portugal pelo histórico clube do mar. Mágoa como jogador só tem uma: ter sido afastado da seleçao por ter acusado doping, que jura nunca tomou

Isabel Paulo

Rui Duarte Silva

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Daniel Kenedy Pimentel Mateus dos Santos. Kenedy é nome de família?
Não. Foi uma homenagem ao presidente Kennedy, que o meu avô materno, Jorge Pimentel, admirava muito. Tinha perdido um filho há pouco tempo, eu nasci logo em seguida, e foi ele que escolheu o nome Daniel Kenedy.

Tinha quantos anos quando chegou a Portugal?
Vim para Lisboa com cinco anos. Tenho irmãos, mas na altura vim com a minha avó Maria Olímpia, que foi quem me criou e ainda é viva com 94 anos. A pessoa que fez por mim tudo na vida , uma mãe (a minha morreu há 16 anos) que eu adoro. Os meus pais ficaram na Guiné, e foi a minha avó que me acompanhou em tudo desde pequenino.

Já tinha queda para a bola?
Sempre. Jogava na escola, na rua, eu com oito anos contra os rapazes de 15 e 16 anos, que às vezes batiam-se mas no dia a seguir estava lá outra vez. Era uma altura que se jogava muito na rua.

Como foi parar ao Benfica?
Fui jogar para o Cultural da Pontinha, no primeiro ano de infantil, dei nas vistas. Lembro-me que o Benfica me comprou ao CAC por 35 contos, bolas e equipamentos, onde já fiz o segundo ano de infantil e percorri todos os escalões até aos seniores. Vivia num Bairro Social, da Horta Nova, perto de Telheiras e ia para a Luz sozinho, a pé, com muito gosto.

A avó não se opôs?
Ela só queria que eu estudasse, mas nunca me cortou as pernas, e a família sempre me apoiou, as minhas tias, que viviam comigo. Fico no Benfica dos 12 aos 23 anos. Passei à equipa principal ainda júnior, com mister Ericksson, mas praticamente só treinava com os seniores. Subo verdadeiramente com Tomislav Ivic, mesmo jogando pouco. A afirmação na equipa foi com Toni, uma das minhas referências como treinador, e fomos campeões.

Quem eram os craques que o ponham em sentido no balneário?
Muitos e bons. Mozer, Veloso, Vítor Paneira, Isaías, Rui Águas, Paulo Sousa, já havia o Rui Costa, João Pinto. Imensos jogadores com a mística do Benfica, de quem foi apanha bolas. Nas camadas jovens com 13, 14 anos éramos nós que apanhávamos as bolas da equipa principal, e eu era um deles. Foi aí que passei a fazer parte da vida deles e eles da minha.

Quem mais o marcou?
Dava-me com todos. Sempre fui bem disposto, como hoje, com um espírito aberto, brincalhão. Os mais velhos, como o Mozer, Veloso, Rui Águas davam-me conselhos, sabiam que tinha valor, nunca criei problemas a ninguém. Lembro-me de contar ao Rui Águas que num jogo que que o Benfica ganhou ao Steua de Bucareste, num canto para o Benfica, fui apanhar a bola e fui colocá-la perfeitinha na marca de canto, alisei a relva e quando o Pacheco foi bater nem mexeu na bola. Marcou o canto, o Rui Águas fez golo de cabeça. Andei uma semana a dizer aos meus amigos que tinha sido eu que tinha posto a bola para golo. Foi um episódio fantástico.

Além de Toni, também é um admirador de Nelo Vingada...
Toni marcou-me porque foi quem apostou em mim aos 18, 19 anos num plantel riquíssimo, de jogadores fabulosos. No lado esquerdo tinha a concorrência do Stefan Schwarz, Rui Costa que jogava pela esquerda, e Toni apostou em mim em jogos como o do famoso 6-3, em Alvalade, em 93/94, quando o Benfica foi campeão. O Nelo Vingada também foi muito importante numa fase da minha vida, depois de ter ido para o FC Porto, ter ido para Espanha (Albacete). Voltei para o Estrela da Amadora, com Jorge Jesus, época que correu muito bem, e outra nem tanto. O Nelo leva-me para o Marítimo, deu-me confiança, é um ótimo treinador e uma pessoa fantástica, que me fez renascer e admiro até hoje. Nesta minha fase de treinador, vou buscar muito dele, no relacionamento com os jogadores, na liderança do grupo...

Que tipo de liderança?
Uma liderança de proximidade. Eu sou assim. Não há uma liderança certa ou errada, cada treinador tem a sua maneira de trabalhar. Eu sou muito emotivo e, graças a Deus, o trabalho nos clubes por onde passei têm corrido bem. Como fui jogador, ponho-me no lado deles, apesar de não sermos perfeitos e não se poder agradar a todos. Num plantel de 24, 25, 26 jogadores o normal é todos quererem jogar, mas tento explicar porque jogam uns e não outros. Nós, jogadores de futebol, somos complicados, achamos que estamos sempre certos. Queremos sempre jogar, mesmo quando não estamos bem achámos que somos os melhores. No futebol, o difícil é motivar quem não joga por opções do momento.

Rui Duarte Silva

Já alguma vez tentou desenhar, como Nuno Espírito Santo, para transmitir a sua mensagem?
Não, nem me atrevo a fazer. Ia sair pior. Fico-me pelo quadro das tácticas.

Chegou ao Leixões com o campeonato em curso, à 14ª jornada, com a equipa em penúltimo lugar da II Liga, em lugar de descida, um cenário difícil para se estrear nas provas profissionais. É um risco?
Claro que é mais fácil fazer o plantel, começar do zero. Era a equipa do treinador anterior (Filipe Coelho), podia não ser exatamente a minha, mas tem jogadores jovens, em quem acredito, com talento, que joga bem, menos confiante devido aos resultados. Em 15 dias estão a responder ao que quero, parece-me que falta uma ou outra peça, a afinar no mercado de janeiro. Fiquei feliz no primeiro jogo, vencemos (ao Freamunde), perdemos o segundo (com a Académica). Não estamos derrotados e acredito que iremos recuperar em breve os três pontos de distância da linha da manutenção.

Entra numa época em que descem mais equipas...
Falta ainda muito campeonato. Com ajustamentos acredito que o Leixões vai assegurar a manutenção.

Estava no Almancilense, no Algarve. Como surgiu o convite para treinar o Leixões?
Foi o Paulo Lopo, presidente da SAD, que conheci atravé de amigos. A minha história como treinador começa com ele no Sintra Futebol Clube, na distrital, há três anos, que ele ajudou financeiramente, ao mesmo tempo treinava os juvenis da Torre, em Cascais. Ligou-me a dizer que queria que fosse eu o treinador e desde aí mantivemos contactos fora do futebol. Voltou a convidar-me agora, nem hesitei, pois é uma honra treinar um histórico como o Leixões, um clube que toda a gente conhece, com garra, com adeptos com paixão. Acho que estou no clube certo.

Jogou até tarde na Grécia.
Até aos 37, no Aias Salamina. Antes de vir para Portugal, fui passar uns dias à ilha de Patmos, vi que não havia nada para os miúdos se entreterem e abri lá um escola de futebol para 180 crianças. Foi um sucesso, quase tive de fugir porque eles tinham uma grande paixão por mim.

Tornou-se treinador por vocação ou por falta de alternativas?
No último ano em que joguei, saiu o treinador e fiquei como jogador-treinador. Fui quase empurrado para esta profissão, caiu-me no colo. Fazia-me impressão, pensava: “sou eu que mando nisso?”. Mas depressa percebi que não dava para fazer as duas coisas, já pensava mais como técnico, gostei, e fui entrando cada vez menos.

Apanhou os anos de crise na Grécia?
Pouco, só o início. Não foi por isso que voltei. Parecia que o país me chamava.

Foi um 'globetrotter' como jogador. Jogou em Espanha, França, Chipre, Grécia...
Foi bom. Do Benfica fui para o PSG, vivi um ano e meio e gostei muito de Paris, das cidades mais fantásticas do mundo. E gostei muito, muito da Grécia. São parecidos connosco. Mas um bocadinho mais loucos, mais deixa andar. Amanhã é 'ávrio' E qualquer coisa eles dizem 'ávrio, ávrio'. Atenas e as ilhas são fantásticas, é um país maravilhoso, as pessoas acolhedoras. Estive lá cinco anos e falo grego. Sem aulas, ao fim de três meses já me desenrascava. Tenho jeito para línguas, falo francês, inglês, espanhol. Tenho ouvido para a música, amo música, ajuda-me muito. Como gostava de ouvir música grega, forçava-me a perceber a letra.

E canta?
Tenho a mania que canto, mas só em casa. Mesmo que a minha avó diga que não canto nada.

Já tem curso de treinador'?
Já fiz o primeiro nível, e estou a fazer o estágio do segundo. Aos poucos chego lá.

Foi campeão pelo Benfica e pelo FC Porto.
Fui tetracampeão com António Oliveira. Era uma equipa memorável, com Drulovic, Zahovic, Jardel, Sérgio Conceição, Capucho, Vítor Baía, Aloísio, Jorge Costa, Rui Jorge, Paulinho Santos. Grandes tempos.

Joga amanhã com o Oriental para a Taça de Portugal, troféu que o Leixões já venceu...
É um troféu especial para este clube e para mim, que o venci pelo Benfica e FC Porto. Vai ser um incentivo extra para motivar os jogadores. E é o único clube no terceiro escalão que chegou à final com o Sporting.

Não venceu mas foi à Taça UEFA jogando na II B....
Por tudo isso, este clube merece voltar à final da Taça e regressar à I Divisão. Seria um sonho.

O pior momento da sua carreira foi ter acusado doping quando estava em estágio para o Mundial de 2002...
A maior mágoa da minha carreira, uma injustiça porque nunca me dopei. Estava em estágio em Macau com a seleção de António Oliveira. Fui acordado por Rui Caçador a dizer que me tinha de vir embora. Tinha feito análises cá, fiquei atónito a pensar como podia acusar uma coisa que nunca tomei nada. Faltava um mês para começar o Mundial,. Provei que os únicos comprimidos que tomava eram para emagrecer, que fiquei a saber tinha uma substância proibida (furosemida). Para mim era chinês.

Quem lhe receitou o medicamento?
Na altura era sabido que ia ao Doutor Fernando Póvoas, a pessoa que me acompanha para controlar o peso. Era meu médico e da minha ex-mulher, que também tomava o medicamento.

Agora não toma. Quantos quilos já engordou desde que deixou de jogar?
Fiquei traumatizado e não tomo nada. Tenho mais dez 10 ou 12 quilos, no mínimo. Mas desde que cheguei a Matosinhos ando a fazer dieta.

Sempre teve tendência para engordar?
A partir de certa altura, sim. Uma questão de metabolismo. A pior coisa do mundo é uma pessoa ser julgada e condenada injustamente. Julgo que os responsáveis da altura não fizerem tudo o que podiam ter feito por mim. Até porque a pior coisa do mundo é uma pessoa ser julgada e condenada injustamente. Julgo que os responsáveis da altura não fizerem tudo o que podiam ter feito por mim. Fiquei uma época sem jogar no Marítimo. Agradeço até hoje ao presidente Carlos Pereira, que sempre acreditou em mim, tratou-me sempre bem, pagou-me e ainda renovei por mais um ano.

É benfiquista. É o ano do tetra?
Acredito que sim.