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Uchebo, o nigeriano que se diz “escravo” do Boavista

Michael Uchebo é um avançado nigeriano que está a travar uma luta com o Boavista. O clube não lhe paga o salário, nem o deixa treinar ou usar as instalações. Uchebo, que chegou a ser ameaçado por um segurança - “A minha vontade é pô-lo a dormir” -, não recebe salário desde abril e está a ser ajudado, monetariamente, pelo sindicato de jogadores

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Ele apareceu no Bessa, pronto para se exercitar, de uma maneira ou de outra, e alguém o parou. Era um funcionário do Boavista, um presumível segurança. Barrou-lhe a entrada, disse que o nigeriano não podia entrar ou, sequer, estar ali. Não era a primeira vez que acontecia, de certeza. Se fosse, Michael Uchebo não teria o telemóvel na mão, com a câmara ligada, para gravar o que um segurança lhe disse em português, língua que o nigeriano não entende, ao contrário dos empurrões que o fizeram perceber que, ali, não era bem-vindo: “Eu sei que ele está a gravar, mas eu vou bater neste gajo. A minha vontade é pô-lo já a dormir”.

Um alegado segurança do Boavista disse estas duas frases, em jeito de desabafo, de quem perde a paciência, num vídeo supostamente gravado por Uchebo. Proferiu-as, pelo que se percebe, ao fim de vários minutos em que ele, mais outra pessoas, tentam explicar - com pouco inglês e muito português - ao nigeriano que ele não pode estar nas instalações do clube. Pelo meio, tê-lo-ão empurrado e tocado, o que se deduz pelas reações audíveis do jogador. “Não me empurres. Porque me estás a empurrar?”, questiona, antes de perguntar pela razão de o tratarem “como um escravo”.

Ao que parece, a vida de Michael Uchebo é mais ou menos esta, desde setembro.

Antes da época arrancar, o Boavista quis reduzir o ordenado do nigeriano que jogava no clube há duas épocas. Ele não quis. Não querendo, o clube decidiu colocá-lo de parte e deixou de lhe pagar o ordenado, deixando-o na situação que ele considera ser de escravidão. Esta é a história que vem do lado de Uchebo, depois há a que o Boavista conta.

A 15 de novembro, o clube emitiu um comunicado com 16 pontos, nos quais detalhou a sua relação com o jogador. Contada pelos axadrezados, a história foi mais ou menos assim. No fim da época passada, antes de toda a gente ir de férias, o clube informou o jogador e o agente dele que Érwin Sánchez, o treinador, já não o queria. Foi-lhe também dito que, por isso, “não poderia treinar com o plantel principal”.

O Boavista foi trocando e-mails e telefonemas para ir arranjando soluções, que o jogador foi recusando. Até ao dia em que Uche N'wofor, outro nigeriano que estava no mesmo imbróglio, pediu ao clube uma rescisão amigável, com urgência para assinar por uma equipa eslovaca. Sim senhor, disse o Boavista, com uma condição - Uchebo também teria assinar a sua rescisão.

O avançado aceitou, porém, no dia em que era suposto aparecer no Estádio do Bessa, não deu sinais de vida. O clube conta que até deixou os administradores da SAD à espera, durante várias horas. Uchebo, em suma, nunca assinou o papel que, em troca, revelou o clube, lhe daria a rescisão amigável e “o pagamento de uma verba significativa inicial”, além de “todos os créditos actuais e futuros dos jogadores”. Terminando, o Boavista escreveu que “não cederá a pressões mediáticas” que veiculem “falsidades”.

É a palavra de um lado, o que tem o dinheiro, contra o outro, que não o tem e precisa dele para viver.

No meio estão os vídeos que, na sexta-feira, Oluwashina Okeleji, um jornalista da BBC, publicou no Twitter e terão sido gravados pelo próprio Michael Uchebo. Um deles mostra o diálogo do jogador com o alegado segurança, que dá voz à intenção de agredir o jogador. Noutro vídeo, ouve-se um funcionário do clube, em inglês, a explicar ao nigeriano que o presidente, Álvaro Braga Júnior, lhe dera ordens para não o deixar entrar nas instalações do Boavista. Não se sabe em que dia foram gravados os vídeos, nem os nomes das pessoas que interagem com o jogador.

Sabe-se, pelo tal comunicado do Boavista, que o Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol já está a mediar o processo. A Tribuna Expresso sabe que o clube não paga um salário ao jogador desde abril, antes de ambos terem começado a negociar uma rescisão amigável, que não chegou a acontecer.

O jogador, que já não terá pago algumas contas em Portugal, está com dificuldades financeiras e o sindicato já lhe terá fornecido uma verba. Quanto a Uche N'wofor, o Boavista ainda não lhe terá pagado o valor relativo ao remenescente do contrato. A Tribuna Expresso sabe que haverá mais dois jogadores do Boavista em situações semelhantes.

Já o FIFPro, sindicato internacional de futebolistas, disse apenas que está “em contacto com os colegas portugueses para perceber de que forma poderá ajudar”. A 29 de novembro publicará um relatório que mostrará "o quão má é esta situação à escala global".