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Martelinho: “Eles eram tão rápidos que nem tínhamos tempo para lhes dar umas porradas”

O Boavista-Sporting deste sábado (18h15, Sport TV 1) é o pretexto que precisávamos para telefonar a Joaquim Pereira da Silva, ou Martelinho, para quem acompanhou os tempos áureos dos axadrezados. O antigo extremo contou que, no ano do título, a equipa nem tinha negociado um prémio de campeão - “era uma migalha” - e recordou como foi jogar na Liga dos Campeões contra jogadores que “não se podia ter vergonha em reconhecer que eram melhores”

Diogo Pombo

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CORRE, CORRE Martelinho passou nove épocas no Boavista e diz que o golo marcado a Peter Schmeichel, em 2001 (o ano do título do “Boavistão”), foi o mais importante da carreira

CORRE, CORRE Martelinho passou nove épocas no Boavista e diz que o golo marcado a Peter Schmeichel, em 2001 (o ano do título do “Boavistão”), foi o mais importante da carreira

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Estou a ligar-lhe porque tem uma boa história com o Sporting, para o seu lado.
Sim, era um clube contra o qual, por várias vezes, fui feliz. Consegui marcar alguns golos, um deles naquele ano do título, foi se calhar o golo mais importante da minha carreira.

Conte lá como foi.
Recordo-me bem do lance. Vinha o Sánchez com a bola, estava a tentar arranjar uma linha de remate, e eu a pedir-lhe a bola. Mas ele tentou rematar. A bola ressalta ali e eu, depois, também com um colega meu a pedir a bola, enchi-me de esperança e de confiança, e acabei por chutar com a parte de fora do pé. Por acaso, tinha muita precisão a chutar assim. E pronto, consegui fazer um golo importantíssimo e contra um guarda-redes mítico, o Peter Schmeichel. Foi fantástico, ainda por cima deu-nos praticamente o título. O jogo foi a cinco jornadas do fim e sentimos que o título já não nos fugia, porque faltavam três ou quatro minutos para o jogo acabar.

Por isso é que festejou como um louco, a sprintar em direção ao banco de suplentes?
Éramos um grupo muito unido, uma equipa humilde, com um orçamento muito baixo em relação aos três grandes. No fundo, toda a gente achava que o Boavista, mais jogo, menos jogo, acabaria por não aguentar. Mas, no último jogo da primeira volta - e também fui eu a marcar o golo contra o FC Porto - passámos para o primeiro lugar e nunca mais o largámos. Quando fiz o golo contra o Sporting, tenho na mente que a minha vontade era ir a correr até à rotunda da Boavista e voltar ao estádio, tamanha era a alegria. Os adeptos estavam eufóricos.

E o Martelinho era mesmo do Boavista, certo?
Sim, fiz quatro anos no Feirense e depois fui contratado para os juniores do Boavista. Fiz lá dois anos. Por isso sentia o que era ser Boavista. E foram vários anos lá no topo. Na época anterior tínhamos ficado em segundo e sabíamos. Mas ninguém o esperava. Tanto é que nós nem tínhamos discutido o prémio de campeão. Tivemos um prémio banal porque nunca ligámos muito a isso, achávamos que era quase impossível.

Quanto receberam então?
Era um prémio jogo a jogo, consoante o número de vitórias, já não me recordo bem. Sei que o valor era mediante o tempo de jogo de cada atleta, não era igual para todos. Era um valor atribuído por ponto, era mesmo assim. Um prémio nosso, em relação aos grandes, era uma migalha [ri-se, quase como um desabafo]. Seja o que for, ficou para a história.

O Martelinho podia ter ficado rico.
Claro. A gente, depois, claro que conseguiu negociar esse prémio. Mas, no ano seguinte, ficámos outra vez em segundo lugar. Foram várias épocas de trabalho, deu gosto. A maior parte dos jogadores era formada no clube, havia mística boavisteira, com gente que conseguia transmitir amor e dedicação ao Boavista, que conseguia contagiar quem chegava. Nunca me vou esquecer do golo ao Sporting.

Levantar a cabeça, olhar para a baliza e ver o Schmeichel. Não era uma imagem que intimidava?
Nesse jogo, por acaso, ele estava-me a conseguir ganhar os duelos. Tive duas ou três ocasiões. Houve um lance em que quase finalizei, em que levei um empurrão pelas costas, não sei se também forcei o penálti [risos], mas, seja como for, tive sempre muito perto de fazer o golo durante o jogo. Ele era um monstro na baliza, muito alto, largo, era um guarda-redes imponente.

Duas épocas depois, marca outro golo ao Sporting.
É verdade. Em casa, lembro-me de ter marcado uns três ou quatro golos ao Sporting.

Foram três: em 1997, em 2001 e em 2002.
Não sei porquê, quando jogava com os grandes, no caminho do hotel para o estádio, em jeito de brincadeira, até dizia “lá vou eu ter de fazer mais um golo” [ri-se outra vez]. Não sei porquê, mas tinha um 'feeling'. Consegui fazer vários golos ao Sporting e ao FC Porto, contra o Benfica só marquei um, mas valeu uma vitória. O Sporting foi a equipa contra a qual marquei mais. Não tenho nada contra o Sporting, isto é futebol, são coincidências, e foram sempre golos importantes, que deram continuidade à minha carreira.

Na última vez que marca até é num jogo em que um tal Cristiano Ronaldo também faz um golo.
Exatamente, fiz o 1-1 e ele, a acabar, fez o 2-1. O guarda-redes era o Nélson, eu apareci isolado e coloquei a bola no canto, fiz o empate. Depois, esse jovem, que na altura era quase desconhecido, mas muito talentoso, conseguiu fazer o golo. Foi pena, o jogo já estava quase a acabar. Até me recordo que o lateral direito do Boavista era o Bosingwa. Tìnhamos uma equipa interessante.

BOAVISTÃO. Martelinho saiu do Boavista em 2005/06, para ir para os espanhóis do Portonovo

BOAVISTÃO. Martelinho saiu do Boavista em 2005/06, para ir para os espanhóis do Portonovo

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O treinador ainda era o Jaime Pacheco. Vocês davam-se bem?
Sou suspeito, mas acho que posso falar bem sobre ele. Passaram a imagem de ele ser muito severo, de ser uma pessoa muito agressiva, mas não. Ele era uma pessoa muito amiga dos jogadores, muito dedicado. Nos treinos era muito exigente, mas, ao mesmo tempo, era o primeiro a preocupar-se connosco, em saber como estávamos. Até sentia que eu era um bocadinho como o homem de confiança dele.

Como assim?
Quando ele queria saber o estado da equipa e dos atletas, perguntava-me sempre a mim. Como eu estava ou se eu estava cansado. Porque sabia que eu não tinha preconceitos. Há jogadores que têm medo de admitir que estão cansados, para não saírem da equipa. Eu não. Ele confiava em mim, eu nele, e ele tinha-me para perceber como estava o estado de espírito dos jogadores. Era um treinador dedicado e ambicioso. A par do Manuel José, que lançou as bases da minha carreira, e do grande Boavista, foi o treinador mais importante que tive. O Jaime Pacheco soube pegar num grupo de jogadores humildes e torná-los numa grande equipa. Nunca temíamos ninguém.

Ninguém mesmo?
Olhe, da primeira vez que, na Liga dos Campeões, jogámos fora de casa, foi no Borussia Dortmund. Lembro-me que estávamos no balneário e o Jaime Pacheco disse-nos: “Aproveitem este momento, porque não é todos os dias que aqui estamos”. E isso era verdade. Às vezes, quando estamos na mó de cima, tudo parece fácil. Mas hoje vemos como é muito difícil chegar a uma Liga dos Campeões. Hoje, claro, o Boavista não tem a capacidade do passado. O que mais gostava no Jaime Pacheco era a coragem e a ambição dele quando íamos jogar contra as melhores equipas.

O que fazia ele? Tinha alguns truques?
Fazia-nos acreditar que era possível. E a gente, por vezes, olhava para ele e pensava nos Beckhams, nos Giggs e nas estrelas todas, mas ele, mesmo que não acreditasse tanto, fazia-nos ver que era possível ganhar. Ligava-nos à corrente e todos puxavam para o mesmo lado. O aspeto mental nele era muito bom.

O Jaime Pacheco foi o principal responsável por aquele Boavistão, da muito raça e muita luta?
Exatamente! As pessoas às vezes confundiam a agressividade com uma equipa que dava porrada. Acho que qualquer adepto de um clube gosta de ver um jogador com garra e atitude, é o mínimo que se pode exigir a um profissional de futebol. E ele conseguiu juntar vários jogadores que a tinham. É evidente que tínhamos noção que havia equipas melhores do que nós, mas sabíamos que eram onze contra onze e que eles tinham de correr mais do que nós para ganharem. No fundo, para nos igualarmos, sabíamos que tínhamos de correr muito e de jogar no limite da agressividade. Quando jogavámos contra grandes jogadores, não lhes podíamos estender a passadeira, se não, o insucesso ficava muito próximo.

Contra que equipa sentiu, antes do jogo, que realmente eles eram melhores?
Acho que a única vez em que senti que ia ser muito difícil foi contra o Manchester United. Era uma das melhores equipa da história do Manchester [2001/02]. Na baliza estava o Barthez, depois havia o Laurent Blanc, o Verón, o Giggs, o Paul Scholes, o Beckham, o Andy Cole… Tudo o que era posição. Não havia um jogador de quem pudéssemos dizer que era inferior a nós. E, no campo, eles provaram mesmo que eram bons.

Mas já pode dizer que jogou contra o United.
Claro. Recordo-me de, em Manchester, estar sentado no banco de suplentes, em Old Trafford, era no meio do público, praticamente. Estava ali maravilhado por vê-los jogar, eles eram mesmo bons. Fiquei fascinado com o Verón, o argentino. Um jogador de quem não tinha grande impressão, mas ele tinha uma classe impressionante. E de quem mais gostei foi do Giggs. Joguei contra ele duas vezes, fazia tudo com velocidade e com classe. Num lance ou outro, ele veio para cima de mim e eu, coitado, quase me ajoelhei [ri-se, muito]. A velocidade de execução e a capacidade de um para um que ele tinha… A gente não tem de ter vergonha de reconhecer que os outros são melhores. Ele era mesmo muito bom.

Curioso: há bocado li que o Verón está a treinar para voltar a jogar, aos 41 anos. Isto quando já é presidente do Estudiantes, da Argentina.
Ah, não sabia. Ele era imponente. Tem para aí um metro e noventa, é muito alto. Quando o vemos na televisão não nos apercebemos. Recordo-me que jogava com aquela fita branca no joelho, meias um bocadinho para baixo. Não dava um chuto de maldade. É a tal coisa, por vezes temos uma perceção ao vivo que é diferente que temos ao ver pela televisão. Aquela equipa era fantástica. Joguei contra várias de grande nível, mas, contra o United, não havia hipótese.

Que outras?
A Roma, por exemplo, que foi campeã. Tinham o Batistuta, o Totti, que ainda era jovem, o De Rossi e esses jogadores todos. Eram os campeões italianos, perdemos 1-0 em casa e lá empatámos 1-1. Via-se que eram bons, mas não tão bons como o United. Esses sim, era acima da média, jogavam de olhos fechados e era tudo muito rápido. No final, a brincar, até dissemos: “Devíamos ter dado um bocadinho de porrada, mas nem porrada conseguimos dar”. Eles eram tão rápidos a passar e a desmarcar que a gente nem tinha tempo para lhes dar umas porradas quando fosse preciso [risos]. Mas, a sério, é verdade, a gente nota. Quem é melhor, é melhor, não há nada a fazer.