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Há Pizzi, o que é bom

O Benfica venceu (3-0) o Moreirense e continua tudo na mesma no topo do campeonato. Mas há um tipo que fez dois golos, inventou a assistência que acabou noutro, deu 90 passes e está cada vez mais a puxar os cordelinhos da equipa

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Se escrevesse que Rui Vitória tinha dito que a equipa que tem é um todo e não a soma das partes, que ele e a malta que treina estão num caminho, e que não há jogos fáceis hoje em dia, não vos estaria a contar nada de novo. Muito menos se, com o dedo nervoso, premisse no gatilho da metralhadora das frases feitas e vos disparasse expressões como “forma de estar”, “capacidade afirmativa” ou “variáveis para equacionarmos”. O treinador do Benfica, como sabemos, é um homem que matuta muito sobre tudo o que diz e, como tal, ouvimo-lo sempre a ser ponderado e fiel aos eixos dos quais nunca se desvia. O que se pode tornar enfadonho.

Mas depois de dizer muita coisa e não dizer nada de novo, ele fez algo que é uma novidade: trocou de avançados, simplesmente, porque quis. Mitroglou, o grego que só marcara em uma das últimas seis partidas, sentou-se para Jiménez, o mexicano que é bom companheiro, se porta bem e nunca refilou por ter sido titular em apenas 16 de 55 encontros, ser titular. O que é uma coisa nova.

E ele, quiçá com vontade de passar um bom bocado enquanto aproveitava a oportunidade, fez por divertir-se. Enquanto se desmarcava muito, gastava as pernas nas diagonais que faz para longe da área, a tentar arrastar adversários e abrir espaços para algum colega, tirava cruzamentos de letra e toques de calcanhar. O lado novo nele, este dos truques, em nada resultou porque o guarda-redes Makaridze agarrou a bola e, depois, Gonçalo Guedes imitou-o com o calcanhar em vez de rematar, dentro da área. E o lado velho dele, o do Jiménez que conhecemos por se fartar de correr, também não dava em nada. O que foi sendo um problema.

Os jogadores do Benfica estavam lentos, algo amorfos, a passarem a bola sem a velocidade ou intensidade necessárias para desmontarem um Moreirense que, de início, defendeu atrás da linha do meio campo. A bola que era muito encarnada demorava a ir de um lado ou outro do campo. Como a troca de passes para o lado nada inventava sozinha, tipos como Salvio, Pizzi e Nélson Semedo tentavam tabelar e tocar e fugir, mas iam falhando porque toda a gente parecia ter acordado de manhã e posto na cabeça que este era um dia para não acertar na tomada de decisão. O que não é bom quando se quer criar algo em equipa.

Reparando em tudo isto, e vendo como apenas homens em missão solitária - Salvio, esgueirando-se por entre dois e rematando à entrada da área, e Nélson Semedo, que deu uma pista de atletismo à Luz para cruzar, à direita, e Guedes desviar de cabeça - criavam perigo, o Moreirense soltou-se. Começou a pressionar uns metros à frente e a tentar jogar como se nota que gosta e foi ensinada por um treinador (Pepa) que já não está lá. Quis ter a bola e tocá-la por entre rapazes como Podence, Francisco Geraldes ou Nildo, gente que é boa a tê-la, só que a quer trocar com calma, de forma bonita e sempre pela relva. O que é tramado e acabou por os tramar.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Arriscaram, tiveram mais olhos e ganância do que pés e começaram a perder bolas na própria metade do campo. E como têm piores jogadores, pior conjunto e pior hábito de reagir a erros com a equipa virada para a frente, sofreram o golo que Pizzi marcou, depois de Cervi ser ladrão numa saída de bola, tabelar com Jiménez e passar rasteiro para a entrada da área. O que foi inteligente, porque é o sítio onde Pizzi mais aparece hoje em dia.

O Moreirense conteve-se no arrojo e a voltou a preferir os ataques rápidos à calma com a bola. Isso valeu-lhe para Roberto rematar à entrada da área e ver Ederson desviar a bola para canto, depois de Podence (talvez o mais veloz em campo) dar boleia a um contra-ataque. Deu o exemplo para o Benfica seguir quando saiu do balneário. Os encarnados tornaram-se mais rápidos a passar a bola, os laterais sprintaram mais vezes pelas costas dos extremos, criavam mais dúvidas ao adversário, que se encolhia. O que o deixou enfiado na própria área.

E quando os encarnados marcharam rumo à baliza em mais uma jogada, ninguém da equipa minhota se lembrou de dar uns passos em frente e guardar a entrada da área, para onde Salvio levou a bola até fixar um jogador e a soltar para Pizzi. O português apareceu disparado, vindo de trás, apanhou o passe e rematou (57’) rasteiro. O que, além do 2-0, mostrou como ele dá mais jeito ao Benfica desde que Rui Vitória o teve de puxar para o meio.

Esta é a parte em que podia estar aqui a escrever só sobre Pizzi, que é mais ou menos o que vou fazer. Porque, além dos golos e da llegada que tem - que é a palavra que os espanhóis usam para falarem de alguém que não é um atacante e aparece e marca muito perto da área -, é ele que pede a bola, que a exige e que a passa a quem deve. É ele quem manda no como, no onde e no quando da equipa. É muito por culpa dele que o Benfica se acalma no jogo, controla as coisas com a bola e nunca deixa o Moreirense conseguir o que seja com o risco que tentou adotar. E os encarnados a controlaram tudo até aos últimos dez minutos, quando Rafa entrou em campo e o jogo voltou a ter alguém frenético no meio dele.

O que deu cabo do Moreirense. Foram várias as correrias do internacional português nas costas da defesa e uma delas foi aproveitada por um passe a rasgar do vocês sabem quem. Pizzi mandou a bola descobrir Rafa, que fintou o guarda-redes e conseguiu o difícil de acertar em um dos dois adversários que tentavam tapar a baliza. Mas o ressalto sobrou para Jiménez, o mexicano que passa a vida sentado no banco, mas que marcou (88') pelo quarto jogo seguido em que foi titular - e fechou a vitória que mantém os encarnados a cinco pontos do Sporting e, agora, com mais sete que o FC Porto.

E depois há o facto de terem um tipo que é cada vez mais médio do que falso extremo, joga e faz jogar, acaba o jogo com 90 passes, leva cinco golos e três assistências no campeonato (é o melhor marcador da equipa) e está a agarrar-se aos cordelinhos que puxam pela equipa. O que é bom para o Benfica.

P.S. E para Rui Vitória, que já estou a ouvir aqui ao lado, na televisão, a destoar, dizendo que ele "cada vez conhece melhor o jogo" e está "quase no ponto de maturação", antes de voltar a si próprio e dizer que "toda a gente é importante".

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