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A jogar assim, vai dar jeito ser humilde

Nuno Espírito Santo pedira “humildemente” que os adeptos apoiassem a equipa, que em troca lhes deu o quarto empate seguido (e 360 minutos sem marcar um golo) e apenas três remates na baliza contra um Belenenses que jogou mais de 45 minutos com menos um jogador em campo

Diogo Pombo

ESTELA SILVA

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O nosso velho e sábio amigo dicionário diz que ser humilde é ter “a capacidade para reconhecer os próprios erros”. Também serve, acrescenta, preocupado com as nossas dúvidas, para “defeitos” ou “limitações”. Mas nem era necessário pedir-lhe ajuda porque, nestas coisas, o bom-senso é rei e, enquanto ele não morre, não há algo que o substitua. Nuno Espírito Santo tem-no e teve-o quando, ao fim do quarto empate consecutivo sem golos, pediu “humildemente” que o Estádio do Dragão apoiasse a equipa no próximo jogo.

Que era este, um FC Porto-Belenenses agendado para arrancar às 21h15, a meio de uma semana fria, de inverno, em que ir à bola era igual a chegar ao quentinho de casa só lá para a meia-noite. E Nuno, que não vê coisas diferentes das que vemos e é ciente do que vê, sabia que tinha de carregar na palavra “humildemente” - disse-a duas vezes, na antevisão da partida - quando fosse pedir uma coisa destas aos adeptos.

Porque este futebol, sabem eles, sabemos nós e sabe Nuno, tem sido aborrecido (à exceção do clássico frente ao Benfica).

E esta partida, já devia saber o treinador, arriscava-se a sê-lo, pois ele ia trocar muitos jogadores, dar minutos a quem não os tem tido e ainda por tipos em sítios onde eles não costumam estar. Como Varela a lateral direito, uma das coisas que moeu o juízo a José Peseiro, a época passada, disse-nos ele há dias. Ou Herrera à frente dele, encostado à linha. Estes dois no meio de um onze com Depoitre e Evandro à frente e Inácio, nome do brasileiro de 20 anos que se estreou, à esquerda, emperraram um ritmo que já vinha lento de tudo o que se passou antes nesta temporada.

E continua a ser estranho ver o FC Porto, durante 45 minutos, a ser pachorrento como um cão idoso que já vai à rua contrariado. A ter uma equipa que faz mais passes para o lado do que para a frente, a ver quem joga à defesa a tocar mais na bola do que quem está no meio ou à frente, e a constatar que vivalma consegue, sozinho e se for preciso, desconfortar o adversário quando a equipa, junta, não é capaz de o fazer. Podia ser Brahimi, o dono da bola no recreio e que teima em jogar só para ele próprio, mas o argelino está sem ritmo e faz apenas o segundo jogo a titular.

Tudo junto faz com que o único remate à baliza seja num canto em que a cabeça de Depoitre é contrariada pelas mãos de Ventura, aos 12’. E que a primeira jogada em que, pelo menos, três portistas logram uma jogada com passes de primeira e toca-e-foge surja apenas aos 22’, sem dar em algo útil. O momento mais emocionante acabou por ser o salto mortal que o central Felipe fazia, enquanto o árbitro apitava para lhe anular, por fora-de-jogo, um golo - que surgiu, de novo, porque uma bola parou e, a quase 40 metros da baliza, foi cruzada para a área.

Algo que nos pode dizer uma coisa: a equipa está sem confiança para mais.

ESTELA SILVA

Mas, mesmo antes do intervalo, a sola da chuteira que Benny levantou e os pitons que pregou na perna direita de Rúben Neves deram um sinal para os dragões a irem buscar. O homem que o vermelho direto tirou ao Belenenses deu ao FC Porto mais tempo para ter a bola e mais espaço para, à entrada do meio campo, pensar no que lhe fazer. Houve mais Rúben Neves e André André na bola e na voz de quem narrava a partida, mas continuou a ver-se mais ou menos o mesmo.

Seria claro como a água de uma praia paradisíaca do Pacífico que os dragões teriam muito mais bola, fariam mais passes, se aproximariam mais vezes da área adversária e, em teoria, rematariam mais à baliza de Ventura. E aconteceu tudo.

Mas os números enganam e, na prática, não se traduziram em grande coisa, porque gente como Depoitre, Evandro ou Herrera continuava estática sem bola e ninguém rasgava uma corrida para inventar um movimento que rompesse com a organização encolhida do Belenenses, que apenas conseguia defender-se. O maior espaço apenas foi aproveitado, com perigo, por Brahimi, que se viu mais vezes a bailar só com um adversário - os apoios a João Diogo, lateral direito do Belenenses, já demoravam a chegar - e conseguiu rematar em arco (56’) para Ventura inventar a defesa da noite.

Muito pouco para uma equipa que Nuno Espírito Santo apenas conseguiu melhorar nos últimos quinze minutos. O treinador deixou-se da ideia de Herrera ser um amante da linha e tirou o mexicano para estrear João Carlos Teixeira. O português, intenso, com vontade e a fazer as coisas rápido, deu rapidez às jogadas, mesmo que a genica apenas tenha resultado em muitos cruzamentos tensos, cantos para a área e, vá lá, outro momento emocionante - Rui Pedro, um avançado da equipa B, parou a bola à entrada da área, simulou, passou por dois e rematou a bola contra o poste direito, aos 91'.

No meio deste longo bocejo, o maior (e único) aplauso da noite ouviu-se antes de a bola rolar, quando as palmas encheram um minuto que seria de silêncio, em memória dos falecidos da Chapecoense na tragédia do avião que se despenhou na Colômbia. E Nuno bem precisa de continuar a puxar pela humildade se quiser o apoio de mais de 14.228 pessoas, as que estiveram no Dragão a assistir ao quarto 0-0 seguido esta época (desde 1978/79 que o FC Porto não empatava cinco jogos em série).