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O passado tem destas coisas - às vezes, trama o futuro

Houve uma equipa que, durante muito tempo, teve mais raça, intensidade, garra e querer. Essa equipa não foi o Benfica, que perdeu pela primeira vez no campeonato (2-1) em casa do Marítimo, duas semanas depois de golear os madeirenses para a Taça - e uma semana antes de receber o Sporting, que pode encurtar a desvantagem para dois pontos

Diogo Pombo

GREGÓRIO CUNHA/LUSA

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“Não nos agarramos a coisas que aconteceram no passado para ganhar jogos no futuro”.

Esta frase fez-me lembrar - e vocês devem-se lembrar tão bem como eu - uma trilogia, já com alguma idade, dessas de culto, que teve a ideia de juntar um cientista maluco a um puto da escola secundária. A história cola-os quando o primeiro, bata branca vestida, olhos por regra esbugalhados e uma careca ladeada por longos cabelos brancos de resiliência, mostra ao segundo, um adolescente meio cool, revoltado com os pais e a existência que tem, um carro que é capaz de viajar pelo tempo. Fizeram-se três filmes, em que eles recuam e avançam pelas décadas para remediarem o que o juízo deles acha estar errado.

Porque toda a ação tem uma consequência. Que é como quem diz, o passado molda o presente, o presente influencia o futuro e tudo o que toda a gente faz está, de alguma forma, ligado. Há quem lhe chame karma, também.

E claro que um jogo de futebol em que uma equipa ganha à outra por 6-0 teria sempre influência num outro jogo, entre os mesmos jogadores, duas semanas mais tarde. Dizer que não, que os efeitos de uma partida morrem assim que o árbitro apita três vezes seguidas, é ignorá-lo. Não fossem os seis golos sofridos, o odor a humilhação e o pouco futebol demonstrado, e quem joga pelo Marítimo não tinha entrado assim nesta partida - com raça, a fazer muitas faltas, a cair em cima do adversário mais cedo do que tarde, a entrar duro. Eles pareciam querer mais.

Quando a esgorregadela de Luisão nos recordou que a idade pesa quando o azar se junta à falta de graciosidade e, na área, deixou Ghazaryan com a bola a jeito do remate que fez o 1-0, isso nem se notava assim tanto. Foi aos cinco minutos. Daí para a frente, os madeirenses ganharam ressaltos, bolas divididas, segundas bolas e cortava tudo longe da área. Eram mais agressivos e velozes que toda a gente do Benfica, até do que Fejsa, o bloco de gelo que nunca perde bolas e viu Éber Bessa roubar-lhe uma (20’), para correr 20 metros com ela e ver Ederson parar-lhe o remate. E até a recarga de Ghazaryan, bem junto ao poste esquerdo. Pouco depois, uma bola cabeceada por Raúl Silva, num canto, rasa o outro poste.

Por isso, sim, um jogo que aconteceu no passado arranjou pegada no futuro, que era o presente enquanto escrevia isto - o Marítimo estava a engolir o Benfica com mais intensidade, garra e velocidade.

Até que Nélson Semedo, à direita, recebeu uma bola, foi para dentro, rematou e aconteceu algo que faz as pessoas dizerem que “o futebol tem destas coisas” quando nada têm para dizer. O remate do lateral encarnado bateu no calcanhar de Gonçalo Guedes a meio caminho e desviou a bola para o lado oposto da baliza. O golo (28’) deu oxigénio ao Benfica, que até então tentava contrariar a pressão do Marítimo apenas com homens (Cervi, André Almeida e Guedes) a tentarem rasgar a recuada defesa madeirense com movimentos de rutura, nas costas.

Não chegava, portanto, Pizzi começou mexer-se mais sem a bola, a mantê-la na relva quando a tinha e a encontrar alguém na frente. Mitroglou, recebendo e virando-se, ainda disparou um míssil que rasou a baliza. Salvio, com tempo na área até para apertar os atacadores da chuteira, após Fábio China falhar na bola, não acertou com um remate na baliza. Mesmo não sendo melhor, o Benfica chegou ao intervalo a respirar mais entre a dureza dos madeirenses (16 faltas) e a pressa que eles tinham em explorar as costas de Luisão, que os fez acertar menos passes (26) do que os pés de Pizzi (47).

GREGÓRIO CUNHA/LUSA

E voltamos à história do passado ter uma consequência.

As corridas para pressionar à frente, os vaivéns feitos a sprintar, os dois extremos (Xavier e Ghazaryan) a fazerem de avançados para se desmarcarem e pedirem sempre a bola no espaço, a urgência em cair em cima de qualquer jogador encarnado, tudo teria um efeito. O Marítimo deixou de ter pulmão e pernas para ir a todas. Recuou bastantes metros e foi juntando os jogadores em torno da área enquanto o Benfica o obrigava a fazê-lo. Mal a segunda parte começou, já Salvio estava a cabecear uma bola à barra, cruzada por André Almeida.

Não é mentira dizer que o resto do tempo retribuiu aos madeirenses o lado mau do esforço que fizeram durante a primeira parte: encolheram-se e foram atropelados, nas alas, pelos encarnados.

As situações de dois para um e de três contra um (Guedes foi sempre espreitar perto das linhas) sucederam-se, porque arranjar espaço ao centro era difícil devido à sobrelotação do metro quadrado de relva. Cervi, na esquerda, ultrapassava quase todos os adversários que lhe tentavam roubar a bola e ia picando bolas para a área. Em duas delas, a cabeça de Rafa viu Gottardi a esticar-se para a parada da noite (65’) e o pé direito do mesmo barbudo, na pequena área, não acertou com o remate (72’) na baliza. Numa terceira, Jiménez saltou alto para chegar com a testa à bola que fez passar (81’) pouco ao lado do poste direito.

No meio de tanto tempo passado na metade do campo madeirense e de tanto sufoco com a bola - foram 609 passes contra os 134 -, o Marítimo chegou-se à baliza de Ederson durante dois minutos. O que chegou para o guarda-redes brasileiro sair-se mal a um cruzamento e ao canto que se seguiu. A bola à qual ele não chegou caiu na cabeça do central Maurício Antônio. Falha e consequência, aos 69’. Antes, houve as oportunidades de Rafa e, depois de Jiménez, apenas houve um remate de Pizzi, aos 95’, entre o jogo que os madeirenses foram fazendo com o relógio e o juízo dos encarnados.

Ganhou a equipa que deu tudo enquanto pôde dar, que foi até ao intervalo, e que foi pior em tudo o que é numérico (passes, remates, dribles, toques na bola) e melhor em muita coisa que é mental (garra, intensidade, raça, concentração). O Benfica, embora tarde, criou jogadas em que podia ter marcado, mas a eficácia, fora bolas nos postes, não é sorte ou azar: é algo que se treina.

E Rui Vitória - que disse a tal frase do início -, se pudesse entrar no carro do "Regresso ao Futuro" - o tal filme que vos falei -, talvez voltasse atrás e tentasse emagrecer a vitória de há duas semanas. Porque “feriu o orgulho”, como disse Maurício no final, da equipa que, desta vez, foi melhor em muitas das coisas que o futebol exige à mente de quem o joga. Agora, a cabeça dos jogadores ficará no facto de terem perdido um jogo a uma semana do dérbi contra o Sporting, que pode ficar a dois pontos caso vença o Vitória de Setúbal no sábado.