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É mais assim que se vê a coisa – quem não sofre marca logo a seguir

Os dois golos que o Benfica marcou surgiram na jogada seguinte ao Sporting quase marcar. Uma equipa falhou, a outra aproveitou, e quem era líder saiu do dérbi com mais cinco pontos de quem era segundo e, agora, é terceiro. Salvio e Raúl Jiménez foram eficazes (2-1) antes de Bas Dost, por fim, também o ser

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Devem-se lembrar, tão bem como eu, da sala de aula da primária em que estávamos, mais ou menos, há um ano.

Era das que se enchem de barulho de pirralhos a berrarem e a verem quem fala mais alto. Ouvíamos um miúdo cheio dele próprio, com língua afiada, a provocar e a aliciar discussões para entrar na cabeça dos outros, e de um especial. Enviou sms a meio da aula aos amigos dele, falou em pô-lo do tamanhinho que está entre o polegar e o indicador e disse que as ideias do grupo da turma em que o outro mandava ainda eram suas, porque ele já tinha ordenado neles.

E o outro, um bom rapaz que não gosta de chatices nem de se chatear com alguém, respirou fundo, calado, e deixou outros responderem por ele, até ao dia em que deixou de querer ser um comido de cebolada e bateu com um punho na mesa.

A berraria e gritaria e o quem diz é quem é foram desviando as atenções do que estava no quadro, que é onde se aprende. E Rui e Jorge, os rapazes que mandavam na sala de aula, contiveram-se nas picardias e tentarem focar-se no campo e no futebol que há lá dentro. Mas ainda hoje se tentam enganar, um a convocar o craque que não joga há tanto tempo quanto o que leva com a barba por fazer, o outro a dizer que não sabe se dois dos melhores que tem vão jogar, por estarem engripados.

É tão bluff que nem o puto ingénuo, que tem as piores notas e tenta copiar sempre nos testes, acredita.

Mas até ele, o adepto que está sempre a apanhar do ar e não liga muito a futebol, percebe como o dérbi - que é o ponto de reencontro para Vitória e Jesus - mantém as equipas abraçadas durante muito tempo. Há muitas faltas, ressaltos, bolas passadas à pressa e entradas à queima que nada de novo ensinam neste tipo de jogos. As equipas em que os dois mandam chocam muito ao centro, ambas falham quatro em cada dez passes que tentam e há quatro médios centro (William, Adrien, Fejsa e Pizzi) que se encaixam e anulam. Ganham bolas apenas para as perderam logo a seguir.

Os defesas que os veem a lutar e a tentar manter a bola na relva, sem sucesso, aproximam-se. Temem que a chance leve algum passe a cair-lhes nas costas e, ao invés de recuarem e se precaverem, avançam. Reagem às jogadas com passos em frente e não com retrocessos. As faltas e passes falhados e jogadas de dois passes prosseguem e os jogadores fazem tudo rápido para tentar surpreender quem joga contra eles. Um passe de Adrien deixa Gelson a dar voltas a André Almeida e a rematar contra Ederson. Uma bola de Guedes não é aproveitada logo por Rafa, que a pontapeia já tarde para as mãos de Rui Patrício.

O jogo continua emaranhado a meio do campo e quem deve esticar-se para as alas faz o contrário. Os extremos estão ao centro, a lutar, mas vão percebendo que têm de esperar por bolas no espaço que há atrás dos defesas. É por aí. É assim que a equipa em quem Jorge manda sai a jogar de trás e, com três passes, foge da pressão e deixa Bruno César a cruzar uma bola rasteira que Bas Dost, na área, apenas acerta de raspão. É rápido, frenético, mas não eficaz.

O resto da aula presta atenção e, por isso, aprende.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Portanto, logo na jogada seguinte - que é a seguir a um canto em que a bola bate no braço de Pizzi -, quem recebe ordens de Rui faz o mesmo, mas com eficácia. Gonçalo Guedes recebe a bola e corre e sprinta e leva a bola até fazer o que qualquer futebolista aprende em pequeno - apenas solta a bola quando fixa um advesário. E, como o Sporting defende mal e mete três jogadores a irem ao mesmo, há espaço para o passe entrar em Rafa, tanto que o urge a ser rápido a aproveitá-lo. Ele encosta a trivela à bola e o (grande) passe vai para o segundo poste, onde Salvio se esgueira a Zeegelaar. Um a zero.

O golo é a meio da primeira parte e até ao toque para o recreio de quinze minutos só uma bola que ressalta na cabeça de Ruiz e vai ter com Jiménez, na área, assusta um dos guarda-redes. Mas, com uma lição aprendida, o Benfica vai chegando mais vezes perto de área alheia porque na frente tem quatro homens (Rafa, Salvio, Guedes e Jiménez) que prosperam a sprintar, quando o Sporting tem apenas um (Gelson). O que testa o jogo de cintura e a rapidez com que os defesas se conseguem virar e reagir.

Jorge, como não é burro nenhum e presta atenção ao que se passa, tira um lento (Bruno César) e põe um rápido (Joel Campbell) para equilibrar um jogo de tentas-tu-agora-tento-eu que, acha ele, vai continuar assim. Só que, mal o dérbi recomeça, Gelson prende a marcação de André Almeida, o costa-riquenho foge para esse lado e cruza para trás a bola que Coates lhe pica. Dost, embalado, remata com fúria e sem calma contra o poste direito. E, de novo, logo na jogada seguinte, os leões são lentos a reagir e não conseguem afastar a bola que Nélson Semedo leva para a área e cruza para a cabeça de Raúl Jiménez. Dois a zero.

A segunda parte acaba de começar e o Benfica, com a aprendizagem feita, recua. A linha de quatro defesas cola-se à área, arrasta Fejsa e Pizzi e toda a gente espera na mesma metade do campo. Rui manda a equipa ter calma e cabeça e retira o espaço para que possam entrar passes entre os defesas e a baliza. Os encarnados adaptam-se ao que pretendem e obrigam o Sporting a adaptar a forma como ataca.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Os leões avançam, dão mais a bola a William e Adrien que, com os adversários mais longe, tentam passá-la mais rápido. O suficiente para Gelson ou Campbell terem o tempo que precisam para ninguém chegar a tempo de ajudar André Almeida ou Nélson Semedo. É raro terem-no, por isso cruzam muito para a área e a equipa ganha cantos. Um deles vai à cabeça de Coates antes de ir ao pé de William, que remata contra Ederson. Outro cruzamento de Campbell prevê que Dost se antecipa a Lindelöf, mas o holandês atira a bola contra o guarda-redes. O avançado só marca à quarta tentativa e à primeira vez que lhe cruzam para a cabeça. Dois a um.

Faltam vinte minutos para o toque e a sala de aula está num alvoroço. A metade que obedece a Rui encolhe-se e entra ali um aluno, chamado Cervi, para correr e ajudar a anular Gelson, de um lado. Para o outro vai Pizzi, que fecha a porta a Campbell. O Benfica mantém-se organizado sem a bola e a deixar poucos metros entre os jogadores, deixando o Sporting com a alternativa de bombear passes para a área e atirar-se às segundas bolas para, depois, tentar apanhar alguém desprevenido. Nada de perigoso conseguem até ao fim, mas veem Rafa, num raide em que não marca por querer levar a bola para casa, a quase matar o dérbi.

Quando ele, de facto, morre, o Benfica ganha porque viu o jogo, percebeu para o que ele estava virado e aprendeu a aproveitá-lo. Com a eficácia de quem acerta quatro remates na baliza e marca golo em dois deles. E o Sporting perde porque falhou no que os especialistas conhecem como transição ataque-defesa - não soube matar dois contra-ataques com uma falta, por exemplo - e foi ineficaz num avançado que, em jogo grande, não pode aproveitar apenas uma das quatro bolas que recebe de frente para a baliza.

Vendo tudo isto, saímos da sala de aula com algumas lições aprendidas. O Benfica continua líder e tem agora cinco pontos a mais que o Sporting, que volta a ficar em terceiro e a ver o FC Porto à frente. Ninguém é campeão ou deixa de ser com o dérbi que, no quadro, nos faz deixar escrita uma versão diferente de uma das frases feitas do futebol:

Quem não sofre, marca logo a seguir.