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O longo bocejo ainda demorou a terminar

O Benfica jogou devagar, devagarinho durante 45 minutos, se acelerar o que fosse perante um Real de Massamá que ameaçava no contra-ataque. Mas a entrada e rapidez de Gonçalo Guedes contagiou a equipa, que marcou três golos (dois de Mitroglou, um de Jiménez) na segunda parte e, já sem bocejar, seguiu para os quartos-de-final da Taça de Portugal

Diogo Pombo

TIAGO PETINGA/LUSA

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A rotina é sempre a mesma. Como não estamos no Estádio do Restelo, começamos, mais ou menos a uma hora do jogo, a espreitar o Twitter oficial do Benfica, para vermos a quantas a equipa vai andar. Às tantas, de lá saem disparados onze nomes e o conjunto surpreende. Não por irem jogar os que não costumam, porque sabemos que o adversário é o Real de Massamá e não outro Real de outra localidade começada por “M”. Mas por estarem três médios e três atacantes juntos numa mesma equipa escolhida por Rui Vitória. Porque já sabemos como ele é.

Um treinador cauteloso, prudente, precavido e todos os outros adjetivos que se podem vestir em alguém que é alérgico a grandes invenções. É tão estranho ver Celis, Danilo e Samaris atrás de Carrillo, Zivkovic e Mitroglou que, segundos depois, a conta encarnada apaga o que publicou. Até que lá surgem os onze nomes que vão começar o jogo, alinhados no tino do 4-4-2 do qual Rui Vitória não mexe desde que a equipa atinou com ele. Sem risco, sem fazer experiências, sem inventar.

Porque já sabemos como ele é e até o próprio o diz: “Não há outra forma de estar”.

As peças do xadrez encarnados ordenam-se da mesma maneira de sempre, só que a maioria das peças estão escondidas numa gaveta lá de casa, resguardadas do pó, no caso de serem precisas. Quem joga tem poucos minutos de jogo esta temporada e não há maneira de isso não se notar. A equipa move-se como alguém que está indeciso entre ser uma lesma e um caracol. Como Samaris, que erra muitos dos raros passes que faz para a frente, ou Carrillo, um extremo que tinha reputação de ser rápido e falha receções, remates e cruzamentos como se fosse ele quem joga na terceira divisão nacional.

Esses são os jogadores do Real, que sem bola batem sempre em retirada para trás da linha do meio campo. Juntam-se e entreajudam-se para fechar linhas e impedir que Cervi ou Zivkovic, os melhores (ou menos maus) do Benfica até ao intervalo, fiquem em momentos de um-para-um que ninguém gosta de ter com eles. O argentino farta-se de receber, tocar e ir buscar a bola mais à frente, para a cruzar para a área. O sérvio, enquanto tenta fazer o mesmo, também vai tentando facilitar tabelas e acelerar as trocas de bola que quase sempre são lentas. É dele o remate que, à entrada da área, dá o efeito de banana à bola que rasa a barra da baliza, após intercetar um passe.

Isto acontece quase sempre que o Real usa as bolas que recupera tentando tirá-las do sítio onde há mais gente e rodá-las para o outro lado do campo. Perdem-nas por terem pés com menos técnica e cabeças com menos intensidade que o Benfica. Por isso é que raramente o tentam e preferem, com três ou quatro passes, chegar a uma das três motas que têm à espera, na frente. Como Guti, que acaba um contra-ataque a dobrar o corpo de Lisandro, alinhar uma finta da esquerda para o centro e a rematar uma bola que rasa o poste direito da baliza de Ederson.

Mas a partida é lenta, aborrecida e apenas a equipa que lidera a Série G do Campeonato Nacional de Seniores a tenta acelerar. O que é mau para os pachorrentos que estão em primeiro da primeira liga e causam um grande e longo bocejo a quem assiste à partida.

TIAGO PETINGA/LUSA

Incluindo, talvez, Rui Vitória, que faz um favor a toda a gente e, para resolver a falta de intensidade da equipa na sua relação com a bola, lembra-se de Gonçalo Guedes.

Esquecendo Carrillo, que é substituído, a equipa junta um tipo rápido e intenso aos dois que já tinha em campo. Este terceiro, mesmo fiel ao vício de manter a cabeça baixa e de só olhar para a relva quando tem a bola, acelera na primeira jogada em que se envolve e ganha o canto que Zivkovic entrega à cabeça de Mitroglou. O grego salta sem companhia perto do primeiro poste e, por fim, termina com o bocejo (47'). No minuto seguinte, o despertador toca de vez com a tabela que Guedes faz com Cervi, que o deixa sozinho na área para rematar a bola por cima da barra.

Aos poucos, os encarnados foram acelerando e trocando a bola com um ritmo mais próximo ao que costumam ter. E o Real, habituado a outro, ia caindo de intensidade e separando os jogadores entre eles, à medida que perdiam pernas e pulmões para acompanhar. Guedes e Cervi voltam a tabelar na área e o português teima em não acertar na baliza. Como o argentino, que rebenta uma bomba por cima da barra após escavar um túnel por entre as pernas de um adversário. Pouco depois, Guedes recebe uma bola atirando-a para a frente, persegue-a e, na área, é ceifado e o penálti (81') é para Mitroglou se tornar o melhor marcador (oito golos) do Benfica.

O Real que aguentou 45 minutos passou outros tantos a sofrer com a intensidade que os atacou - ainda mais com Pizzi em campo. Os de Massamá ainda tiveram um livre que Jorge Bernardo bateu sem força, à entrada da área, para Ederson agarrar na bola e fazer figas para que alguém lhe tenha tirado uma fotografia. E um remate que Palacios, na área, atirou para a linha lateral. De resto, foram sendo apanhados em constantes foras-de-jogo, porque a defesa do Benfica percebeu o cansaço alheio, avançou uns metros e mostrou a confiança que alastrou a todos os encarnados. Como Jiménez, que entrou para sentar um defesa e fechar (87') a vitória no 3-0.

E assim se fechou a boca ao bocejo que durou 45 minutos a mais e foi cerrado muito com a ajuda de Gonçalo Guedes, o portador do alerta que acordou os encarnados para a urgência de resolver a partida que os coloca nos quartos-de-final da Taça de Portugal.