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Uma amostra de ácido desoxirribonucleico

Nuno Espírito Santo insistiu que o ADN (sim, é a abreviatura da palavrão que está em cima) de vitórias é uma coisa que se vai construindo. Neste caso, custou, porque a segunda parte do FC Porto foi tão boa como a primeira do Chaves, que esteve a vencer até aos 70 minutos, quando Depoitre começou a terceira reviravolta dos dragões e a quinta vitória consecutiva (2-1) da época

Diogo Pombo

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ESTELA SILVA

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Há uma coisa que um tipo chamado Abel Fernando Moreira Ferreira nos ensinou no domingo à noite, com a eloquência, sinceridade e frontalidade que lhe passámos a reconhecer, assim que ele tornou evidente essa coisa - treinava, há três dias, uma equipa que tinha acabado de ganhar à equipa treinada pelo tipo que, sobre ele, dissera ser impossível “mudar as ideias” de uma equipa em três dias. Ele mostrou-nos que, à falta de tempo para treinar táticas, esquemas, processos e hábitos, o melhor é aproveitar o tempo para falar aos jogadores e tentar por mentes diferentes a pensarem igual.

Em três dias, portanto, mudou para melhor.

O Chaves era outro caso, porque é de lá a equipa que, chegada esta época à primeira divisão, joga de peito feito contra toda a gente, não se encolhe e contraria a ideia de quem é pequeno se tem de encolher perante quem é grande. E estas histórias ligam-se, pois a razão de Abel não ter durado mais do que três dias no Braga é mesma que, há dois dias, tirou o treinador ao Chaves (Jorge Simão vai treinar os bracarenses). Mas, no fundo, tanto eu sabia, vocês sabiam, e o Nuno Espírito Santos também, que não havia motivos para esta equipa aparecer mudada no Dragão.

É por isso que, desde o primeiro minuto, os transmontanos são como costumam ser: intensos, a pressionarem sem a bola, e irem para cada duelo como se amanhã o futebol deixasse de existir e respeitarem a fórmula de serem simples, rápidos e diretos a contra-atacar. É assim que, um mês antes, empatam os dragões até aos penáltis em que os eliminam da Taça de Portugal. E é assim que é melhor que o FC Porto até ao intervalo.

Os dragões têm mais tempo com a bola e trocam mais passes, mas são lentos a atacar a área contrária com ela e tão previsíveis quanto mais tempo a têm no pé. O Chaves, mesmo que apenas pressione a partir do meio campo, é tão organizado e agressivo a fechar espaços que obriga o FC Porto a procurar por fora o que não o deixam fazer por dentro. Brahimi e Corona ficam perto das linhas, como Alex Telles e Maxi, para tentarem esticar o adversário. Só que, com tanta lentidão, também afastam quem joga na própria equipa e quando os de Chaves recuperam bolas, o FC Porto é mau no que tem vindo a ser bom - na reação às bolas que perde.

Eles estão demasiado longe uns dos outros e todos veem como Battaglia, Fábio Martins ou Rafael Lopes montam contra-ataques que, com poucos passes, chegam quase sempre à área de Casillas. E quando a tantos cavalos de corrida se juntam dois azares - uma escorregadela de Marcano e um ressalto de bola no corpo de Danilo -, a corrida do avançado do Chaves faz com que Iker Casillas não tenha hipótese em evitar um golo (13’). Mas é o guarda-redes espanhol que, com duas paradas (uma delas para acabar no YouTube), evita que outros tantos contra-ataques do adversário acabem em mais golos.

E os dragões, fora os primeiros 10 minutos, em que Brahimi tem espaço e desculpa para tentar inventar coisas sozinho, não ameaçam a baliza contrária.

MIGUEL RIOPA

Era altura para Nuno, a falar no balneário, mudar a forma como a equipa se estava a portar e a tentar contrariar quem encarava o jogo com mais rotação. Houve sinais de que essa conversa aconteceu, porque os dragões passaram a trocar a bola mais rápido, os extremos a pedirem bola dentro e deixaram espaço para os laterais, e Felipe e Marcano a serem apoios dentro da metade do campo dos transmontanos. O FC Porto mudou.

O Chaves, mesmo que obrigado a mudar pela forma como passou a ser atacado, também quis mudar a maneira como defende. Recuou os jogadores no campo, encolheu-se um pouco e começou a proteger-se mais perto da área do que longe dela. Deixou mais espaço para os extremos e os laterais cruzarem. O vaivém de bolas na área era fenómeno frequente e, em dois minutos, André Silva marca, mas não conta - o árbitro apitou um fora-de-jogo - e Corona fecha um contra-ataque com um remate às mãos do guarda-redes.

Os dragões já circulam a bola rápido, evitam mais vezes a agressividade dos jogadores do Chaves que, a terem de correr mais na defesa, têm menos pujança para as alturas em que podem atacar. Além da tabela que Perdigão faz antes de rematar para Casillas levantar voo (60’), os transmontanos protegem-se sem retaliarem. E o FC Porto continua aproveitar o espaço que já tem por fora e começa a ter por dentro, para ir cruzando e ganhando as segundas bolas e vendo André Silva a falhar na cara de António Filipe.

Com tantas jogadas a acabarem na área, Nuno segue a lógica e lá coloca um avançado grande, musculado e com pouco ar de futebolista. Depoitre, o patão feio, entra e, pouco depois, empata com uma bruta cabeçada na bola cruzada por Alex Telles. Faltam vinte minutos de jogo, mas o FC Porto só precisa de sete até uma bola que o Chaves tira da área ser ajeitada por Óliver, para Danilo. O médio, a 30 metros da baliza, também é bruto a dispará-la para fazer um golaço entrar na baliza.

O FC Porto continuou a atacar, a pressionar e a querer mais até ao fim, embora, às tantas, também já quisesse dar menos para não se pôr a jeito de um Chaves que ainda tentou reagir. A reviravolta fechou-se enquanto os bancos só tinham gente de pé, os assobios e manifestações das bancadas eram muitos, as faltas ainda mais e os nervos maiores. Quando a quinta vitória seguida da época (melhor série dos dragões) se confirmou, até João Patrão tinha sido expulso por acertar em Danilo o pontapé que apontou para a bola.

Os dragões, portanto, tiveram um jogo intenso, algo confuso, foram muito melhores depois de serem piores, e tiveram cintura para arranjarem forma de resolver um problema, mudando. O que lhes vale o facto de voltarem a estar a um ponto do Benfica (têm um jogo a mais) e a apertarem com quem perseguem. Embora com tique nervosos pelo meio, isto já começa a parecer o ácido desoxirribonucleico de alguém que ganha jogos, quer ganhar mais e continuar a ganhar por muito tempo.

Ou, abreviando, o “ADN de ter o desejo de ganhar”, como diz Nuno.