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A explicação, a boa e a má, está nos números

Só uma das 35 bolas que o Sporting cruzou para a área do Belenenses deu resultado. Foi a última e, ao mesmo tempo, a primeira que chegou a Bas Dost, aos 93'. Os leões só confirmaram a vitória (1-0) tarde e depois de perderem o controlo de um jogo que dominaram, em tudo, até ao intervalo

Diogo Pombo

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MANUEL DE ALMEIDA

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São quase oitenta e dois por cento da companhia da bola, mais de cento e vinte passes bem feitos com ela e meia dezena de bolas apontadas à baliza.

Ainda podia debitar aqui mais uns quantos dados, por extenso, mas creio que a ideia do que uma equipa faz nos primeiros 15 minutos de jogo passa melhor se não me puser a mexer no numerário dos números - 82% de posse de bola, 123 passes, 5 remates, quase 200 toques na bola. A estatística não é tudo, embora, se tiver tanta queda para o mesmo lado, é como o algodão e, vendo como tudo isto se acumula, não estou a enganar quem seja por escrever que o jogo parece ser do Sporting.

É mesmo. A equipa que perde seis pontos em duas partidas e chega ao Restelo a onze do líder joga como quem está farta; farta de ver os rivais cada vez mais ao longe e de passar jogos a ser ameaçada, várias vezes, pelo espaço que deixa e as bolas que dá aos adversários. E que tem um treinador farto de jogos e pontos perdidos e faz mudanças para a equipa ganhar coisas. Troca um guarda-redes e um central por causa de lesões e de laterais, deduzo eu, por quer ter mais velocidade com bola, mais chegada à àrea e mais pulmão a recuperar a posição quando a equipa entra em modo órfão. E troca o tipo que está atrás do homem que tem de marcar golos e para quem a equipa joga.

Esse tipo, que é Alan Ruiz, explica um pouco do como é que os leões são melhores que o Belenenses e quase subjugam o adversário ao jogo que querem jogar. O argentino, mesmo lento a mexer, a decidir e a executar, é-o nos sítios certos. Ele não se aproxima das alas, nem troca de posição com os extremos, fica no espaço tramado para quem defende - entre os centrais e os médios - e recebe várias vezes a bola. Fica com metros de relva só para ele, porque o Sporting tem quatro homens colados às linhas e obriga quem defende a olhar para o que tem ao lado ao mesmo tempo que se preocupa com o que tem de lidar ao centro.

Ele recebe muito a bola e, por ser lento e pouco móvel, não dá passes e falha os poucos que tenta dar. Por isso remata. E dois dos três remates que lhe saem do pé esquerdo são perigosos e são o melhor que o Sporting faz até ao intervalo. Porque, mesmo sendo ditador da bola, dos cantos (nove), dos passes e das jogadas de ataque, também abusa de uma forma de tentar chegar à baliza, que são os cruzamentos. Os leões fazem 20 em 45 minutos e estes números, juntos a outro, que é o facto de Bryan Ruiz ser quem mais vezes cruza a bola (seis) evidenciam dois problemas:

A equipa tenta chegar a Bas Dost (e à área) sempre da mesma maneira e o homem que mais o procura era quem, na época passada, mais estimulava e fazia acontecer o que a equipa tem tido pouco, esta temporada - o jogo interior. Os passes, as tabelas e o toca-e-vai por dentro.

A falta de plano B neste jogo não resulta em uma bola que deixe Bas Dost, ou alguém, à frente da baliza. E isso quase lhe sai caro no momento em que um canto curto sai demasiado curto para Adrien e Sturgeon fica a conduzir um contra-ataque com três no seu carro e apenas com Esgaio a fazer de peão, à frente. A mistura entre a contenção do lateral do Sporting, a falta de agressividade dos jogadores do Belenenses no ataque ao espaço e a demora a soltar a bola fazem com que tudo acabe nas mãos de Beto.

MANUEL DE ALMEIDA

Mesmo tendo a bola e os passes e o controlo que isso dá, o Sporting é lento e tenta quase sempre fazer o mesmo. O número redondo de não haver golos faz com que os leões, por isso, queiram fazer as coisas mais rápido na segunda parte. Jorge Jesus tira um dos Ruiz que não acelera (Bryan) e dá à equipa e ao jogo a velocidade de Joel Campbell. O treinador dá o sinal aos jogadores de querer acelerar as coisas e eles passam a jogar de uma forma que não controlam.

Colocar homens a passarem a bola e a montarem jogadas com velocidade obriga-os a mexerem-se rápido, a comerem mais metros em menos tempo, a darem vertigem às desmarcações em vez de calma às trocas de passes. Mas isto afasta-os uns dos outros e cansa-os, e quem está cansado não reage tão rápido e perde discernimento, e quem pensa pior vai errar mais vezes. Joel Campbell dá esticões no jogo e arranja espaço para cruzar muitas bolas, mas Bas Dost continua sem receber uma, nem a que Gonçalo Silva lhe rouba quando está quase a isolar-se na área.

E se todo este esforço não lhes facilita a vida quando têm a bola, piora-a quando ficam sem ela.

O espaço que o Sporting deixa ao atacar dá o tempo que o Belenenses passa a ter para sair rápido em contra-ataques. Com um passe tira três ou quatro leões das jogadas (quase sempre os extremos e os dois avançados) e a equipa torna-se pequena a defender. Em dois minutos, Sturgeon remata uma bola ao poste depois de Gerson saltar sobre Esgaio, e João Diogo acaba uma jogada a ir da direita para o meio e a atirar a bola na direção de Beto. O Belenenses, com poucos passes, muita velocidade e bússola a apontar para a frente, quase marca.

Fora um jogo que é sempre à parte do jogo - uma bola que pára à entrada da área e que Adrien Silva remata para Joel Pereira desviar para a barra -, o Sporting ataca, e cruza, e força, mas não ameaça tentando ser rápido enquanto vai sendo ameaçado por quem o consegue ser.

Só uma jogada em que o primeiro e último a tocar na bola é Bas Dost e quem a trabalha pelo meio, de primeira, são os que começam o jogo no banco (Castaignos, Bruno César e Campbell), acaba dentro da baliza.

O que me obriga a acabar esta crónica como a comecei, com números. Porque essta jogada acontece aos 93', que é tarde, e o 1-0 vem de um entre 35 cruzamentos que o Sporting faz no jogo, o que é pouco em eficácia. Bast Dost continua a ser o único a marcar golos no Sporting (aconteceu nos últimos cinco jogos). Mas foi um golo que repôs em oito os pontos de desvantagem para o Benfica e livrou o Sporting de passar o Natal com dois dígitos de diferença para o líder do campeonato.