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O falhanço de Bryan Ruiz

No dérbi que trocou o líder do campeonato a nove jornadas do fim vimos um golo feito a ser desfeito por quem, talvez, menos se esperava. E não, isto não tem nada a ver com preferir que ele tivesse marcado. A Tribuna Expresso apresenta-lhe o sexto dos 10 acontecimentos desportivos de 2016 que mais vale esquecer em 2017

Diogo Pombo

Ruiz durante o jogo que deu a Supertaça ao Sporting, em 2015

José Sena Goulão / Lusa

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Mais vale ir direto ao que interessa.

Quando o Slimani recebe um passe do João Mário, há uma equipa que, pelo resultado que há aos 72 minutos do jogo, está virtualmente à frente da outra no campeonato. Antes do jogo, essa equipa estava atrás da outra. E, durante o jogo, essa equipa ataca menos, tem menos bola, é mais prudente e defende mais. Mas, nesse momento, em que o argelino recebe a bola do português, entra na área e a cruza, rasteira, há um meio segundo em que tudo pode mudar.

É o tempo que a bola demora do pé direito do avançado que se ajoelhava e beijava a relva depois de cada bola até ao esquerdo de Bryan Ruiz. Ele, o costa-riquenho, os outros jogadores, a gente que está no estádio e as almas que assistem pela televisão, toda a gente deduz o mesmo nesse meio segundo que isto se passa - vai ser golo. É isso que a lógica nos leva a pensar quando um jogador está prestes a receber a bola, de frente para uma baliza que tem a dois metros e sem um guarda-redes.

Mas se há motivo que nos leva a gostar de futebol, talvez um pouco mais que outra qualquer, é o facto de ser tão ilógico. Como a bola que vai para o pé do jogador que mais técnica, classe e jeito tem no Sporting é um golo feito que não o chega a ser. O tipo de quem a bola mais gosta de ouvir uma história de embalar para adormecer é o mesmo a quem ela, com um ressalto na relva, também ajuda a falhar. E ele falha. E, a partir daí, não é só um erro. É um remate que sai por cima da barra, é uma azelhice que não dá o empate, é um desastre que não impede a derrota contra o Benfica, é um falhanço no jogo do título.

O pontapé que Ruiz falha, mas que, volta a sussurar-nos a lógica, em mil acertaria sempre novecentos e noventa e nove, amplifica tudo para o pior.

O Sporting que estava em primeiro é derrotado pelo Benfica que era segundo e os rivais trocam de posição. Se ao menos ele tivesse marcado. Os leões perdem em casa e deixam-se ultrapassar quando eram líderes. Se ao menos o Ruiz não tivesse feito aquilo. A equipa de Jorge Jesus deixou-se apanhar. Se o costa-riquenho não tem tido aquele falhanço. O pontapé que ele falha é um íman que atrai as culpas numa equipa em que há outros dez tipos que, em 90 minutos, também não marcam. E que, em jogos anteriores do campeonato, empatam três vezes em casa e duas fora dela, como na jornada anterior a esse dérbi.

Um dérbi que tudo acabou por decidir, e animar, porque os rivais ficam separados por um ponto. É um jogo em que o rato tem de se esforçar tanto como o gato e, até ao fim, ambos vencem o que há por ganhar. São nove partidas e nove vitórias para Sporting e Benfica e o campeonato é um filme de suspense que não deixa alguém sair da sala antes de passarem os créditos finais. Uma boa malha, portanto.

O lado mau é o falhanço de Bryan Ruiz que talvez seja melhor esquecer para o ano que vem. Não por ter sido de um lado a falhar e o outro a lucrar com isso, ou por desejarmos que tivesse sido o vice em vez do versa. Mas porque um dérbi é um dérbi. É um jogo em que jogam os melhores do país. E não devíamos ter de ver os melhores a lembrarem-nos que são humanos por falharem de uma maneira que faz um adepto alegar que nem os seus familiares idosos falhariam. Não seria melhor para o espetáculo que se quer no futebol se Ruiz tivesse rematado a bola ao ângulo superior e Ederson ganhado asas para a ir lá buscar?

O resultado teria sido o mesmo, mas teria havido elogios para um e talvez para o outro. E não teríamos visto um jogador a lamentar-se por tanto lhe perguntarem sobre um falhanço - “É triste falhar uma oportunidade como a que tive, que nunca esperamos falhar num jogo destes -, um treinador a fazer o mesmo - “Aquilo não é uma oportunidade, é um golo, ele fez o mais difícil”, disse Jesus -, e muita gente a lembrar, a criticar, a gozar e a não deixar esquecer um falhanço.

E não, o campeonato não se decidiu nesse pontapé.

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