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O sistema, a filiação e o manager (a época até agora)

Tempo de paragem é tempo de balanço. Vamos tentar perceber porque é que uns estão à frente e outros atrás nesta meia época disputada

Pedro Candeias

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MIGUEL A. LOPES

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Somos dados a este tipo de coisas nesta altura do ano: listas, obituários, recordes e recordações. Utilizamos a expressão “em jeito de”, introduzimos a palavra “balanço” e lá discorremos sobre o que se passou de então até agora. Vamos lá.

Lusa

O sistema

Temos olhado para isto de duas formas. A primeira: o Benfica é uma equipa cínica, eficaz e madura, que marca um golo e defende a vantagem defendendo. A segunda: o Benfica é uma equipa que joga como um clube pequeno com armas de grande.
São ambas válidas, dependem do adversário; mas são ambas curtas porque são feitas fora do contexto. E o contexto no caso do Benfica vale muito, simplesmente porque sem Jonas vale menos.

Jonas é o sistema. É por causa dele que o Benfica anda a jogar há alguns anos em 4x4x2, com dois avançados, dois extremos, um trinco e um médio de transporte de bola. Para que este modelo arriscado funcione, é preciso que um dos tipos lá da frente recue, caia nas faixas, tabele, pare e pense o jogo, como um falso número 10. É preciso que alguém seja Jonas.
Com o brasileiro lesionado, o Benfica viveu dos esticões de Gonçalo Guedes, Cervi, Salvio e Semedo. O jogo mudou e o guião repetiu-se a cada jornada: entrar a pressionar em cima; marcar; controlar à distância, ou melhor, controlar a uma distância considerável da baliza adversária (a pequenez); e, enfim, contra-atacar, aproveitar os velocistas e as oportunidades por eles criadas, e as bolas paradas (o cinismo).

É na taxa de eficácia que reside a vantagem dos encarnados.

Os 30 golos feitos por benfiquistas nesta época (são 32 no total; dois auto-golos, de Aly Ghazal e de Luís Aurélio) estão repartidos por vários futebolistas: Pizzi (6 golos, 20%), Mitroglou (5 golos, 16,6%) Jiménez (5 golos, 16,6%), Lisandro (3 golos, 10%), Salvio (3 golos, 10%), Lisandro (2 golos, 10%) ou Guedes (2 golos, 10%).

Isto permitiu ao Benfica manter a liderança, apesar do estranho número de lesões – Horta, Salvio, Mitroglou, Jonas, Jiménez, Grimaldo, Luisão, Jardel, Lisandro estiveram ou ainda estão lesionados, ou a meio gás.
Contas feitas, são 38 pontos (12 vitórias, 2 empates e apenas uma derrota), mais sete do que no ano passado por esta altura.

ESTELA SILVA/LUSA

Somos Porto

Pinto da Costa despediu José Peseiro e foi resgatar ao desemprego Nuno Espírito Santo (NES). Para o presidente, Nuno tinha o que era preciso para dar a volta ao texto: jovem, português, capaz e, sobretudo, portista. E a verdade é que, mais coisa, menos coisa, a decisão não terá sido descabida de todo: o FC Porto está a quatro pontos do Benfica e passou o Grupo da Liga dos Campeões; e fê-lo num momento de restrições financeiras. Sem grande margem para grandes contratações, NES promoveu André Silva, primeiro, Diogo Jota, depois, e Rui Pedro, agora, a estrelas da companhia. Como é que dizia o outro? A necessidade aguça o engenho.

Tal como o treinador, são três jovens portugueses, dois deles da casa (André e Rui Pedro), um a aprender os cantos à mesma. Os regressos de Oliver e Otávio para o meio-campo, e as compras de Alex Telles e Felipe acabaram por equilibrar a equipa que, a espaços, se tornou boa a defender – mas péssima a atacar. Volume de jogo, oportunidades criadas, golos falhados.

Há duas razões para isto: a juventude e a lentidão.

Pôr nos ombros de André Silva e de Diogo Jota a responsabilidade de calçarem no espaço que já foi de Falcao ou de Jackson foi um mal necessário. Não havia muito por onde escolher. Não havia outra escolha, aliás.

Depois, falta nervo nas alas. Corona e Otávio são criativos, sim, só que pouco dados a correrias; NES ainda tentou recuperar o desterrado Silvestre Varela mas foi com o Brahimi que conseguiu um compromisso entre a velocidade e o talento.

O argelino assumiu a titularidade quando NES perdeu Otávio (por lesão) e percebeu que Varela estava noutra dimensão – a quinta dimensão. Nos últimos quatro jogos, o FC Porto somou quatro triunfos; Brahimi jogou em todos eles, três vezes a titular. Com ele em campo, a equipa torna-se imprevisível, perigosa e rematadora; e com ele em campo, é mais um com capacidade de fazer golos. É que o Porto depende muito, quase exclusivamente de André Silva (10 golos, 37% do total da equipa) e Brahimi fez três em 416 minutos, dois nos quatro encontros em que jogou de início (Feirense e Marítimo). Problema: em janeiro, Brahimi partirá para a CAN – isto se, entretanto, não for vendido. Não é preciso um desenho para perceber: é urgente comprar ou pedir emprestado.

MIGUEL A. LOPES/ Lusa

O manager

Por esta ninguém esperava: uma equipa que disputara o campeonato até ao fim, a jogar provavelmente o melhor futebol da Liga, treinada por um homem experiente, experimentado e titulado, reforçada por Bas Dost, Elias, Markovic e Campbell; uma equipa que, enfim, só podia melhorar e que acabou por piorar em todos os índices, objetivos e subjetivos. O Sporting é a grande desilusão desta meia época: está a oito pontos do Benfica, a quatro do FC Porto, a dois do Braga, empatado com o Vitória de Guimarães; tem 13 golos sofridos e 25 marcados, o que é muito e pouco para uma equipa de Jorge Jesus; e o exibições que oscilam entre o ótimo e o fraco, como se tivesse dupla personalidade.

Estas sequências são elucidativas: no início, quatro vitórias consecutivas contra Marítimo, Paços de Ferreira, FC Porto Moreirense; a meio, três empates seguidos contra Vitória de Guimarães (3-3), Tondela (1-1) e Nacional (0-0); duas derrotas contra Benfica (1-2) e Braga (0-1) e uma vitória sofrida (1-0) diante do Belenenses a fechar o ano civil.

Em poucos meses, o Sporting passou da passadeira vermelha para os lenços brancos. O mais provável é que isto seja o resultado da política de contratações, responsabilidade de Jorge Jesus: aparentemente, alguém se esqueceu de abrir o capô e verificar o motor de Markovic, Elias, André ou Castaignos no ato da compra. Sem suplentes à altura para sacudir o jogo ou permitir que alguém descanse, o Sporting apoiou-se quase sempre em Gelson, William e Adrien e confiou em Bas Dost para fazer o resto. O holandês, o melhor reforço do Sporting da época, leva nove golos (37,5% do total da equipa) e disfarça a falta de soluções de uma equipa que insiste em lateralizar, lateralizar, para tentar porfiar.

Lembra-se do jogo interior de 2015-16 que baralhava as marcações dos adversários? Deixou de existir e a saída de João Mário e de Slimani não justificam tudo, porque à partida teriam sido comprados jogadores para relativizar as saídas.
A grande questão aqui é que não é manager quem quer, mas quem pode.