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Já não há taças que valham a tão pouco

O FC Porto acabou a jogar com nove em Moreira de Cónegos, onde teve desorganização a mais e cabeça a menos para perder (1-0) e ser eliminado da Taça da Liga. Os dragões ficam apenas com o campeonato e a Liga dos Campeões para o resto da época

Diogo Pombo

JOSE COELHO/LUSA

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Vamos lá pensar em conjunto.

O futebol é uma coisa que se aproveita de outra, redonda, que é uma bola, para ser jogado. Como qualquer objeto leve e circular, essa coisa andará sempre mais rápido sozinha do que acompanhada pelos pés de um jogador. É tão certo como a terra ser um planeta também redondo. Como as leis da física que nasceram das conclusões de Isaac Newton. Ou como as coisas em que a cabeça do cientista inglês pensou depois de uma maçã lhe cair em cima. Coisas como a dinâmica dos corpos, o aplicar de forças, o tamanho das massas e cientificidades que não temos de entender para percebermos uma outra coisa:

A bola vai sempre correr mais rápido sozinha, que é como quem diz, a ser passada, em vez de conduzida. Podia ser uma lei de Newton, se o futebol já existisse no tempo dele.

Mas se eu e vocês e, por certo, quem joga futebol a sério, percebe isto, então é estranho ver uma equipa gastar praticamente 45 minutos a fazer o contrário daquilo que todos entendemos. Quem joga no FC Porto joga devagar e passa demasiado tempo com a bola nos pés, quando o tempo é amigo não deles, mas do Moreirense, que a partir dos doze minutos tem o empate a seu favor por o Feirense marcar um golo ao Belenenses. Uma vez mais, todos percebemos outra coisa: os dragões têm de vencer para saírem vivos do grupo.

Só que eles são lentos, tão vagarosos que Felipe e Danilo dão mais toques na bola que Óliver ou Brahimi, que são mais ágeis e leves de pés, e têm mais ideias para tentar aplicar com eles. Cada vez que tem a bola, é quase regra que cada jogador do FC Porto lhe toque três ou quatro vezes antes de decidir o que lhe vai fazer. Ela rola pouco sozinha numa equipa que não tem extremos - Nuno Espírito Santos deixa Corona no banco, joga com André André como quarto médio e manda Brahimi ser companheiro de Depoitre - e confia em dois laterais pouco velozes para dar velocidade às trocas de bola.

A equipa comporta-se a passo. Vê o Moreirense, equipa que não bate a bola para a frente e tenta sair com ela de trás, com viagens curtinhas, a assustar José Sá com um remate de Ângelo Neto, depois de trocar dez passes numa jogada. O FC Porto responde com dois remates de fora da área; um cabeceamento de Danilo, que respeita em demasia a regra do cima para baixo e, após o ressalto na relva, desvia para a baliza onde está Makaridze, guarda-redes da Geórgia que deve ter visto aquilo antes de nós; e um remate de Depoitre que toca no poste, vinda da ponta da chuteira do belga, na pequena área.

Em quase tudo isto há Brahimi. O argelino pode ser o dono da bola no recreio, ter o “passe” no fundo da lista de prioridades, seguir a regra de fintar pelo menos dois adversários antes de a bola lhe sair dos pés, mas é quem faz a bola andar mais rápido quando está do lado portista. O que podia ser um contra-senso, pelo que escrevi em cima. Mas não o é porque os restantes dragões são tão lentos e têm encontros tão demorados com a bola que ela apenas resulta em algo perigoso quando faz escala em Brahimi. Um extremo que goza de pouco espaço e tempo com ela por andar sempre mais por dentro do que por fora no campo.

JOSE COELHO/LUSA

E ele, vindo do balneário, aparece a bocejar, mesmo antes de o jogo recomeçar.

Talve antevisse que tudo regressaria com aspeto de lhe dar razão. E de continuarmos a ver um FC Porto que devia ser mandão, rápido a atacar, asfixiante no cerco à área e produtor em massa de oportunidades, a ser moroso com a bola, estático nos jogadores e lento reagir. Como aconteceu volvidos uns minutos, quando três homens do Moreirense se uniram, dois mexeram-se sempre que um tinha a bola e a coisa acabou assim - com Reboco a correr depois de dar a bola a Dramé, o francês a vê-lo e a desmarcá-lo, e o português a cruzar rasteiro para Francisco Geraldes, que estava sozinho, na área, para rematar e marcar.

Faltava jogar quarenta minutos e, se o objetivo fosse escrever sobre o que foi bonito de se ver, seriam palavras apenas sobre os pulmões de Ângelo Neto, os pés de Francisco Geraldes, o espaço que todos foram tendo e o egoísmo de Boateng e Jander à frente da baliza quando estava alguém ainda mais à frente do que eles. Porque os dragões, com o tempo, foram implodindo na desorganização que iam piorando por todos quererem chegar com a bola perto da baliza e ninguém pensar em qual seria a melhor forma de o fazer.

O FC Porto não inventou uma oportunidade para marcar. Nem com Corona e Diogo Jota, entrados e raramente vistos, ou com Brahimi, que continuou a ter a bola ao centro ou, mesmo na linha, tarde demais para ter apenas um adversário para ultrapassar. Os minutos, a pressa, os nervos e o raça a mais que a cabeça foram aumentando até o cúmulo da desordem acontecer, aos 79’:

Diego Galo, na área e deitado na relva, tocou a bola para trás, Makaridze agarrou-a, o árbitro não apitou e, enquanto corria de costas, para longe da área, e embateu contra Danilo. Achou que o choque equivalia a um cartão amarelo, o segundo para o médio do FC Porto, que antes de sair do campo encostou a cara à do homem do apito. A desordem portista cresceu com dez jogadores e piorou com os nove que restaram assim que Brahimi também viu um segundo amarelo, cinco minutos volvidos. As hipóteses do FC Porto acabaram aí.

E as taças, a da Liga a seguir à de Portugal, terminavam ali. Os dragões jogaram pouco, foram pouco intensos, muito pouco organizados e com demasiada pouca intensidade numa partida que, já sabiam, tinham de vencer. O FC Porto fez pouco e, agora, há o campeonato em que segue no segundo lugar e a Liga dos Campeões, em que vai defrontar a Juventus.

Estamos em janeiro e é apenas isso que ainda lhe vale.

JOSE COELHO/LUSA