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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O povo parece burro mas é só emotivo. A razão aparece logo de seguida

Está a ser uma época muito difícil para o futebol profissional, em Portugal. Apesar da contestação ser cíclica, com diferentes intérpretes em função das circunstâncias, parece por demais evidente que os limites máximos da tolerância estão a ser ultrapassados

Duarte Gomes

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Há demasiada insatisfação, crispação e raiva no ar. Há pessoas revoltadas, dirigentes indignados e excessos como nunca se viu. É um facto que poucos refutarão.

Esta coisa da intolerância, que muitas vezes roça a violência verbal, é mais ou menos como o vírus da gripe: contagia e tende a crescer se não for tratada, na raíz, com eficácia e de forma permanente.

O que está então mal no futebol português?

1. A arbitragem

Ou melhor, alguns erros de arbitragem, que a televisão tantas vezes mostra de forma tão clara como cruel. Clara porque muitos (não todos) tornam-se evidentes depois de vistos e revistos. Cruel porque ao nível da relva, a leitura é quase sempre diferente. Bem diferente.

Lá é tudo muito mais rápido, imprevisível, espontâneo. Fugaz. Quase sempre dúbio até. Há muito mais dúvidas do que certezas. Por isso, as decisões mais complicadas de analisar são tão acertadas quanto a capacidade que o árbitro tiver em recorrer a todos os seus sentidos. É que ver, muitas vezes, não chega. É preciso sentir, cheirar, intuir, deduzir.

O problema está então à vista: só os árbitros mais experientes (e também os mais competentes) têm essa faculdade exponenciada ao máximo. Porque decidir assim, com todos os truques que a mente ensina e o subconsciente absorve, é algo que não vem nos livros. Aprende-se com a prática. Com treinos, muitos treinos. E jogos, muitos jogos.

Por muita integridade, talento e potencial que tenham (e têm), parte desta nova geração de árbitros ainda não teve tempo nem espaço para crescer. Não a esse ponto.

Compete, por isso, à sua estrutura assumir essa gestão. Como? Acompanhando e promovendo - de forma inteligente e sensata - a sua evolução gradual, sustentada e tranquila.

Repito: gradual, sustentada e tranquila.

2. Debates sobre futebol

Hoje há demasiada gente, ligada a clubes, com tempo de antena. Na televisão, rádios e jornais. Muitos – com honrosas exceções – propagandeiam o futebol como um cancro doloroso e incurável. Como um instrumento controlado pela máfia.

A luta pelas audiências permite e incentiva discussões em espaços de opinião que, em vez de nobres e construtivos, roçam o brejeiro e vergonhoso. É aí que, tantas vezes, se oferece protagonismo a pessoas que jamais pisaram um relvado e que têm agenda própria bem definida.

É também muitas vezes aí que se (de)formam opiniões, que se instigam adeptos a vendettas sangrentas, que se criam ambientes de guerrilha, quando na verdade o futebol é um jogo que devia apenas entreter e divertir. Com os seus erros e acertos, com a sua imprevisibilidade e espontaneidade. Com os seus golos majestosos e as suas fintas inesquecíveis. Com coreografias perfeitas e momentos de magia.

O preço a pagar pela concorrência aguerrida não pode nem deve descer ao ponto de oferecer verdadeiras autópsias, em direto, ao futebol português. Esse vale quase tudo, no fundo, não vale quase nada.

3. Falta de dureza na punição

Infelizmente, a proatividade, a prevenção e os sucessivos apelos à contenção, ao FairPlay e à gestão das emoções raramente resultam.

Quando se perde, sobretudo se houver legítimas razões de queixa das arbitragens, o caldo entorna. Fala-se em erros premeditados, em favorecimento com alvos específicos, a campanhas persecutórias. Fala-se em polvos, em sistema e em roubos. Das duas uma: provem o que acusam ou responsabilizem-se pelo que dizem.

Os regulamentos, aprovados pelos clubes, são claros: impedem especificamente quaisquer declarações sobre a arbitragem, que sejam “mais ofensivas”. Isso antes, durante e após os jogos. Apesar disso, elas acontecem todas as semana, em todos os tons e vinda de várias frentes.

Nota - Quem vai à frente raramente se queixa. Esta coisa de desvalorizar os erros que beneficiam ou os que não interferem no resultado final é um fenómeno sociológico que devia ser dissecado por especialistas.

Mas fica a pergunta: se a punição disciplinar fosse mais forte e exemplar (tal como acontece em tantos outros países com futebol de topo), o comportamento excessivo seria o mesmo? Ou a lição serviria de exemplo? A agressividade verbal não daria lugar à contenção e à moderação?

Sabem o que vos digo? Critiquem sim, mas com classe. Indignem-se se sentirem que devem, obviamente, mas com elegância e elevação. No local próprio.

De cada vez que dizem mal do futebol, estão a destruir o produto que tentam vender, desportiva e financeiramente. E não se esqueçam. O país que num dia é fortemente contagiado pelos excessos e emoções exacerbadas, é o mesmo que –pouco tempo depois – percebe que o sol, afinal, não se tapa com a peneira.

O povo parece burro mas é só emotivo. A razão aparece logo de seguida.

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