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O jogo II d.J. (e com Jonas)

Sem Jonas, os encarnados eram rápidos, tinha pressa e atacavam com urgência. Depois da lesão dele, e com ele, a equipa voltou a ter a calma e a pausa com bola do homem que fez um golo, deu outro a Mitroglou e já participou em quatro nos 149 minutos desde que regressou. E o Benfica venceu (2-0) o Vitória

Diogo Pombo

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FRANCISCO LEONG

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Não creio ser necessário pedir desculpa por centrar tanto as coisas num homem. Sem ele é uma coisa, com ele é outra, muito diferente. No meio está uma linha, não ténue, mas gorda, empanturrada pelo tempo, que marca essas diferenças por ele ser tão grande, bom, eficaz e talentoso no seu ofício. Houve um antes e depois de Cristo para crentes e não crentes, por todos sabermos a que ano andamos. Um antes e depois de Mário Soares, um dos que mais lutou pela liberdade de estar aqui alguém a escrever e vocês a lerem. E há um pré e um pós no Benfica.

Essa fissura no tempo é culpa de Jonas, um homem que, ausente, é tão influente como quando é presente. Sem ele, há uma equipa mais rápida, com a pressa de ser veloz a fazer coisas com a bola, por jogar com outros que correm, e reagem e sprintam mais do que ele, que pedem para que o futebol dos encarnados seja uma urgência de ataque e não uma calma de organização.

Com Jonas, há essa calma.

Ele, com os pés, a técnica, os olhos que parece ter a mais que os outros e o saber onde tem de estar para ter a bola, é calmo a fazer o que faz. Isso propaga-se a quem joga com ele, é contagioso. Em Guimarães, ele sai de perto dos centrais e pede a bola nas costas dos médios, rompendo os bolsos de quem o defende e abrindo espaços para quem ataca. O Benfica é rápido até arranjar maneira de a bola chegar a Jonas, porque é Jonas quem mete calma, segura a bola, dá tempo aos outros, passa, tabela e obriga os adversários a terem que pensar para se adaptarem.

E isto, aos 19’ e aos 42’, rende dois golos ao Benfica. Ele desvia um bola despachada por Luisão para os pés de Mitroglou, que a dá para Salvio escapar por entre Konan e Josué e passar rasteiro, para trás, onde Jonas remata. Ele também conduz uma bola num contra-ataque, fixa um adversário e a pica para o outro lado da área, onde dois toques de Mitroglou a controlam e pontapeiam com jeito. Com Jonas, o jogo chega mais ao grego e tira-o do mundo para o qual às vezes parece alhear-se, e fixa-se mais em Pizzi de quem o brasileiro se aproxima sempre (são quem mais toques dão na bola, no ataque). A equipa vive e prospera com a bola.

O problema é que Jonas não é omnipresente e, sem a bola, os encarnados sofrem. O brasileiro não é Gonçalo Guedes, que pressiona muito e corre atrás, e o Vitória não é uma equipa qualquer, é uma das que melhor reage aos segundos que tem logo a seguir a recuperar bolas. Cada uma vai parar a Rafinha ou a Hernâni, extremos velocistas que disparam para a linha até poderem cruzar passes até Soares, um avançado dos que lutam, não param e caçam tudo e são chatos para quem os tem de marcar - como Lindelof e Semedo, que ficam amarelos por causa dele.

FRANCISCO LEONG

Sem a bola, a influência de Jonas minga e a equipa é incapaz de anular ou controlar o Vitória, que ataca sempre por fora, a abrir, obrigando Salvio e Cervi a correrem muito para trás. No arranque de cada parte do jogo, a intensidade dos de Guimarães encosta o Benfica à área, onde corte bolas e a defende cantos. Só que, na segunda, esse contraste já rende um remate que Hurtado falha nas barbas de Ederson e outro em que o guarda-redes brasileiro desvia o arco desenhado pela bota esquerda de Hernâni.

O Vitória quis arriscar mais e continuar a jogar da maneira que lhe convém - rápido, a precisar de poucos passes para chegar à baliza, a insistir com a bola nos pés dos três da frente. O risco compensou-lhe e obrigou o Benfica, com os minutos, a comportar-se como hoje sempre o faz quando o resultado lhe convém desde cedo: recuou, fechou-se atrás do meio campo, juntou as linhas e assim se manteve até os vimaranenses (porque era uma questão de tempo e de cansaço) perderem gás, fôlego e critério.

Enquanto esse tempo não passou, o Benfica, partindo mais trás e com os jogadores mais perto uns dos outros, tinha que ser mais rápido a arrancar e a usar a bola. O jogo ficou menos para Jonas, alguém que é influente pelo tempo que tem com a ela e não pela urgência com que tem de a usar. Ainda tem o pé de lã que tabela com Pizzi, na área, e vê Mitroglou a querer dar-lhe um golo na área e Douglas a não deixar. Mas é substituído para, quando o cansaço chega ao Vitória, os encarnados já terem André Horta e um tipo a mais no meio para se unirem na bola.

Mesmo quando não dominou depois de aprender a controlar o jogo, Luisão e Nélson Semedo foram cortando cruzamentos e remates e jogadas que fizeram o tempo passar mais rápido para eles. Para os encarnados, que acabaram com a sétima vitória seguida numa das visitas mais difíceis que os esperava na época, e antes de cinco partidas do campeonato em que jogará quatro no Estádio da Luz.

Todas, ao que parece, com Jonas. Para eles houve uma vida antes dele (a.J.) e agora têm uma depois (d.J.) da lesão do seu melhor jogador. E com ele, o que para eles é bom.