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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O terceiro golo do Boavista é legal? Sim, diz Duarte Gomes

Aqui se explica o que é o fora de jogo posicional

Duarte Gomes

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O lance da última jornada na Luz (relativo ao terceiro golo do Boavista) levantou dúvidas e dividiu opiniões. Compreensivelmente. Foi, de facto, uma situação de análise muito difícil, porque a imagem que a sensatez oferece dá uma perspetiva muito clara de fora de jogo, mas a verdade é que a letra da lei sugere decisão oposta.

Mas não tomem a opinião como minha. Essa pouco importa. O que eu gostava mesmo era de levar a questão a outro nível. Para isso, parece-me fundamental que percebam o que dizem os livros sobre esta matéria.

Parece-vos bem?

Venham daí então. Vamos mergulhar na Lei 11 (Fora de Jogo) e esclarecer algumas ideias:

Primeiro. A mera posição de fora de jogo não é punida. Certo? Só se o jogador tomar parte ativa no jogo. Mas isso já sabiam...

Isso leva-nos então para a parte seguinte: o que é isso, de “tomar parte ativa” no jogo? Ora bem, segundo a lei, isso acontece em três circunstâncias:

a) Um jogador em posição irregular é punido se interferir no jogo (ou seja, se tocar ou jogar a bola).

b) É punido se tirar vantagem da posição em que se encontre (por exemplo, estando fora de jogo no momento do remate à baliza do seu colega e jogar a bola depois, quando esta sobrar para si após ressaltar no poste).

c) É punido se, estando em posição de fora de jogo, interferir com um adversário.

As alíneas a) e b) parecem muito claros e podem esclarecer dúvidas concretas sobre o lance de Luz: no primeiro, Schembri não tocou nem jogou a bola; e, no segundo, não tirou partido (direto) da posição ilegal em que se encontrava. Por isso, tudo legal.

Estão a acompanhar-me?

Isso remete-nos para alínea c): o que é “interferir com o adversário”?

A lei 11 explica-o em quatro etapas. Qualquer uma delas, a verificar-se, implica punição.

1. Impedir o defensor de jogar a bola, obstruindo claramente a sua linha de visão. Vimos que Schembri estava sozinho, em movimento contrário ao da baliza e ao tentar jogar a bola de calcanhar, não obstruiu, de forma clara, o ângulo de visão do adversário. Certo?

2. Disputar a bola com o adversário. Esta é mais fácil. A imagem evidencia que o avançado do Boavista não disputou a bola com qualquer adversário.

3. Tentar claramente jogar a bola que se encontre junto a si, quando esta ação tiver impacto no adversário. Não há dúvidas que o avançado do Boavista tentou tocar / jogar a bola quando ela passou por si.

Por isso, a pergunta do milhão de dólares está na segunda parte do ponto três: essa ação teve impacto no adversário?

Há quem entenda que sim. Que a ação do boavisteiro teve impacto na ação/movimentação de Ederson. É uma opinião legítima e aceitável. Mas lendo bem o texto da lei e analisando o seu alcance, acham mesmo que interferiu? Vejamos...

Uma conclusão de Curso da UEFA (no início da época 2015/16), esclareceu o que era essa coisa de ter impacto no adversário: é quando “o defensor vê a sua capacidade de jogar a bola atrasada, dificultada ou impedida pelo adversário que está em posição de fora de jogo”.

A imagem prova que Ederson estava, nesse momento, a cerca de 8/10 metros do lance (quer do avançado, quer da bola).

A essa distância, fará sentido falar em ”impacto sobre o adversário”, tendo em conta a forma como a UEFA o define.

Mas há mais.

A expressão “interferir com o adversário” é relativamente nova na lei. Ela substituíu a anterior, que era “influenciar”.

A substituição não foi um pormenor gramatical. Não foi inocente. As duas expressões têm, de facto, sentidos diferentes.

Influenciar significa persuadir, induzir alguém a fazer alguma coisa. Interferir é algo que sugere mais fisicalidade. Mais presença. Significa intrometer-se, imiscuir-se.

Isso quer dizer que o legislador entendeu que – no caso de ter impacto sobre o adversário – só poderia haver fora de jogo quando a proximidade entre o avançado em posição ilegal e o defensor fosse menor. Seguramente bem menor do que 8/10 metros.

Na prática, diria que estamos a falar de um, dois metros, sensivelmente.

Estamos de acordo numa coisa: é quase inconcebível que a lei permita que um jogador em posição irregular tão clara, tente de forma tão evidente jogar a bola (e só não o fez por mero acaso) e mesmo assim não seja punido por isso.

Mas a verdade é que a letra da lei, aqui esmiuçada em detalhe, parece indiciar que a decisão foi correta.

Lembrem-se: os árbitros não fazem as leis. Cumprem-nas. Concordem ou não com elas.