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Sporting: We always have Chaves

Pelo segundo jogo em três dias, o Sporting não foi melhor que o Desportivo de Chaves. Voltou a sofrer um golo aos 88 minutos, perdeu (1-0) e foi eliminado da Taça de Portugal na terra onde, em 16 jogos oficiais, apenas venceu três. Estamos a meio de janeiro e, ao Sporting, resta apenas o campeonato

Diogo Pombo

JOSE COELHO

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Para ir ao jogo que acabou de se jogar, dá jeito passar antes pela segunda parte do jogo que, há três dias, se jogou.

Nesses 45 minutos e mais qualquer coisa, houve uma equipa, o Sporting, que trocou uns jogadores, reagiu a um imbróglio, fez melhor as coisas e conseguiu dar a volta a um resultado com menos um em campo. Mas a outra equipa, o Desportivo de Chaves, que estava em casa e no sítio onde apenas perdera uma vez, teve um tipo que, aos 88 minutos, deu o melhor remate na bola da vida dele (o próprio disse-o) e deixou as coisas empatadas.

De lá para cá, essas coisas complicaram-se, mas só para uma equipa.

Enquanto o tal tipo, do tal pontapé, dizia ter marcado o tal melhor golo da carreira, foram três dias em que se falou da pior primeira volta do Sporting nos últimos três anos, das piores 17 jornadas de Jorge Jesus como treinador de equipas grandes, e dos leões que têm reforços que não rendem e demasiados jogos que não ganham, no campeonato. De um presidente que desceu ao balneário para falar sobre tudo isto. E de um blackout que não sabemos se o é, ou não, mas que não o parece ser quando dois capitães de equipa falam a um meio de comunicação para, por livre ou obrigada iniciativa, desmentirem zaragatas.

Depois de tudo isto chegou a tal primeira metade deste jogo, para a Taça de Portugal, que foi muito parecida à tal segunda, do campeonato.

Continuámos a ver o Sporting a querer ser mandão, a procurar virar mais os passes para a frente do que para o lado, a esforçar-se por encostar o adversário à área, usando a bola e insistindo com ela. Só que também vimos o Chaves a pressionar, a ter os jogadores loucos por roubarem bolas, a precisar de poucos passes para reagir e a usar a bola o mais rápido possível em contra-ataques. No fundo, uma equipa parecia ser melhor quando, na realidade, não o era.

Certas coisas mantiveram-se quase iguais. Como Fábio Martins, o do tal remate, continuar a picar Ricardo Esgaio em carne para folhado de Chaves. As duas bolas que dominou nas costas do lateral e pontapeou, com estilo e força (9' e 12'), tornaram Beto no melhor que o Sporting teve até ao intervalo. Porque o plano de começar este jogo com a equipa parecida à que reagiu, e acabou, o anterior, foi saindo furado pelo azar que tocou nos músculos de Jefferson e André Filipe. A equipa ficava sem um segundo avançado a sério lá à frente (entrou Joel Campbell) e sem um lateral rápido (foi Bruno César a jogo) para compensar a lentidão de um extremo a fingir que iria pedir a bola ao centro para lhe abrir espaço.

Esse extremo, Bryan Ruiz, quase encontrou Bas Dost na área, com um passe (37') que mostrou como o holandês é goleador que gosta de assistência no pé, não no espaço. Mesmo mais lento, menos agressivo e assim-assim na intensidade com que tentava tabelas e jogadas, o Sporting conseguiu ter Gelson a rematar rasteiro (27'), na área, para António Filipe defender, e cada um dos centrais a terem bolas (em dois cantos) para cabecearem na área.

Ninguém marcou, as coisas mantiveram-se empatadas, Assis continuou a roubar como gente grande no Chaves, e William e Adrien não conseguiam acelerar a posse de bola o suficiente para quem jogava à frente deles ter tempo, e espaço, para atacar a baliza.

PEDRO SARMENTO COSTA

A equipa reparou e, na segunda parte, toda a gente começou a jogar mais rápido.

A rotações dos médios aumentou, os leões passaram mais tempo com a bola e os laterais tiveram tempo para avançarem e se colarem às linhas. Ruiz cruzou uma bola para Bast Dost rematar, com a cabeça, às mãos de António Filipe, e o Sporting passou quase meia hora a jogar rápido, com intensidade e um, dois toques. Simples e fácil até conseguir envolver Bruno César na conversa, porque o brasileiro, à esquerda, não falhava um passe e recebia, olhara e esperava para meter a bola depois de Ruiz, Campbell, Adrien ou Dost se mexerem.

Esta fase do Sporting a crescer, mandando, que obrigou o Chaves a encolher, encostando-se à própria área, durou até o médio e o avançado fazerem dois passes retos, para a frente - dos tais que queimam linhas, ou seja, tiram adversários da jogada -, e deixam Gelson, na área, a rematar nas barbas do guarda-redes (77') que lhe parou o remate. Depois da melhor, e única, jogada que montaram com princípio, meio e um fim que não teve fim, os leões abrandaram.

Voltaram a mingar, a serem lentos, a ninguém ter uma ideia que fosse, a tratarem a bola tão lentamente como se mexiam. E o Chaves pode, de novo, respirar e conseguiu devolver a bola aos seus extremos com o novo pulmão, que rima com Patrão, que tinham em campo. Os flavienses avançaram uns metros e voltaram a chegar à área de Beto com poucas passes. Quando a perna do guarda-redes do Sporting lhe pediu para chamar Coates, o pontapé de baliza que saiu desastrado do pé do uruguaio (80') quase resultou num golo de Braga, rematado ao segundo toque, antes da linha do meio campo.

Aí o Sporting desnorteou-se de vez e passou a chegar atrasado a quase tudo o que o Chaves fazia. Uma das faltas que fez, perto da sua área, por alguém reagir tarde e a más horas, parou a bola num livre. Patrão cruzou-a e Carlos Ponck - o central que no fim disse que o forte do Chaves são as bolas paradas e eles andaram a treiná-las durante a semana - rematou-a, de cabeça. Três dias depois, os flavienses marcavam aos leões, de novo, aos 88 minutos. Mais uma vez, a equipa de Jorge não atinou com o norte para fazer mais do que repetir passes longos e apressados, para a área. E agora não empatou, perdeu.

E perdeu no sítio onde apenas uma equipa venceu esta época, o mesmo sítio onde, em 16 jogos a sério, o Sporting só ganhou três, empatou oito e, agora, perdeu cinco. É o contrário do que Humphrey Bogart disse a Ingrid Bergman, na última cena de Casablanca (1942), dizendo-o por saber que nunca hão de recuar ao bom que tiveram num certo sítio. Para os leões, o problema é que vão regressando a Chaves, onde é raro serem felizes e têm motivos para dizerem, uns aos outros - “We always have Chaves”.

P.S. Esta derrota significa que, a meio de janeiro, apenas sobra o campeonato ao Sporting. Isto numa altura em que se fala de discussões no balneário, blackouts, futuros de treinador, de jogadores e de presidente, que daqui a mês e meio (4 de março) vai a eleições.