Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Ele jogou nas quatro equipas da final four da Taça da Liga. Ele é José Miguel Organista Simões Aguiar (quem?)

Benfica, Sp. Braga, V. Setúbal e Moreirense. Será este quarteto a disputar a final four da Taça da Liga, que arranca esta quarta-feira no Algarve com o duelo das meias-finais entre sadinos e bracarenses. E há um jogador que sabe o que é vestir a camisola dos quatro clubes: o lateral esquerdo Miguelito, que deixou o futebol há um ano após uma carreira itinerante, tornou-se agente e, garante, não terá o coração dividido em quatro

Lídia Paralta Gomes

É MINHA! Miguelito chegou ao Benfica pelas mãos de Fernando Santos, na época 2006/07. Na Luz passou um ano e meio, antes de seguir para Braga

José Manuel Ribeiro/REUTERS

Partilhar

O nome Lutz Pfannenstiel diz-lhe alguma coisa? Uma pista: foi guarda-redes. Ainda nada? Normal: Pfannenstiel não foi uma estrela, mas ao longo da carreira passou por qualquer coisa como 27 clubes em seis continentes. E isso dá-lhe um lugar nos registos, porque nunca ninguém correu tanta terra para jogar futebol - é o epítome daquilo que os britânicos gostam de chamar ‘journeyman’.

Miguelito está longe do número de Lutz Pfannenstiel, que hoje tem 43 anos e é diretor de relações internacionais do Hoffenheim (como não?), mas é um ‘journeyman’ à portuguesa. Rio Ave, Nacional, Benfica, Sp. Braga, Marítimo, Belenenses, V. Setúbal, Apollon Limassol (Chipre), Moreirense e Tirsense: são 10 clubes no currículo e quatro deles vão jogar a final four da Taça da Liga já a partir de amanhã. A primeira meia-final vai colocar frente-a-frente V. Setúbal e Sp. Braga (20h45) e na quinta-feira, à mesma hora, Benfica e Moreirense lutam pela última vaga na final de domingo, no Estádio do Algarve.

Depois de abandonar o futebol há um ano, o lateral esquerdo de 35 anos tornou-se agente de jogadores. Miguelito, que no Cartão do Cidadão se chama José Miguel Organista Simões Aguiar, garante-nos que vai acompanhar a final four como espectador e sem coração dividido.

Antes de mais, trato-o por Miguelito ou José Miguel?
Tanto faz, tanto faz! Miguelito era o meu nome enquanto jogador e Miguel é, digamos, o meu nome verdadeiro.

Mas agora que já não joga, já o tratam por Miguel?
As pessoas que me conhecem e que sempre me trataram por Miguelito continuam a fazê-lo. Quem está agora a começar no futebol trata-me por Miguel.

E quando é que aparece a alcunha Miguelito?
Quando comecei a fazer testes no Rio Ave, nos treinos de captação: existia mais do que um Miguel e, para nos distinguirem, um ficou Miguel, outros tiveram de ser tratados pelo segundo nome e eu por Miguelito, porque, de facto, era o mais franzino deles todos. Acabei por ficar com o diminutivo.

Não deve haver por aí muitos jogadores que tenham jogado nos quatro clubes que vão disputar a final four da Taça da Liga (Benfica, Moreirense, V. Setúbal e Sp. Braga)...
Tenho de dizer que dificilmente aqui em Portugal haveria uma final four da Taça da Liga com clubes em que eu não tivesse estado, porque joguei em boa parte dos clubes da 1ª Liga [risos]! Mas confesso que até me terem dito não tinha noção disso.

E o coração vai estar dividido em quatro?
Não, não vou estar dividido. Fiz parte da história desses quatro clubes e vou estar com particular atenção, mas mais porque o que agora faço é dentro da mesma área, do futebol. Mas não vou estar a torcer por ninguém em especial, vou estar como espectador atento.

Qual dos quatro clubes teve mais impacto na sua carreira?
Todos foram especiais, até porque me deram uma oportunidade de pertencer aos seus quadros e de fazer aquilo que eu mais gostava, que era jogar à bola. Mas não escondo que jogar no Benfica é um ponto alto para qualquer jogador, porque é uma equipa grande e toda a gente ambiciona chegar a uma equipa grande.

Ganhou um título com o Moreirense.
De uma maneira ou de outra todos foram especiais e o Moreirense foi especial porque consegui um título de campeão na 2ª liga. Fizemos um campeonato imaculado e conseguimos com algumas jornadas de antecedência garantir a subida e terminámos campeões.

O Benfica é claramente favorito à vitória ou pode haver surpresas - coisa em que esta edição da Taça da Liga tem sido pródiga, diga-se?
Olhando para os quatro nomes, claramente o Benfica é favorito, seguido do Sp. Braga. Por aquilo que conquistou e tem vindo a crescer ao longo dos anos, não se pode pôr de parte a possibilidade do Sp. Braga vencer. Mas como me disse, esta Taça da Liga tem sido pródiga em surpresas e não se pode deixar de lado qualquer uma destas equipas, porque se eliminaram equipas grandes como o Sporting e o FC Porto têm mérito e uma palavra a dizer.

O domínio do Benfica tem tornado a prova menos empolgante?
Acho que até é o contrário. É bom para a prova porque o Benfica vai querer continuar a ganhá-la e os outros clubes vão fazer tudo para destronar o Benfica. Por isso acho que cada vez mais vai ser importante vencer a Taça da Liga.

CHEGA PARA LÁ Lateral (aqui no V. Setúbal) ganha duelo ao benfiquista Salvio

CHEGA PARA LÁ Lateral (aqui no V. Setúbal) ganha duelo ao benfiquista Salvio

José Manuel Ribeiro/REUTERS

Voltando ao Benfica: esteve um ano e meio da Luz.
Foi um ano e meio de aprendizagem. Não joguei com tanta regularidade quanto gostaria ou estava à espera, mas cresci como jogador. Até porque quando chegas a um clube da dimensão do Benfica, até só a treinar aprendes, só por estares ao lado de jogadores com grande qualidade. Foi uma boa experiência, mas não fiquei os anos que pretendia.

Trabalhou com Fernando Santos no primeiro ano.
O Fernando Santos foi o treinador que pediu a minha contratação e me deu a oportunidade de vestir a camisola do Benfica. Inicialmente ainda tive as minhas oportunidades, mas depois acabei por não jogar tanto quanto gostaria. Acima de tudo foi a pessoa que acreditou em mim. Era bom treinador, mas não teve sorte. Nessa altura o Benfica não estava tão bem como agora, não era uma equipa tão coesa. Acredito que se fosse hoje e como as coisas estão, certamente o mister Fernando Santos teria tido mais sorte… e eu também!

Fica-lhe alguma tristeza por as coisas não terem corrido bem no Benfica?
Não, não fiquei com tristeza. Tenho é de me sentir privilegiado por ter jogado ao mais alto nível, ter feito aquilo que mais gostava e ter jogado numa equipa grande em Portugal. Olho para trás e acho que muita gente gostaria de ter feito a carreira que eu fiz e ter chegado ao Benfica. Tenho é de estar extremamente orgulhoso pelo que fiz.

Ainda se cruzou com o Rui Costa no Benfica. Esse era daqueles tais com quem se aprendia até nos treinos, não?
Sim, mas quem fala no Rui Costa fala em outros nomes. Há sempre um ou outro jogador que pela grandeza do que conquistou e pelos clubes por onde passou nos faz aprender qualquer coisa. Mas há muitos jogadores que não tiveram metade da carreira e também nos fazem aprender tanto ou mais.

Jogou em nove clubes portugueses, mais um no Chipre. Como foi isso de andar sempre de mala atrás?
Era complicado porque era sempre preciso fazer mudanças e andar com a casa às costas. Mas costumo dizer que quem corre por gosto não cansa. Logo que me sentisse bem - e procurava sempre estar em sítios onde me sentia útil e onde gostavam de mim - iria para qualquer parte. É a minha forma de estar e explica também a minha trajetória. Quando tinha a sensação ou me diziam que não me queriam ou que não estava a ser uma mais-valia, tratava de mudar.

A nível familiar como geria?
Sempre tratei disso com naturalidade. A minha esposa sempre me conheceu como jogador de futebol e por isso já estava precavida: ela sempre soube que hoje estávamos aqui e que no dia seguinte não sabia. E sempre me ajudou e muito nessas mudanças.

No Chipre essa mudança foi um bocadinho mais brusca, não?
Foi uma oportunidade boa. Estava no V. Setúbal e tinha praticamente tudo acordado para ficar mais um ano, mas depois andei um mês atrás do presidente para assinar. Quando vi que estava a terminar o mercado e que não conseguia falar com o presidente tratei de me pôr à estrada. Acabei por arranjar esse contrato no Apollon Limassol. Foi uma mudança grande porque o país é totalmente diferente, a língua também e ia para um campeonato que não conhecia. Mas a verdade é que aconteceu tudo muito naturalmente: fui para lá para estágio e escolher casa e depois mais tarde é que chegou a minha esposa, quando já estava tudo resolvido e eu já estava bem assentado.

Deixou de jogar futebol há um ano. Na altura acabou no Tirsense, com ordenados em atraso. Esse facto precipitou a decisão de abandonar?
Sempre tinha dito ao meu empresário que queria acabar a carreira aos 34, 35 anos. E bateu certo. Não por sentir que não tinha condições para continuar, mas porque via que não me estavam a abrir portas. E depois, ao longo dos anos, ao ver tanta coisa no futebol, com 35 anos não estava para me chatear e andar atrás do presidente do Tirsense para receber. Tratei logo de colocar um ponto final na carreira. Graças a Deus o meu empresário [Carlos Gonçalves] já me tinha feito uma proposta para trabalhar com ele e por isso foi uma questão de lhe telefonar e dizer o que pensava fazer. Disse-lhe que estava cansado de andar atrás daquilo que era meu, que as portas não iriam abrir mais e que seria mais do mesmo. E para ser mais do mesmo prefiro partir para outra fase da minha vida.

Salários em atraso é daqueles temas que vamos ouvindo com frequência quando falamos em futebol português. Teve outras situações complicadas nos clubes por onde passou?
Felizmente não posso dizer que haja algum clube que me tenha ficado a dever o que quer que fosse ao longo da carreira. Há sempre clubes que se atrasam, mas o certo é que no final da época liquidavam tudo. Mas ano após ano as coisas arrastavam-se e houve um desgaste da minha parte. No meu último ano não estava para levar com mais situações dessas e isso precipitou o fim da minha carreira. Isso e o facto de saber que provavelmente nenhum clube de 1ª ou mesmo 2ª liga me iria abrir as portas.

E como tem sido a adaptação à vida de ex-jogador?
Foi uma passagem suave, mas ainda estou em fase de adaptação. O facto de ter terminado a carreira e ter começado logo no dia seguinte a trabalhar na Proeleven fez com que não tivesse saudades do futebol. Sinto saudade da convivência, mas de jogar à bola não.

Há quem opte por deixar completamente o futebol, há quem escolha ser treinador e o Miguelito tornou-se agente. Porquê este caminho?
Até tenho o 1º nível do curso de treinadores, mas ao longo dos anos fui vendo que não era uma coisa que me puxasse. Mas não digo desta água não beberei. Talvez treinador adjunto se enquadrasse mais na minha maneira de ser. Mas, de certa forma, o que estou a fazer já o fazia indiretamente como jogador, porque por todos os plantéis por onde passei encontrava jogadores de qualidade e passava sempre esses nomes ao meu empresário [risos]. Neste momento faço o acompanhamento ao jogadores na área geográfica onde me encontro, neste caso no norte, em Vila do Conde, e ao mesmo tempo faço prospeção.

Gosta desse contacto direto com os jogadores? Sabemos que às vezes o agente é a primeira pessoa a quem um jogador recorre quando tem um problema.
Sim, gosto, até porque com o passar dos anos fui-me tornando num dos jogadores mais velhos dos plantéis em que estava e já fazia um pouco isso com os meus colegas, tentar perceber como eles estavam. É importante tentar perceber os problemas que os jogadores têm, as dificuldades. Isso fascina-me: estar ligado à área do futebol e depois estar a lidar de perto com os jogadores, estar em contacto com eles.