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Dos bocejos aos golos. Valha-nos André Silva. E Corona

O jogo entre Estoril e FC Porto começou sonolento, mas acabou bem animado: 2-1 para os portistas, que se aproximam (para já) do Benfica na liderança da Liga NOS

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JOSE MANUEL RIBEIRO

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"Será impossível mostrar lances de ocasiões de golo desta 1ª parte, mas vamos ao que mais se aproxima disso". O lamento do comentador da SportTV ao intervalo do Estoril-FC Porto era, provavelmente, o lamento de todos os adeptos - e jornalistas - que assistiram ao jogo desta noite na Amoreira entre o 2º e o 16º classificados da Liga NOS.

Na antevisão da partida, Nuno Espírito Santo tinha adiantado que o objetivo do FC Porto era "pressionar" o Benfica, que só joga na segunda-feira em Setúbal, vencendo e ficando a apenas um ponto da liderança.

Mas o que se viu na Amoreira foi um FC Porto amorfo e desorientado, que até é difícil descrever em termos táticos, dada a confusão nos posicionamentos portistas. É que Nuno voltou a chamar André André para a titularidade, quatro meses depois, e o meio-campo do FC Porto, também com Danilo, Herrera e Óliver, nunca conseguiu criar o suficiente para servir André Silva e Diogo Jota, afunilando frequentemente o jogo (possível) para o (sempre cheio) corredor central.

Nada corria particularmente bem à criação dos sectores mais adiantados dos portistas e Nuno Espírito Santo deu sinais de percebê-lo cedo: aos 36', chamou Brahimi, acabadinho de chegar da CAN, e colocou-o em campo, presumivelmente para dar mais largura e criatividade ao ataque - mas, estranhamente, retirou o avançado Jota, que não era dos piores até então.

Ainda assim, a mudança não teve grandes efeitos práticos. É que Brahimi colocou-se (também) no corredor central, pelo que o jogo portista continuou pouco variado e sem criar oportunidades de golo.

Apenas na 2ª parte se viu um outro FC Porto. Primeiro apenas através de alguns lances isolados em que a bola era batida para a área, em livres - Felipe esteve perto de marcar por duas vezes. Mas, depois de Nuno lançar Corona e Rui Pedro, o jogo portista finalmente ganhou mais largura e criatividade.

Com o Estoril raramente a chegar perto da área de Casillas, foi o FC Porto sempre a controlar as operações e a chegar cada vez mais perto do golo. Brahimi tirou um coelho da cartola e ofereceu o golo a Rui Pedro, aos 70', mas o jovem estava fora de jogo.

Sem problema: dez minutos depois, Brahimi voltou a lançar outro colega - André Silva - e o avançado portista foi derrubado por Moreira na área. Penálti que o próprio André Silva marcou, descansando os adeptos mais nervosos e animando - finalmente - um jogo até então pouco emocionante (os lançamentos de petardos para o relvado não fazem parte do jogo...).

Já em cima dos 90', foi a vez de André Silva servir Corona e o mexicano, com um drible que sentou Afonso Taira, fez o 2-0.

Na compensação, Dankler ainda reduziu a vantagem portista, numa bola perdida na área, mas o Estoril - já com apenas 10 jogadores, por expulsão de Diakhité - não tinha forças para mais.

Vitória do FC Porto, que se aproxima da liderança, e dos artistas que gostam de ter a bola e sabem o que fazer com ela. Como escreveu um dia Eduardo Galeano, no seu "Futebol ao sol e à sombra": "O golo é o orgasmo do futebol. E, como o orgasmo, o golo é cada vez menos frequente na vida moderna. Há meio século, era raro uma partida acabar sem golos: 0 a 0, duas bocas abertas, dois bocejos. Agora, os onze jogadores passam o jogo pendurados na trave, dedicados a evitar os golos e sem tempo para fazer nenhum."

Valha-nos André Silva. E Corona. E Brahimi.

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