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É nos lugares pequenos que acontecem as coisas mais incríveis

O que o Moreirense fez na Taça da Liga ficará na história como um dos maiores feitos de um clube português. E um dos mais pequenos

Pedro Candeias

VINGADO O triunfo de Augusto é o triunfo da velha guarda e do empirismo

FRANCISCO LEONG/AFP

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Moreira de Cónegos fez-se vila em 1995, há quase 22 anos e no mesmo ano em que se fizeram Pevidém, Ponte, Pinheiro da Bemposta e Nogueira do Cravo; foram três aldeias de Guimarães e duas de Oliveira de Azeméis que se emanciparam à vizinhança de uma só vez.
Destas cinco terras, Moreira de Cónegos é a mais pequena, uns curtos e compactos 4,72 km quadrados entalados entre Vizela e Santo Tirso, onde hoje cabem 4583 habitantes, 2377 homens e 2476 mulheres, 2814 deles e delas entre os 25 e os 64 anos, e a maior parte trabalha na indústria.

Assim, de chofre, a vila tem três escolas, 10 instalações desportivas, um parque infantil, a Torre Mourisca e a Ponte Romana de Negrelos; e tem de ser um sítio para fés e fezadas, porque estão lá a Igreja Paroquial, as capelas de Santa Marta, da Nossa Senhora da Ajuda, de Santo Ovídio e a de Cruzeiros, e as gentes são devotas a São Paio, o pajem torturado, mutilado e desmembrado por Abderramão III por não renunciar à fé cristã.

Mas, acima de tudo, e o que me traz aqui, Moreira de Cónegos tem o Moreirense Futebol Clube, que ontem se tornou o 16º clube português a ganhar qualquer coisa, às custas do Sporting de Braga. O Moreirense, o vencedor da Taça da Liga (1-0), tem agora menos um troféu do que a Académica e do que o Vitória de Guimarães, e está ao nível do Marítimo, da Olhanense, do Beira-Mar, do Estrela da Amadora, do Leixões e do Carcavelinhos.

luís forra/ lusa

Desta lista de clubes – dos que vivem, dos defuntos e dos que para lá caminham, deus-nosso-senhor os ajude – o Moreirense é o mais pequeno, não só porque vem do lugar mais pequeno, mas também porque é o que menos anos disto leva entre os grandes (o Carcavelinhos fundiu-se com o União Foot-ball Lisboa e dos dois nasceu o Atlético).

Com as devidas distâncias, o Moreirense fez melhor que todos os outros, num tempo diferente, mais polarizado, em que as diferenças entre os maiores e os restantes são mais difíceis de atenuar porque dependem, basicamente, de dinheiro. E numa competição cozinhada e calendarizada mesmo a jeito do Benfica, Sporting, FC Porto e, vá, do Braga, o Moreirense bateu os três primeiros classificados da Liga, em três jogos consecutivos e em três fases diferentes, e levou o troféu para casa. Fez do impossível, improvável e do improvável uma história para contar aos netos.

estela silva/ lusa

É que o Moreirense é treinado por um treinador que não treinava há três anos e meio e que pelo meio fora diretor desportivo e diretor para as relações internacionais do Sporting, e, pasme-se, comentador televisivo. O triunfo do Moreirense é o triunfo de Augusto Inácio, um homem de 61 anos sem freio ou papas na língua, que garante andar por aqui “na desportiva”, que afirma ligar-se ao canal Panda para não ver a Benfica TV, que aconselha Rui Vitória a tomar pastilhas para a azia, que revela ter o “rabo todo picado” das injeções por causa do nervo ciático. E que diz coisas destas no dia em que ergue o caneco: “Esta merda [a taça] que está aqui ao meu lado, carrega isto tudo”. É a vitória do pintas de Lisboa, do empirismo e da velha guarda sobre a geração dos iPADs e dos cardiofrequencímetros, das academias e das faculdades.

Para ajudar a este conto de fadas, o Moreirense é o clube cujos dois melhores jogadores nem são do clube, mas emprestados por outro (Francisco Geraldes e Podence, do Sporting) e cujo goleador também está a prazo (Welthon é do Paços de Ferreira). E o Moreirense tem um guarda-redes georgiano chamado Makaridze e um trinco brasileiro de nome Cauê que já passou pela Roménia, Azerbaijão e Israel.

É estranho, mas nada é tão estranho quanto ter um presidente que foi presidente de um clube vizinho que desceu de divisão durante a sua vigência. Vítor Magalhães dirigiu o Moreirense entre 1996 e 2004, o Vitória de Guimarães entre 2004 e 2007, e os vitorianos caíram à II Liga em 2006.

Noutro lado qualquer, Vítor Magalhães teria a porta fechada no nariz, mas Moreira de Cónegos é um sítio diferente, em que homens e mulheres são sócios e sócias do Moreirense e do Vitória; e Moreira de Cónegos também tem memória e carrega uma dívida moral com o antigo guarda-redes da terra que hoje é um empresário rico e dá dinheiro a ganhar à aldeia onde nasceu.

Provavelmente, é esta pequenez e são estes laços de proximidade que fabricam o tal tecido social que cobre os sonhos. É nos lugares pequenos que acontecem as coisas mais incríveis.